Introdução
Providência?
"É noite, está escuro e eu estou com medo." Assim diz o juiz ao padre no filme de Bergman, "O Ritual", gritando para o desconhecido todo O medo, o silêncio e a solidão de grande parte do nosso mundo desmoronado do século vinte. Em "O Sétimo Selo", outro de seus filmes, um dos personagens, buscando, talvez, uma indicação para o lignificado de algumas das questões e incertezas da vida e da morte, diz: "Transformamos em ídolo o nosso medo e o chamamos de Deus".
A voz de Bergman, vinda da incerteza e do medo da vida vivida apenas dentro da perspectiva desta ordem natural, ou, quando muito, de uma perspectiva dentro da qual a questão "Onde estás, ó Deus?" parece nunca obter uma resposta, fala em nome de muitos outros nos quais uma viva fé em Deus e na sua graciosa intervenção com este mundo já se extinguiu. Seus olhos parecem perceber apenas o fluxo e o refluxo dos acontecimentos e das experiências; suas mentes não conseguem discernir qualquer padrão ou significado; eles perderam o contato (se é que chegaram a captá-lo algum dia) da mão do Deus invisível que tudo governa, que tudo planeja e cujos propósitos dão significado à história, tanto a nível mundial como individual.
Ao contrário dos personagens de Bergman, a fé na providência de Deus (nome generalizado que os cristãos deram à atual atividade de Deus no mundo) está muito viva nos personagens principais e no autor desconhecido do pequeno livro de Rute. A história acontece "nos dias em que julgavam os juízes", dias em que, como veremos, a fé em Deus estava ameaçada por muita coisa "sombria" e "temível". Mas, mesmo num contexto em que a fé era desafiada, o autor insiste conosco, os seus leitores, para que tenhamos certeza da alegria na garantia da providência de Deus.
Antes de examinar os detalhes do livro de Rute, vamos rever o que nós, os cristãos, costumamos entender pelo termo "providência", e destacar algumas das dificuldades que se opõem à fé nos dias de hoje. Retrocederemos, então, a um mundo totalmente diferente do nosso, à Palestina do século XI ou XII a. C., "nos dias em que julgavam os juízes", e descobriremos que, de certa forma, os desafios à fé na providência de Deus naquela época não eram tão diferentes dos desafios de hoje.
O significado de "providência" é bem expresso pelos cristãos de um período anterior ao nosso: Deus, o grande Criador de todas as coisas, realmente sustenta, dirige, predispõe e governa todas as criaturas, ações e coisas, desde a maior até a menor, através de sua sapientíssima e santíssima providência, de acordo com a sua previsão infalível e com o livre e imutável conselho de sua própria vontade, para o louvor e a glória de sua sabedoria, seu poder, sua justiça, sua bondade e sua misericórdia.
Ou, atualizando um pouco a linguagem, os cristãos acreditavam que Deus não apenas criou o mundo, de modo que nós, como criaturas suas, dependemos dele para a nossa existência, mas também sustenta e governa o seu mundo, de forma que dependemos constantemente dele para recebermos "vida, respiração e tudo o mais".
Neste ponto talvez convenha estabelecer uma diferença entre a atividade criadora e sustentadora de Deus, por um lado, e, por outro, a sua providência geral e especial (com as quais lidaremos de forma especial no livro de Rute). Alguns autores usam a palavra "providência" como sinônimo da atividade de Deus ao orientar e governar a ordem das coisas que criou.
"É noite, está escuro e eu estou com medo." Assim diz o juiz ao padre no filme de Bergman, "O Ritual", gritando para o desconhecido todo O medo, o silêncio e a solidão de grande parte do nosso mundo desmoronado do século vinte. Em "O Sétimo Selo", outro de seus filmes, um dos personagens, buscando, talvez, uma indicação para o lignificado de algumas das questões e incertezas da vida e da morte, diz: "Transformamos em ídolo o nosso medo e o chamamos de Deus".
A voz de Bergman, vinda da incerteza e do medo da vida vivida apenas dentro da perspectiva desta ordem natural, ou, quando muito, de uma perspectiva dentro da qual a questão "Onde estás, ó Deus?" parece nunca obter uma resposta, fala em nome de muitos outros nos quais uma viva fé em Deus e na sua graciosa intervenção com este mundo já se extinguiu. Seus olhos parecem perceber apenas o fluxo e o refluxo dos acontecimentos e das experiências; suas mentes não conseguem discernir qualquer padrão ou significado; eles perderam o contato (se é que chegaram a captá-lo algum dia) da mão do Deus invisível que tudo governa, que tudo planeja e cujos propósitos dão significado à história, tanto a nível mundial como individual.
Ao contrário dos personagens de Bergman, a fé na providência de Deus (nome generalizado que os cristãos deram à atual atividade de Deus no mundo) está muito viva nos personagens principais e no autor desconhecido do pequeno livro de Rute. A história acontece "nos dias em que julgavam os juízes", dias em que, como veremos, a fé em Deus estava ameaçada por muita coisa "sombria" e "temível". Mas, mesmo num contexto em que a fé era desafiada, o autor insiste conosco, os seus leitores, para que tenhamos certeza da alegria na garantia da providência de Deus.
Antes de examinar os detalhes do livro de Rute, vamos rever o que nós, os cristãos, costumamos entender pelo termo "providência", e destacar algumas das dificuldades que se opõem à fé nos dias de hoje. Retrocederemos, então, a um mundo totalmente diferente do nosso, à Palestina do século XI ou XII a. C., "nos dias em que julgavam os juízes", e descobriremos que, de certa forma, os desafios à fé na providência de Deus naquela época não eram tão diferentes dos desafios de hoje.
O significado de "providência" é bem expresso pelos cristãos de um período anterior ao nosso: Deus, o grande Criador de todas as coisas, realmente sustenta, dirige, predispõe e governa todas as criaturas, ações e coisas, desde a maior até a menor, através de sua sapientíssima e santíssima providência, de acordo com a sua previsão infalível e com o livre e imutável conselho de sua própria vontade, para o louvor e a glória de sua sabedoria, seu poder, sua justiça, sua bondade e sua misericórdia.
Ou, atualizando um pouco a linguagem, os cristãos acreditavam que Deus não apenas criou o mundo, de modo que nós, como criaturas suas, dependemos dele para a nossa existência, mas também sustenta e governa o seu mundo, de forma que dependemos constantemente dele para recebermos "vida, respiração e tudo o mais".
Neste ponto talvez convenha estabelecer uma diferença entre a atividade criadora e sustentadora de Deus, por um lado, e, por outro, a sua providência geral e especial (com as quais lidaremos de forma especial no livro de Rute). Alguns autores usam a palavra "providência" como sinônimo da atividade de Deus ao orientar e governar a ordem das coisas que criou.
Neste sentido, como
observa Michael Langford, a providência já é parte integrante da
ideia cristã da criação. "Dentro da própria noção do
universo criado já temos a ideia de uma ordem que tem suas próprias
leis, sua própria causalidade e sua própria independência
relativa."
Semelhantemente, os
cristãos falam da atividade sustentadora de Deus como sendo a
mantenedora dessa espécie de ordem, dentro da qual acontecem as
mudanças e o progresso na criação. Assim, num sentido mais amplo,
"providência" inclui também a atividade mantenedora de
Deus. Contudo, é geralmente num sentido pouco mais restrito que se
usa o termo "providência", ou seja, para descrever "o
governo ou a direção da natureza, do homem e da história". É
neste sentido que usaremos o termo quando estivermos tratando do
livro de Rute.
Muitos autores cristãos aconselham estabelecer uma diferença entre providência geral e providência especial. A primeira "refere-se ao governo do universo através de leis universais que controlam ou influenciam o mundo sem a necessidade de atos específicos ou ad hoc da vontade divina".
Muitos autores cristãos aconselham estabelecer uma diferença entre providência geral e providência especial. A primeira "refere-se ao governo do universo através de leis universais que controlam ou influenciam o mundo sem a necessidade de atos específicos ou ad hoc da vontade divina".
A providência
especial, por sua vez, trata de acontecimentos específicos que são
entendidos pelo homem de fé como evidências particulares da
atividade de Deus. "Providência", assim, indica um modo
especial de interpretar os acontecimentos e a natureza, o homem e a
história. A bem da clareza, convém distinguirmos entre
"providência" e "milagre", que se refere
especificamente a uma exceção irrepetível de uma lei da natureza
que, em circunstâncias normais, seria demonstrável. "Providência",
pelo contrário, é "o governo ou a direção da natureza, do
homem e da história; não é a manipulação destas ordens com a
introdução de fatores causais que levariam à mistificação dos
cientistas".
A fé na providência reconhece a dependência criada do mundo e também a sua eventualidade, isto é, Deus poderia ter criado o mundo de maneira diferente. A "providência" reconhece tanto a soberania de Deus no mundo quanto a liberdade do homem de viver de maneira responsável dentro dos limites estabelecidos por Deus. "Para os cristãos, o mundo e a história não são essencialmente significativos por si mesmos, mas têm a ver com Deus e os seus propósitos".
A fé na providência reconhece a dependência criada do mundo e também a sua eventualidade, isto é, Deus poderia ter criado o mundo de maneira diferente. A "providência" reconhece tanto a soberania de Deus no mundo quanto a liberdade do homem de viver de maneira responsável dentro dos limites estabelecidos por Deus. "Para os cristãos, o mundo e a história não são essencialmente significativos por si mesmos, mas têm a ver com Deus e os seus propósitos".
Toda interação de
Deus com o seu mundo (seja escolhendo Abraão para ser o pai de uma
nação ou estabelecendo sua aliança no Sinai; sejam os
acontecimentos do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus
Cristo ou o estabelecimento da igreja cristã e o derramamento do
Espírito Santo, ou seja a experiência contemporânea dos cristãos),
tanto a nível global como pessoal, está alinhada com o seu
propósito geral para a criação, "de compartilhar sua vida,
amor e glória com uma outra realidade sobre a qual ele seria o
Senhor".
Esse Deus, assim creem
os cristãos, revelado em Cristo e comprovado nas Escrituras, existe;
ele se importa, ele governa, ele provê.
Em tal visão de Deus há extremos que devem ser evitados. O deísmo, por exemplo, separa Deus totalmente do seu mundo: ele o criou, afirma, e agora o mundo tem que seguir o seu próprio curso. O panteísmo confunde Deus com tudo o que ele criou. A fé cristã, contrastando com estes dois extremos, entende que Deus é um ser isolado e maior que a sua criação, mas está intimamente envolvido com ela em cada acontecimento. De igual forma, ao contrário da noção epicurista de que o mundo não passa de um acidente do acaso (um ponto de vista ainda largamente defendido), e também da filosofia estóica de que nos encontramos nas mãos de um destino cego, os cristãos creem que o Deus Criador, vivo, pessoal, racional, santo e amoroso, sustenta e governa o seu mundo.
Tal fé na providência de Deus provê um firme ponto de apoio a partir do qual podemos procurar entender o mundo. Para nós, as glórias e as tragédias dos acontecimentos nacionais e globais ou as alegrias e sofrimentos da vida familiar quotidiana não têm significado apenas dentro da história humana ou da biografia pessoal. Seu verdadeiro significado faz parte do propósito de um Deus que se revelou como amor e santidade, como pessoal e infinito, como Cria¬dor e Redentor, como sustentador e governador.
Desta forma as alegrias humanas são enriquecidas, e as incertezas da vida são colocadas no contexto de uma fé com a qual se pode enfrentá-las. A "providência" diz que Deus está conosco, que Deus nos ama, que Deus governa e que Deus provê. É a fé nesse Deus que orienta cada capítulo do livro de Rute.
Desafios à fé
Uma fé como a que descrevemos sofre a ameaça de muitas pressões que isolam, confundem e dão medo, na vida deste nosso século. Ou, quem sabe, deveríamos dizer que a doutrina da providência tem sido negligenciada. Comparemos nossas atuais atitudes com o que J. H. Newman disse há cem anos atrás: "O que as Escrituras exemplificam acima de tudo, desde a primeira até a última página, é a providência de Deus, e esta é quase a única doutrina sustentada de comum acordo pela maioria" das pessoas religiosas.
O nosso século, além de ter passado por guerras mundiais de imensa destruição e de experimentar crescentes pressões para que aguarde e se prepare para mais uma, também tem sido angustiado por enormes questões apocalípticas que ameaçam alterar toda a noção do que significa ser humano. O sacrifício de crianças entre os canaanitas parece nada em comparação com a matança, em escala sem precedentes, de crianças que nem chegam a nascer, nos dias de hoje. Além disso, embora se reconheçam as inúmeras pressões sociais que há por trás dos muitos pedidos de interrupção de gravidez, o aborto geralmente é discutido apenas em termos de "direitos" e "benefícios" dos que já nasceram. Isto tem desencadeado um profundo efeito em nossa consciência social com referência ao que tradicionalmente se tem ensinado como "santidade" da vida. Muitos argumentos a favor do aborto levam logicamente à justificação do infanticídio. Cresce cada vez mais a pressão para que se aplique aos idosos a chamada "morte com dignidade" e para que se negue a vida a algumas crianças que nascem com defeitos. Centenas de milhares de pessoas do nosso mundo morrem de fome devido à negligência da conhecida fartura do Ocidente, e porque os chamados "poderes" preferem usar os menos privilegiados como joguetes políticos em vez de se disporem a resolver os problemas através de uma justa distribuição da rica fartura da terra de Deus.
Tudo isto e muito mais traz à tona a questão que os cristãos costumam proclamar: que cada pessoa é preciosa porque foi criada "à imagem de Deus". A disponibilidade da tecnologia para o controle da natalidade (que, como qualquer outro benefício é passível de abusos), aliada aos meios de comunicação e outras pressões que apoiam a chamada "permissividade", contribui de maneira crescente para uma total separação entre os aspectos unitivos e pro criativos da relação sexual, e entre a relação sexual e o casamento heterossexual, desafiando assim o pensamento tradicional cristão quanto ao significado da masculinidade e da feminilidade.
Em tal visão de Deus há extremos que devem ser evitados. O deísmo, por exemplo, separa Deus totalmente do seu mundo: ele o criou, afirma, e agora o mundo tem que seguir o seu próprio curso. O panteísmo confunde Deus com tudo o que ele criou. A fé cristã, contrastando com estes dois extremos, entende que Deus é um ser isolado e maior que a sua criação, mas está intimamente envolvido com ela em cada acontecimento. De igual forma, ao contrário da noção epicurista de que o mundo não passa de um acidente do acaso (um ponto de vista ainda largamente defendido), e também da filosofia estóica de que nos encontramos nas mãos de um destino cego, os cristãos creem que o Deus Criador, vivo, pessoal, racional, santo e amoroso, sustenta e governa o seu mundo.
Tal fé na providência de Deus provê um firme ponto de apoio a partir do qual podemos procurar entender o mundo. Para nós, as glórias e as tragédias dos acontecimentos nacionais e globais ou as alegrias e sofrimentos da vida familiar quotidiana não têm significado apenas dentro da história humana ou da biografia pessoal. Seu verdadeiro significado faz parte do propósito de um Deus que se revelou como amor e santidade, como pessoal e infinito, como Cria¬dor e Redentor, como sustentador e governador.
Desta forma as alegrias humanas são enriquecidas, e as incertezas da vida são colocadas no contexto de uma fé com a qual se pode enfrentá-las. A "providência" diz que Deus está conosco, que Deus nos ama, que Deus governa e que Deus provê. É a fé nesse Deus que orienta cada capítulo do livro de Rute.
Desafios à fé
Uma fé como a que descrevemos sofre a ameaça de muitas pressões que isolam, confundem e dão medo, na vida deste nosso século. Ou, quem sabe, deveríamos dizer que a doutrina da providência tem sido negligenciada. Comparemos nossas atuais atitudes com o que J. H. Newman disse há cem anos atrás: "O que as Escrituras exemplificam acima de tudo, desde a primeira até a última página, é a providência de Deus, e esta é quase a única doutrina sustentada de comum acordo pela maioria" das pessoas religiosas.
O nosso século, além de ter passado por guerras mundiais de imensa destruição e de experimentar crescentes pressões para que aguarde e se prepare para mais uma, também tem sido angustiado por enormes questões apocalípticas que ameaçam alterar toda a noção do que significa ser humano. O sacrifício de crianças entre os canaanitas parece nada em comparação com a matança, em escala sem precedentes, de crianças que nem chegam a nascer, nos dias de hoje. Além disso, embora se reconheçam as inúmeras pressões sociais que há por trás dos muitos pedidos de interrupção de gravidez, o aborto geralmente é discutido apenas em termos de "direitos" e "benefícios" dos que já nasceram. Isto tem desencadeado um profundo efeito em nossa consciência social com referência ao que tradicionalmente se tem ensinado como "santidade" da vida. Muitos argumentos a favor do aborto levam logicamente à justificação do infanticídio. Cresce cada vez mais a pressão para que se aplique aos idosos a chamada "morte com dignidade" e para que se negue a vida a algumas crianças que nascem com defeitos. Centenas de milhares de pessoas do nosso mundo morrem de fome devido à negligência da conhecida fartura do Ocidente, e porque os chamados "poderes" preferem usar os menos privilegiados como joguetes políticos em vez de se disporem a resolver os problemas através de uma justa distribuição da rica fartura da terra de Deus.
Tudo isto e muito mais traz à tona a questão que os cristãos costumam proclamar: que cada pessoa é preciosa porque foi criada "à imagem de Deus". A disponibilidade da tecnologia para o controle da natalidade (que, como qualquer outro benefício é passível de abusos), aliada aos meios de comunicação e outras pressões que apoiam a chamada "permissividade", contribui de maneira crescente para uma total separação entre os aspectos unitivos e pro criativos da relação sexual, e entre a relação sexual e o casamento heterossexual, desafiando assim o pensamento tradicional cristão quanto ao significado da masculinidade e da feminilidade.
A crescente promessa
do que podemos fazer na pesquisa científica e biomédica, sem a
ideia cor¬respondente do que temos o direito de fazer; o poder de
que dispõem os monopólios multinacionais para tragar os interesses
e os direitos dos indivíduos; tudo isto, a seu próprio modo,
apresenta a questão: "O que é o ser humano?" E o flagelo
do racismo ameaça com violência e guerra em muitos lugares.
G. C. Berkouwer escreveu:
O século vinte, embora produzindo muita coisa boa, não permanecerá para sempre como o século dos campos de concentração e dos pogrons, da guerra e do ódio, do ataque contra a dignidade da própria humanidade? E não devemos suspender a respiração diante do que está por vir?
E, então, ele pergunta, com razão:
Será que o evangelho tem algum significado e valor para a nossa época? Será que a igreja tem a coragem e o direito de pregar o Deus vivo no meio deste mundo sem sentido?
Para muitos o ateísmo parece ser a única conclusão lógica e permissível diante da evidência de nosso tempo.
Concluindo esta discussão, podemos isolar três fatores específicos que têm desafiado a fé na providência de Deus: outros deuses, uma cultura dividida e o problema do mal.
Outros deuses
Não se trata apenas de que "o homem moderno não crê na realidade de Deus", mas, expondo de maneira mais positiva, que "um ateísmo cultural cada vez maior" constitui de fato a fé deste século.
G. C. Berkouwer escreveu:
O século vinte, embora produzindo muita coisa boa, não permanecerá para sempre como o século dos campos de concentração e dos pogrons, da guerra e do ódio, do ataque contra a dignidade da própria humanidade? E não devemos suspender a respiração diante do que está por vir?
E, então, ele pergunta, com razão:
Será que o evangelho tem algum significado e valor para a nossa época? Será que a igreja tem a coragem e o direito de pregar o Deus vivo no meio deste mundo sem sentido?
Para muitos o ateísmo parece ser a única conclusão lógica e permissível diante da evidência de nosso tempo.
Concluindo esta discussão, podemos isolar três fatores específicos que têm desafiado a fé na providência de Deus: outros deuses, uma cultura dividida e o problema do mal.
Outros deuses
Não se trata apenas de que "o homem moderno não crê na realidade de Deus", mas, expondo de maneira mais positiva, que "um ateísmo cultural cada vez maior" constitui de fato a fé deste século.
Esta fé, o
secularismo, reflete uma ideia do homem como senhor total do seu
próprio destino, das coisas materiais como a fonte primeira dos
valores, e da ordem natural como abrangendo toda a realidade. O homem
como centro dos relacionamentos humanos, o materialismo nos valores
humanos e a crença de que este mundo é o fim de todas as coisas —
eis aí as características da fé do homem moderno. Portanto,
"cornamos e bebamos, que amanhã morreremos". É verdade
que, ao lado desta fé, há sempre a expressão do desejo de conhecer
o significado da "noite", das trevas e do medo: "Morremos
apenas uma vez e por tão longo tempo." Mas o que realmente
domina o nosso mundo é "o ateísmo cultural cada vez maior",
e estes outros deuses (humanismo, materialismo, naturalismo)
representam um forte desafio à ideia cristã da providência de
Deus.
Uma cultura dividida O crescimento da ciência moderna, o seu desenvolvimento no cientismo (a ideia de que a ciência tem a chave para todo o conhecimento) e as realizações da tecnologia moderna têm sido, para muita gente, as pontes para a falta de fé em Deus. Como a "Natureza" (uma palavra que antes tinha implicações dos propósitos de Deus para o mundo natural) passou a ser identificada com as "causas naturais", já não mais oramos pelo "pão nosso de cada dia", mas, em lugar disso (e não além disso), esforçamo-nos no cultivo da lavoura e na eficiência da arte de fazer pão. Ainda que Addison cresse que
O espaçoso firmamento no alto, Com todo o céu azul etéreo, E o firmamento salpicado de estrelas, Proclamam sua grande Origem, assim como cria o salmista ("Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos"), nós sabemos muito mais. Os buracos negros, os gigantes vermelhos, os duendes brancos e os programas espaciais de milhões de dólares fazem com que a "Grande Origem" pareça um tanto arcaica, além de improvável. E há muitos cuja compreensão cada vez maior do universo vem acompanhada, não de um profundo senso de adoração, mas de um profundo ceticismo. Steven Weinberg, autor de The First Three Minutes (Os Três Primeiros Minutos), conclui: "Quanto mais compreensível parece o universo, tanto mais parece igualmente sem sentido."
Uma cultura dividida O crescimento da ciência moderna, o seu desenvolvimento no cientismo (a ideia de que a ciência tem a chave para todo o conhecimento) e as realizações da tecnologia moderna têm sido, para muita gente, as pontes para a falta de fé em Deus. Como a "Natureza" (uma palavra que antes tinha implicações dos propósitos de Deus para o mundo natural) passou a ser identificada com as "causas naturais", já não mais oramos pelo "pão nosso de cada dia", mas, em lugar disso (e não além disso), esforçamo-nos no cultivo da lavoura e na eficiência da arte de fazer pão. Ainda que Addison cresse que
O espaçoso firmamento no alto, Com todo o céu azul etéreo, E o firmamento salpicado de estrelas, Proclamam sua grande Origem, assim como cria o salmista ("Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos"), nós sabemos muito mais. Os buracos negros, os gigantes vermelhos, os duendes brancos e os programas espaciais de milhões de dólares fazem com que a "Grande Origem" pareça um tanto arcaica, além de improvável. E há muitos cuja compreensão cada vez maior do universo vem acompanhada, não de um profundo senso de adoração, mas de um profundo ceticismo. Steven Weinberg, autor de The First Three Minutes (Os Três Primeiros Minutos), conclui: "Quanto mais compreensível parece o universo, tanto mais parece igualmente sem sentido."
Embora, naturalmente,
muitos membros da comunidade científica estejam alertas às
limitações do método científico, ou, melhor dizendo, ilo próprio
lugar da questão do conhecimento humano nos processos da ciência,
bem como às questões éticas que as possibilidades tecnológicas
levantam cada vez mais, a nossa cultura ficou soterrada pela aparente
irrelevância de Deus para a nossa mentalidade e moralidade modernas.
Isto se aplica à maneira como encaramos os assuntos globais e
nacionais, como também à forma como organizamos nossas prioridades
familiares. Mesmo entre os cristãos, a "mentalidade cristã"
desapareceu quase por completo, e muitas decisões éticas são
tomadas com base num hedonismo cristianizado ("Se assim nos
sentimos tão bem, só pode ser a vontade de Deus!"), ou um
utilitarismo cristianizado (que mede "o que Deus quer"
apenas pela quantidade de "benefícios" que produz). Em seu
livro God Alive (Deus Vivo), o Bispo Leonard escreve acertadamente
que "não é exagero dizer que o cristão comum de hoje vê a
religião principalmente em termos da ajuda que Deus lhe pode dar
neste mundo, com uma vaga expectativa em relação ao mundo vindouro,
e não como um relacionamento criativo e ativo com Deus; um
relacionamento que tem implicações confessionais para esta vida,
mas que se concretiza na eternidade. Falando de maneira franca, é
uma atitude que olha para Deus em termos de sua utilidade e não como
um objeto de adoração e amor".
Um "positivismo utilitário" (que se concentra principalmente em observar os fatos que lhe são úteis) está se tornando cada vez mais um ponto de vista dominante da natureza da ciência. Mas continua sem resposta a pergunta se a ciência, seccionada de suas raízes na tradição cristã dentro da qual ela nasceu, pode permanecer sem se diluir em algo que não passe de uma tecnologia secularizada na qual os lucros se tornaram mais importantes do que a verdade.
Um "positivismo utilitário" (que se concentra principalmente em observar os fatos que lhe são úteis) está se tornando cada vez mais um ponto de vista dominante da natureza da ciência. Mas continua sem resposta a pergunta se a ciência, seccionada de suas raízes na tradição cristã dentro da qual ela nasceu, pode permanecer sem se diluir em algo que não passe de uma tecnologia secularizada na qual os lucros se tornaram mais importantes do que a verdade.
Além disso, em certos
trabalhos científicos, por exemplo nos bebés de proveta, parece que
também ouvimos a variante da canção do pesquisador: "Parece
tão certo que não pode estar errado."
Em tal ambiente, não nos surpreende que tenha ocorrido uma divisão esquizofrênica: os aspectos "religiosos" da vida ficaram separados do mundo de cada dia. Vemos isto, às vezes, no voo místico das experiências religiosas subjetivas que podem perder de tal forma o contato com o solo objetivo da fé que se tornam emocionalmente equivalentes a outras experiências que intensificam as nossas percepções, exceto que usam a linguagem religiosa para descrevê-las. Às vezes, a divisão se percebe no piedoso afastamento do "mundo", considerado um lugar ruim, para um ambiente "mais puro" de interesses "espirituais" e para uma fé pessoal que é apenas individual. No voo rumo ao subjetivismo vemos como a ênfase na experiência por amor à experiência é separada (ou privada) de uma compreensão da verdade divina como revelação objetiva. No pietismo geralmente há uma reverência para com a palavra de revelação divina e, ao mesmo tempo, também a imposição de uma divisão, estranha à mentalidade da Bíblia, entre o mundo do espírito e o mundo de cada dia, frequentemente com linhas de "separação" traçadas por uma convenção arbitrária ou pela tradição.
Esta divisão cultural, que separa a "religião" da questão principal da história e da ciência, representa uma ameaça à compreensão unificada de vida e de mundo que era possível, e ainda é, através da crença na providência de Deus.
O problema do mal
Sem dúvida, a maior ameaça à fé na providência de Deus é a realidade do mal em nosso mundo. Não apenas os campos de concentração e os pogrons, mas também a dor do luto, as manchetes sobre mais uma seca ou um furacão devastador, a cruel desigualdade de oportunidades e prosperidade em diferentes partes do mundo, o câncer do nosso vizinho, tudo isto levanta a pergunta: "Onde está Deus?" Como, num mundo onde tanto mal parece não ter sentido, podemos continuar acreditando na manutenção e no governo providencial de Deus? Para o crente cristão, parte do significado da fé é que é o dom de Deus que nos capacita a enfrentar as incertezas e a aparente falta de significado (que o Pregador chamou de "vaidade") de grande parte da história deste mundo desmoronado. Mas imaginar que essa fé nunca se sente ameaçada pela maldade do homem para com o homem, ou pelos azares da "natureza", é superproteção bem-aventurada ou estupidez obstinada.
Há, deste lado do céu, muitas coisas cujo significado encontra-se escondido no mistério de Deus. Há muitas experiências que muitos de nós teríamos preferido não atravessar. Embora grande parte do mal possa ser entendida em termos do abandono pecaminoso, por parte do homem, dos padrões de vida que, como ensina a fé cristã, personificam a vontade de Deus, há muita coisa que não tem explicação ou causa humana. A nossa fé na providência de Deus deve ser suficientemente grande para enfrentar estas incertezas, como também para lidar com os sentimentos dolorosos e às vezes amargos que elas j;oram. Conforme veremos, os personagens do livro de Rute também tiveram de enfrentar incertezas. Descobriremos também como, para eles, a fé em Deus foi um dom que ajudou a enfrentar tudo.
"Nos dias em que julgavam os juízes"
Os detalhes da vida do século XX diferem de tantas formas dos dias da Palestina do século XI ou XII a. C. que abrir o livro de Rute no contexto desse período dos juízes de Israel é como andar em outro mundo. Mas os crentes em Javé, o nome pelo qual eles foram convidados a conhecer o seu Deus, estavam eles mesmos enfrentando um período de desafios sem precedentes à sua fé.
Israel passara por anos de sublevações. Conforme criam, no êxodo o seu Deus os havia libertado da escravidão no Egito. Depois dos anos no deserto, ele os preservara através das guerras da conquista e os introduzira na posse da terra prometida. Mas a confederação das tribos de Israel estava mal estabelecida na fé. O povo de Deus, agora em Canaã, lutava para se ajustar a um estilo de vida rural e para se tornar uma nação. B. W. Anderson chama isto de "luta entre a fé e a cultura".
Em tal ambiente, não nos surpreende que tenha ocorrido uma divisão esquizofrênica: os aspectos "religiosos" da vida ficaram separados do mundo de cada dia. Vemos isto, às vezes, no voo místico das experiências religiosas subjetivas que podem perder de tal forma o contato com o solo objetivo da fé que se tornam emocionalmente equivalentes a outras experiências que intensificam as nossas percepções, exceto que usam a linguagem religiosa para descrevê-las. Às vezes, a divisão se percebe no piedoso afastamento do "mundo", considerado um lugar ruim, para um ambiente "mais puro" de interesses "espirituais" e para uma fé pessoal que é apenas individual. No voo rumo ao subjetivismo vemos como a ênfase na experiência por amor à experiência é separada (ou privada) de uma compreensão da verdade divina como revelação objetiva. No pietismo geralmente há uma reverência para com a palavra de revelação divina e, ao mesmo tempo, também a imposição de uma divisão, estranha à mentalidade da Bíblia, entre o mundo do espírito e o mundo de cada dia, frequentemente com linhas de "separação" traçadas por uma convenção arbitrária ou pela tradição.
Esta divisão cultural, que separa a "religião" da questão principal da história e da ciência, representa uma ameaça à compreensão unificada de vida e de mundo que era possível, e ainda é, através da crença na providência de Deus.
O problema do mal
Sem dúvida, a maior ameaça à fé na providência de Deus é a realidade do mal em nosso mundo. Não apenas os campos de concentração e os pogrons, mas também a dor do luto, as manchetes sobre mais uma seca ou um furacão devastador, a cruel desigualdade de oportunidades e prosperidade em diferentes partes do mundo, o câncer do nosso vizinho, tudo isto levanta a pergunta: "Onde está Deus?" Como, num mundo onde tanto mal parece não ter sentido, podemos continuar acreditando na manutenção e no governo providencial de Deus? Para o crente cristão, parte do significado da fé é que é o dom de Deus que nos capacita a enfrentar as incertezas e a aparente falta de significado (que o Pregador chamou de "vaidade") de grande parte da história deste mundo desmoronado. Mas imaginar que essa fé nunca se sente ameaçada pela maldade do homem para com o homem, ou pelos azares da "natureza", é superproteção bem-aventurada ou estupidez obstinada.
Há, deste lado do céu, muitas coisas cujo significado encontra-se escondido no mistério de Deus. Há muitas experiências que muitos de nós teríamos preferido não atravessar. Embora grande parte do mal possa ser entendida em termos do abandono pecaminoso, por parte do homem, dos padrões de vida que, como ensina a fé cristã, personificam a vontade de Deus, há muita coisa que não tem explicação ou causa humana. A nossa fé na providência de Deus deve ser suficientemente grande para enfrentar estas incertezas, como também para lidar com os sentimentos dolorosos e às vezes amargos que elas j;oram. Conforme veremos, os personagens do livro de Rute também tiveram de enfrentar incertezas. Descobriremos também como, para eles, a fé em Deus foi um dom que ajudou a enfrentar tudo.
"Nos dias em que julgavam os juízes"
Os detalhes da vida do século XX diferem de tantas formas dos dias da Palestina do século XI ou XII a. C. que abrir o livro de Rute no contexto desse período dos juízes de Israel é como andar em outro mundo. Mas os crentes em Javé, o nome pelo qual eles foram convidados a conhecer o seu Deus, estavam eles mesmos enfrentando um período de desafios sem precedentes à sua fé.
Israel passara por anos de sublevações. Conforme criam, no êxodo o seu Deus os havia libertado da escravidão no Egito. Depois dos anos no deserto, ele os preservara através das guerras da conquista e os introduzira na posse da terra prometida. Mas a confederação das tribos de Israel estava mal estabelecida na fé. O povo de Deus, agora em Canaã, lutava para se ajustar a um estilo de vida rural e para se tornar uma nação. B. W. Anderson chama isto de "luta entre a fé e a cultura".
Usando títulos
similares aos que usamos para os nossos tempos, podemos separar as
principais pressões exercidas sobre o crente israelita pelas
tentações da cultura canaanita que o rodeava.
Outros deuses Como os povos de hoje, os cananeus da antiguidade estavam absorvidos pela busca do segredo da prosperidade. Como fortalecer a economia? Como garantir empregos para todos? Como prover um salário adequado às necessidades e à manutenção dos padrões de vida? Considerando que sua economia era predominantemente agrícola, sua busca da prosperidade focalizava a necessidade de uma terra fértil que desse colheitas abundantes e rebanhos férteis, e de um casamento fértil que produzisse, no devido tempo, trabalhadores e herdeiros para a fazenda. A religião era, segundo pensavam, a chave da prosperidade. Apenas Deus podia criar a fertilidade, e particularmente o deus Baal, que significa "senhor", ou "dono". Baal era o nome de sua divindade masculina. Na crença canaanita, ele era o dono da terra e controlava a sua fertilidade. Sua companheira feminina era Astarte (pi. Astarote).
Outros deuses Como os povos de hoje, os cananeus da antiguidade estavam absorvidos pela busca do segredo da prosperidade. Como fortalecer a economia? Como garantir empregos para todos? Como prover um salário adequado às necessidades e à manutenção dos padrões de vida? Considerando que sua economia era predominantemente agrícola, sua busca da prosperidade focalizava a necessidade de uma terra fértil que desse colheitas abundantes e rebanhos férteis, e de um casamento fértil que produzisse, no devido tempo, trabalhadores e herdeiros para a fazenda. A religião era, segundo pensavam, a chave da prosperidade. Apenas Deus podia criar a fertilidade, e particularmente o deus Baal, que significa "senhor", ou "dono". Baal era o nome de sua divindade masculina. Na crença canaanita, ele era o dono da terra e controlava a sua fertilidade. Sua companheira feminina era Astarte (pi. Astarote).
Baal e Astarte eram
entendidos como divindades cósmicas que habitavam nos céus e também
eram associados a localidades particulares. O ciclo regular da
natureza e a fertilidade do solo, a nova vida da primavera
seguindo-se à esterilidade do inverno, eram devidos às relações
sexuais entre Baal e sua companheira.
O homem não era um simples espectador deste casamento dos deuses. Era extremamente importante que os deuses não se esquecessem disso, e a técnica empregada para lembrá-los constantemente das necessidades da terra era a "mágica imitativa". As pessoas realizavam, na terra, atos equivalentes àqueles que desejavam que os deuses realizassem nos céus. Por este motivo, os santuários de Baal, geralmente localizados nos altos desnudos das montanhas para terem mais chances de serem vistos pelos deuses, eram cenários de ritos sexuais orgíacos. Homens e mulheres se alistavam no serviço do deus e copulavam livremente com os adoradores femininos e masculinos.
Tal religião parecia atraente a Israel, que acabara de se envolver com um estilo de vida agrícola. Como Anderson observa, não nos surpreende que os israelitas, não acostumados com a agricultura, se sentissem tentados a buscar os deuses da terra.
Naturalmente, na mente israelita, a fertilidade da terra e a prosperidade entre o povo faziam parte das bênçãos prometidas e associadas à aliança que Javé fizera com eles e suas famílias. O desfrute dessas bênçãos da fertilidade e da prosperidade estava ligado às obrigações da aliança que o povo tinha com Javé, de viver em obediência responsiva à vontade deste. Tal princípio, engastado talvez de maneira mais clara na bênção e nas maldições do capítulo 28 de Deuteronômio, é o padrão da aliança desde os primeiros dias: "Eu serei vosso Deus; vós sereis o meu povo."
O homem não era um simples espectador deste casamento dos deuses. Era extremamente importante que os deuses não se esquecessem disso, e a técnica empregada para lembrá-los constantemente das necessidades da terra era a "mágica imitativa". As pessoas realizavam, na terra, atos equivalentes àqueles que desejavam que os deuses realizassem nos céus. Por este motivo, os santuários de Baal, geralmente localizados nos altos desnudos das montanhas para terem mais chances de serem vistos pelos deuses, eram cenários de ritos sexuais orgíacos. Homens e mulheres se alistavam no serviço do deus e copulavam livremente com os adoradores femininos e masculinos.
Tal religião parecia atraente a Israel, que acabara de se envolver com um estilo de vida agrícola. Como Anderson observa, não nos surpreende que os israelitas, não acostumados com a agricultura, se sentissem tentados a buscar os deuses da terra.
Naturalmente, na mente israelita, a fertilidade da terra e a prosperidade entre o povo faziam parte das bênçãos prometidas e associadas à aliança que Javé fizera com eles e suas famílias. O desfrute dessas bênçãos da fertilidade e da prosperidade estava ligado às obrigações da aliança que o povo tinha com Javé, de viver em obediência responsiva à vontade deste. Tal princípio, engastado talvez de maneira mais clara na bênção e nas maldições do capítulo 28 de Deuteronômio, é o padrão da aliança desde os primeiros dias: "Eu serei vosso Deus; vós sereis o meu povo."
"Se ouvires a voz
do Senhor teu Deus, virão sobre ti e te alcançarão todas estas
bênçãos." Mas a fascinação dos outros deuses era
forte.
Hoje, a atração não se encontra na mágica imitativa para sacudir a memória de Baal. É, antes, o engano da crença vã de que "as leis econômicas", "as políticas monetárias", "o comércio livre", "a nacionalização", ou seja lá o que for, vão por si mesmos gerar prosperidade, se nos submetermos a eles e os adorarmos. Com muita facilidade nos esquecemos de que a santidade obediente em atender o que sabemos ser a vontade de Deus será sempre o fator principal da força, da harmonia e da prosperidade social. Conforme comentou Len Murray, na reedição do livro de William Temple, Christianüy and Social Order (Cristianismo e Ordem Social): "É um constante lembrete da verdade das palavras de R. A. Butler, que 'se não for tocada pela moralidade e pelo idealismo, a economia é uma atividade árida e a política é inútil'".
Hoje, a atração não se encontra na mágica imitativa para sacudir a memória de Baal. É, antes, o engano da crença vã de que "as leis econômicas", "as políticas monetárias", "o comércio livre", "a nacionalização", ou seja lá o que for, vão por si mesmos gerar prosperidade, se nos submetermos a eles e os adorarmos. Com muita facilidade nos esquecemos de que a santidade obediente em atender o que sabemos ser a vontade de Deus será sempre o fator principal da força, da harmonia e da prosperidade social. Conforme comentou Len Murray, na reedição do livro de William Temple, Christianüy and Social Order (Cristianismo e Ordem Social): "É um constante lembrete da verdade das palavras de R. A. Butler, que 'se não for tocada pela moralidade e pelo idealismo, a economia é uma atividade árida e a política é inútil'".
Se em lugar de
"moralidade" colocarmos "santidade" e, em vez de
"idealismo", "interesses espirituais", a questão
fica ainda mais incisiva. Os problemas fundamentais que jazem no
âmago da vida nacional não são econômicos ou políticos, mas
espirituais: ou seja, a falha em perceber que a adoração da
economia ou da teoria política é uma idolatria que nos cega em
relação ao Deus vivo. Assim como nos dias em que os juízes
julgavam, também hoje a fé na providência de Deus não pode andar
confortavelmente de mãos dadas com a fascinação pelos outros
deuses.
Uma cultura dividida
Muitas vezes, a religião tem sido usada para manter o status quo.ss Para aqueles que têm conforto, a religião pode ser facilmente invocada como sanção divina para que continuem vivendo no conforto. E o adorador de Baal não era exceção. Para ele, a religião, com seu interesse central focalizado na fertilidade, servia para preservar e intensificar o ciclo perpétuo da natureza. O alvo dos deuses era preservar a ordem estabelecida; a religião, portanto, tinha um interesse de mantê-la. O adorador de Baal, através de sua mágica imitativa, procurava controlar os deuses para esse fim. Mas isso não acontecia com o israelita que conhecesse Javé!
Javé se revelara na história, no acontecimento único do êxodo e no estabelecimento de sua aliança. Javé é o Deus vivo que se revela na ação como o Senhor da história, e cujo envolvimento nos processos comuns da vida humana constitui um constante desafio ao status quo com um convite à obediência renovada, crescimento em santidade, justiça e amor. Não vamos imaginar que o crente israelita tentasse desvirtuar a vontade de Javé! O povo da aliança de Javé buscava servir ao seu Deus em obediência cheia de gratidão e sensibilidade.
Na verdadeira espiritualidade israelita, a fé religiosa e a vida moral estavam inseparavelmente unidas. Um exemplo claro é a maneira como o nome de Deus ("Eu sou o Senhor") perpassa, nas prescrições éticas naturais do Código Santo,36 por cada aspecto da vida doméstica, social, econômica e agrícola, como também da religião e do culto. Sendo Deus o que ele é ("Eu sou o que sou"), cada aspecto da vida ética envolve para o israelita uma aplicação da natureza de Deus à situação humana.
Descrevendo os pontos altos da espiritualidade israelita, H. H.
Rowley observa: A vida benéfica ... conforme nos é apresentada no Antigo Testamento, é a vida que é vivida em harmonia com a vontade de Deus e que se expressa na vida diária em reflexo do caráter divino traduzido em termos de experiência humana, que extrai a sua inspiração e a sua força da comunhão com Deus na confraternização do seu povo e na experiência particular, e que sabe como adorar e louvá-lo em público e também na solidão do próprio coração. Contudo, nos dias em que os juízes julgavam, as pessoas que tinham fé ficavam tolhidas na tensão entre a vontade de Javé, que eles sabiam ter relevância para cada área da vida, e a ordem social vigente, com o seu ciclo de padrões da vida agrícola. O povo estava rodeado pela religião de Baal. Parece que esta tensão às vezes se comprovava pela tentação de deixar Javé mais à vontade, deixando-o agir em apenas um cantinho da vida e sendo, nos demais aspectos, abertos aos métodos mais naturalistas do culto a Baal. Esta tendência de manter o culto a Javé e a Baal lado a lado é expresso por B. W. Anderson desta forma: "Para Javé eles olhavam nos períodos de crise militar; para Baal, voltavam-se para ter sucesso na agricultura."
Como é fácil relegar Deus a apenas determinadas áreas de nossos interesses! Este, porém, é o primeiro passo decisivo para a divisão cultural, que já mencionamos antes, na qual o verdadeiro significado de Deus e da vida humana se perde na fuga rumo ao subjetivismo e ao pietismo.
Existe, realmente, uma verdadeira "separação" para o povo de Deus, mas não em termos de divisão entre o "sagrado" e o "secular", sendo que os interesses de Deus se encaixam no primeiro. Isso, infelizmente, foi exemplificado pela observação do Lorde Melbourne, Primeiro Ministro da Rainha Vitória, depois de ouvir um pregador evangélico, ao dizer que se a religião interfere com os negócios particulares da vida, isso já é demais! Não, para o povo de Deus a verdadeira separação é a sua característica de povo chamado para formar a família da aliança de Deus, perceptível em suas reações corporativa e individual, de santidade obediente a Deus e de serviço prestado ao próximo, expresso em cada área da vida e dos relacionamentos humanos.
A fé na providência de Deus e no seu ativo envolvimento em toda a vida não dura muito tempo quando Deus é mantido "guardado" em um canto, enquanto esperamos para ver o que Baal tem a oferecer.
O problema do mal
Não devemos imaginar que o período dos juízes foi totalmente sem fé! Se houvesse tempo, o escritor de Hebreus teria desenvolvido mais a rápida citação que fez da fé de Gideão, Baraque, Sansão e Jefté. Longe de serem homens perfeitos, é verdade, mas homens que conheciam o seu Deus e que, à sua própria maneira, demonstraram a realidade de uma fé viva. Eles trouxeram um pouco de liderança e orientação a um povo confuso e ameaçado por novas circunstâncias. Mas isto foi convulsivo e passageiro, e não houve estabilidade duradoura. Foi também um período de grande maldade. A apostasia do povo provocou o castigo de Deus. Os homicídios e a guerra, os estupros e os saques faziam parte da ordem do dia. A poli rica inimiga da devastação da terra acabou com a economia agrícola.
A segunda parte do livro de Juízes descreve um quadro sinistro de inquietação civil e de violência, de desintegração social, de imoralidade sexual, de agressões e de guerras. As pessoas que tinham fé entendiam isto em termos do juízo de Javé por causa do fracasso do povo em viver segundo a justiça de Javé. "Naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto."44
Mas como Deus podia permitir este mal? Onde ficavam agora as bênçãos da aliança? Como podiam ter fé na providência de Deus? Será que ele ainda se preocupava com cada aspecto da vida? Tais perguntas deveriam se esgotar facilmente na mente daqueles cujo destino se resumia simplesmente em acatar o mal aparentemente sem fim.
A atração exercida pelos outros deuses e a tentação de desligar os interesses de Javé da vida quotidiana; o caos social, a miséria pessoal e a dura experiência do juízo divino: é isto que caracteriza de maneira especial "os dias em que julgavam os juízes". A abrangência do livro de Juizes é imensa (lutas nacionais e internacionais) e o ambiente é sombrio e difícil para quem crê na providência de Deus.
O livro de Rute
É na escuridão dessas questões que reluz o livro de Rute.
Uma cultura dividida
Muitas vezes, a religião tem sido usada para manter o status quo.ss Para aqueles que têm conforto, a religião pode ser facilmente invocada como sanção divina para que continuem vivendo no conforto. E o adorador de Baal não era exceção. Para ele, a religião, com seu interesse central focalizado na fertilidade, servia para preservar e intensificar o ciclo perpétuo da natureza. O alvo dos deuses era preservar a ordem estabelecida; a religião, portanto, tinha um interesse de mantê-la. O adorador de Baal, através de sua mágica imitativa, procurava controlar os deuses para esse fim. Mas isso não acontecia com o israelita que conhecesse Javé!
Javé se revelara na história, no acontecimento único do êxodo e no estabelecimento de sua aliança. Javé é o Deus vivo que se revela na ação como o Senhor da história, e cujo envolvimento nos processos comuns da vida humana constitui um constante desafio ao status quo com um convite à obediência renovada, crescimento em santidade, justiça e amor. Não vamos imaginar que o crente israelita tentasse desvirtuar a vontade de Javé! O povo da aliança de Javé buscava servir ao seu Deus em obediência cheia de gratidão e sensibilidade.
Na verdadeira espiritualidade israelita, a fé religiosa e a vida moral estavam inseparavelmente unidas. Um exemplo claro é a maneira como o nome de Deus ("Eu sou o Senhor") perpassa, nas prescrições éticas naturais do Código Santo,36 por cada aspecto da vida doméstica, social, econômica e agrícola, como também da religião e do culto. Sendo Deus o que ele é ("Eu sou o que sou"), cada aspecto da vida ética envolve para o israelita uma aplicação da natureza de Deus à situação humana.
Descrevendo os pontos altos da espiritualidade israelita, H. H.
Rowley observa: A vida benéfica ... conforme nos é apresentada no Antigo Testamento, é a vida que é vivida em harmonia com a vontade de Deus e que se expressa na vida diária em reflexo do caráter divino traduzido em termos de experiência humana, que extrai a sua inspiração e a sua força da comunhão com Deus na confraternização do seu povo e na experiência particular, e que sabe como adorar e louvá-lo em público e também na solidão do próprio coração. Contudo, nos dias em que os juízes julgavam, as pessoas que tinham fé ficavam tolhidas na tensão entre a vontade de Javé, que eles sabiam ter relevância para cada área da vida, e a ordem social vigente, com o seu ciclo de padrões da vida agrícola. O povo estava rodeado pela religião de Baal. Parece que esta tensão às vezes se comprovava pela tentação de deixar Javé mais à vontade, deixando-o agir em apenas um cantinho da vida e sendo, nos demais aspectos, abertos aos métodos mais naturalistas do culto a Baal. Esta tendência de manter o culto a Javé e a Baal lado a lado é expresso por B. W. Anderson desta forma: "Para Javé eles olhavam nos períodos de crise militar; para Baal, voltavam-se para ter sucesso na agricultura."
Como é fácil relegar Deus a apenas determinadas áreas de nossos interesses! Este, porém, é o primeiro passo decisivo para a divisão cultural, que já mencionamos antes, na qual o verdadeiro significado de Deus e da vida humana se perde na fuga rumo ao subjetivismo e ao pietismo.
Existe, realmente, uma verdadeira "separação" para o povo de Deus, mas não em termos de divisão entre o "sagrado" e o "secular", sendo que os interesses de Deus se encaixam no primeiro. Isso, infelizmente, foi exemplificado pela observação do Lorde Melbourne, Primeiro Ministro da Rainha Vitória, depois de ouvir um pregador evangélico, ao dizer que se a religião interfere com os negócios particulares da vida, isso já é demais! Não, para o povo de Deus a verdadeira separação é a sua característica de povo chamado para formar a família da aliança de Deus, perceptível em suas reações corporativa e individual, de santidade obediente a Deus e de serviço prestado ao próximo, expresso em cada área da vida e dos relacionamentos humanos.
A fé na providência de Deus e no seu ativo envolvimento em toda a vida não dura muito tempo quando Deus é mantido "guardado" em um canto, enquanto esperamos para ver o que Baal tem a oferecer.
O problema do mal
Não devemos imaginar que o período dos juízes foi totalmente sem fé! Se houvesse tempo, o escritor de Hebreus teria desenvolvido mais a rápida citação que fez da fé de Gideão, Baraque, Sansão e Jefté. Longe de serem homens perfeitos, é verdade, mas homens que conheciam o seu Deus e que, à sua própria maneira, demonstraram a realidade de uma fé viva. Eles trouxeram um pouco de liderança e orientação a um povo confuso e ameaçado por novas circunstâncias. Mas isto foi convulsivo e passageiro, e não houve estabilidade duradoura. Foi também um período de grande maldade. A apostasia do povo provocou o castigo de Deus. Os homicídios e a guerra, os estupros e os saques faziam parte da ordem do dia. A poli rica inimiga da devastação da terra acabou com a economia agrícola.
A segunda parte do livro de Juízes descreve um quadro sinistro de inquietação civil e de violência, de desintegração social, de imoralidade sexual, de agressões e de guerras. As pessoas que tinham fé entendiam isto em termos do juízo de Javé por causa do fracasso do povo em viver segundo a justiça de Javé. "Naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto."44
Mas como Deus podia permitir este mal? Onde ficavam agora as bênçãos da aliança? Como podiam ter fé na providência de Deus? Será que ele ainda se preocupava com cada aspecto da vida? Tais perguntas deveriam se esgotar facilmente na mente daqueles cujo destino se resumia simplesmente em acatar o mal aparentemente sem fim.
A atração exercida pelos outros deuses e a tentação de desligar os interesses de Javé da vida quotidiana; o caos social, a miséria pessoal e a dura experiência do juízo divino: é isto que caracteriza de maneira especial "os dias em que julgavam os juízes". A abrangência do livro de Juizes é imensa (lutas nacionais e internacionais) e o ambiente é sombrio e difícil para quem crê na providência de Deus.
O livro de Rute
É na escuridão dessas questões que reluz o livro de Rute.
Embora tenha sido
escrito bem depois dos acontecimentos descritos, o autor coloca a
história "nos dias em que julgavam os juízes".
É uma história de
encanto e deleite. De acordo com A. Weiser, Goethe a chamou de "a
mais bela obra completa em escala reduzida, que nos foi dada como um
tratado ético e um idílio". Ele também cita o veredito de
Rud. Alexander Schroeder: "Nenhum poeta do mundo escreveu um
conto mais belo."
O livro de Rute é uma história sobre gente muito comum que enfrenta acontecimentos muito comuns. Aqui vemos Noemi, que passou por muitas dificuldades, fome e perda de entes queridos, mas que finalmente encontrou paz e segurança. Encontramos Rute, a moça estrangeira de Moabe, que se apegou à sua sogra Noemi e ao Deus desta, recebendo a sua bênção. E encontramos Boaz, o parente afim de Noemi, que foi bondoso para com Rute e Noemi e que, casando-se com Rute, entrou no propósito de Deus para a história: história tão significativa que o grande rei Davi e, portanto, o próprio Senhor Jesus Cristo, encontram-se entre os seus descendentes.
Das muitas genealogias apresentadas no Antigo Testamento, sabemos que até o período de Cristo os crentes em Javé preservavam a árvore genealógica através de séculos de sua história. É sobre essa tradição que o nosso autor se apoia. Conforme comentário de G. A. F. Knight, "não temos motivos para duvidar que houve uma Noemi que realmente foi a Moabe com o marido e os dois filhos." Estamos, segundo consta, lidando com uma história real. Como todo historia¬dor, o autor do livro de Rute selecionou, dentre todos os acontecimentos, aqueles que melhor serviam aos seus propósitos de escritor.
Quais eram exatamente estes propósitos tem constituído um as¬sunto para discussão entre especialistas do Antigo Testamento. Há muitos que pensam que o livro foi escrito depois do exílio, como reação aos aparentemente rígidos pontos de vista de Esdras e Neemias, que faziam o povo de Deus lembrar sua exclusividade; aqueles que se casaram com estrangeiros foram chamados de volta à fé dos seus pais, na qual tais casamentos mistos eram banidos.
O livro de Rute é uma história sobre gente muito comum que enfrenta acontecimentos muito comuns. Aqui vemos Noemi, que passou por muitas dificuldades, fome e perda de entes queridos, mas que finalmente encontrou paz e segurança. Encontramos Rute, a moça estrangeira de Moabe, que se apegou à sua sogra Noemi e ao Deus desta, recebendo a sua bênção. E encontramos Boaz, o parente afim de Noemi, que foi bondoso para com Rute e Noemi e que, casando-se com Rute, entrou no propósito de Deus para a história: história tão significativa que o grande rei Davi e, portanto, o próprio Senhor Jesus Cristo, encontram-se entre os seus descendentes.
Das muitas genealogias apresentadas no Antigo Testamento, sabemos que até o período de Cristo os crentes em Javé preservavam a árvore genealógica através de séculos de sua história. É sobre essa tradição que o nosso autor se apoia. Conforme comentário de G. A. F. Knight, "não temos motivos para duvidar que houve uma Noemi que realmente foi a Moabe com o marido e os dois filhos." Estamos, segundo consta, lidando com uma história real. Como todo historia¬dor, o autor do livro de Rute selecionou, dentre todos os acontecimentos, aqueles que melhor serviam aos seus propósitos de escritor.
Quais eram exatamente estes propósitos tem constituído um as¬sunto para discussão entre especialistas do Antigo Testamento. Há muitos que pensam que o livro foi escrito depois do exílio, como reação aos aparentemente rígidos pontos de vista de Esdras e Neemias, que faziam o povo de Deus lembrar sua exclusividade; aqueles que se casaram com estrangeiros foram chamados de volta à fé dos seus pais, na qual tais casamentos mistos eram banidos.
Alguns dos que tinham
feito tais casamentos agora tinham filhos. "Teria sido o clamor
de algum desses filhos", pergunta Knight, "que levou um
escritor totalmente desconhecido (talvez até uma mulher) a escrever
este pequeno livreto que nós intitulamos de Livro de Rute?"
Essa explicação é atraente, pois Esdras parece ter estendido a
proibição legal contra o casamento com os cananeus54 também ao
casamento com moabitas, amonitas e egípcios. E Rute era moabita. Se
o grande rei Davi é descendente de um casamento misto com uma
moabita, Esdras não estaria sendo demasiadamente estrito anulando
tais casamentos? Mas a proibição legal da Tora contra o casamento
misto com os cananeus era uma proteção contra a idolatria, e a
extensão da preocupação de Esdras para com outras nações
idólatras era ade¬quada, especialmente no novo ajuntamento dos
israelitas exilados novamente como nação. Afinal, os moabitas eram
proibidos pela lei de entrar na congregação.56 Portanto, dizem
alguns, talvez o livro de Rute fosse um tratado contra essas
disposições da Tora. Mas tudo isso coloca a composição de Rute
numa data muito tardia, com o que não concordamos. E parece muito
difícil discernir uma intenção tão polêmica na história. Rute
realmente não parece ser um tratado político.
Outra sugestão é que o livro de Rute foi escrito muito antes do período de Esdras, durante ou pouco depois da época do próprio rei I Davi. (Há uma tradição rabínica que diz que o autor foi Samuel, mas agora ninguém usaria tal argumento.) Uma data assim tão precoce, talvez do tempo de Salomão, explicaria a conclusão, de outra forma um tanto surpreendente, do livro com uma genealogia que leva ao próprio rei Davi. Não há motivos textuais para considerarmos a genealogia como adição posterior. Seria uma história tradicional que foi então registrada junto com outra literatura sobre o grande rei?
Ou teria sido a história de Rute escrita deliberadamente a fim de prover uma ilustração e definição para o conceito de "redenção"? No decorrer da história são-nos apresentadas as diversas práticas legais do antigo povo de Israel relacionadas com os deveres da família e os direitos de propriedade. Vamos gastar algum tempo examinando o significado do levirato (concernente aos costumes matrimoniais quando o homem da casa morria) e especialmente do goel (o "parente remidor"). Eles apontam para a ideia israelita da redenção, da terra e do povo. Mostram como a lei era interpretada e em que espírito de amorosa generosidade ela era aplicada. E, diversas vezes, as características do povo nesta história combinam com o que ele cria sobre o caráter de Deus. Seria para expressar sua ideia sobre a graça redentora de Javé que o escritor selecionou esta história em particular, tratando especialmente destes temas? Rute certamente permanece em notável contraste com a severa e legalista adesão aos códigos da lei que colocam a lei de Deus fora do contexto da aliança de Deus, e que reduz a fé viva a um moralismo frio.
Ou será que o livro de Rute foi simplesmente escrito para contar, numa história de grande beleza, os acontecimentos que envolveram as perdas de Noemi e o casamento de Rute, talvez para incentivar virtudes tais como o amor e a fidelidade nos relacionamentos familiares?
Não conhecemos o propósito exato do nosso autor. Mas o que está claro é que, através de sua leitura, aprendemos algo da vida rural do século XI ou XII a. C. na Palestina, a rotina do dia a dia, a necessidade do trabalho, as alegrias familiares, a dor da morte, a separação dos parentes, o relacionamento com a sogra. E, na ilustração de pureza, inocência, fidelidade e lealdade, dever e amor, o escritor deseja que os seus leitores percebam a mão de Deus, que cuida, sustenta e provê.
Gastamos muito tempo observando que a história foi colocada no período dos juízes. É como se o autor quisesse que soubéssemos que houve um outro lado da vida na época dos juízes. Certamente houve os grandes líderes carismáticos de Juízes 4-16, com seu sucesso intermitente e seu fracasso geral em proporcionar estabilidade e segurança ao povo de Deus. Houve igualmente a apostasia, violência, imoralidade e guerra civil de Juízes 17 - 21. Mas não havia fé: fé viva na providência cheia da graça de Deus, que enriquecia e satisfazia. Talvez o autor conte a história dessa forma para destacar o fato de maneira especial e para reacender esse tipo de fé em seus leitores.
Com uma fé assim, o nosso escritor apega-se a um valor da vida humana que é precioso para Deus e para os outros e a uma compreensão dos propósitos de Deus em seu mundo, transcendendo as bar¬reiras raciais, e a um prazer no envolvimento do Todo Poderoso com os problemas de uma família comum que ora pelo seu pão de cada dia.
Procurando acompanhar a fé do autor na providência de Deus, descobrimos a segunda história (a perspectiva divina) que permeia a história humana, e aprendemos hoje, quando muitos têm medo "da noite e das trevas", que o Deus de Israel quer ser conhecido como o nosso Deus. Vivendo, como vivemos, do lado de cá do Calvário e da sepultura vazia, com o conhecimento que temos da encarnação e da ascensão do Senhor, podemos dar à expressão "parente remidor " um significado muito mais completo do que Noemi, Rute ou Boaz foram capazes de entender. Mas nós, à nossa moda, podemos compartilhar com eles do conhecimento de que "sob suas asas", nos sofrimentos e nas alegrias do nosso dia a dia, podemos encontrar a segurança do seu "refúgio".
Densas trevas
envolvem o meu ser.
Sozinha.
Com medo.
Minha mente é um sorvedouro
voltado para dentro
na direção de uma eternidade de sofrimento intolerável.
Eu costumava estender a mão
nas trevas desconhecidas com esperança.
Mas minha alma foi arrancada de mim, e eu já não tenho mais esperança.
Foi como um poço. Profundidade insondável. Humilhação tortuosa. Apenas o som de minhas lágrimas na impenetrável escuridão.
Eu me lembro desse poço,
e do medo,
e da desesperança
de uma eterna agonia da mente,
e da peregrinação cruel
no deserto inexplorado.
Agora eu me encontro neste oásis,
neste porto inesperado,
neste refúgio.
Eu não mereci esta graça
de ser arrancada daquelas profundezas todo-poderosas.
Eu não tinha esperanças,
mas quando voltei pelo caminho que trilhava,
vi uma mão cheia de graça
e um sorriso amoroso.
Eu vi uma luz orientadora
e senti uma asa protetora.
Aninhando-me no seu calor,
meu coração gelado se derreteu.
A negrura de minha alma
desabrochou em milhares de flores.
Minhas lágrimas se transformaram em joias, e minha amargura em mel.
Mas eu me lembro do poço.
Mantém-me, ó Senhor,
Segura
no refúgio das tuas asas.
Elisabeth
Outra sugestão é que o livro de Rute foi escrito muito antes do período de Esdras, durante ou pouco depois da época do próprio rei I Davi. (Há uma tradição rabínica que diz que o autor foi Samuel, mas agora ninguém usaria tal argumento.) Uma data assim tão precoce, talvez do tempo de Salomão, explicaria a conclusão, de outra forma um tanto surpreendente, do livro com uma genealogia que leva ao próprio rei Davi. Não há motivos textuais para considerarmos a genealogia como adição posterior. Seria uma história tradicional que foi então registrada junto com outra literatura sobre o grande rei?
Ou teria sido a história de Rute escrita deliberadamente a fim de prover uma ilustração e definição para o conceito de "redenção"? No decorrer da história são-nos apresentadas as diversas práticas legais do antigo povo de Israel relacionadas com os deveres da família e os direitos de propriedade. Vamos gastar algum tempo examinando o significado do levirato (concernente aos costumes matrimoniais quando o homem da casa morria) e especialmente do goel (o "parente remidor"). Eles apontam para a ideia israelita da redenção, da terra e do povo. Mostram como a lei era interpretada e em que espírito de amorosa generosidade ela era aplicada. E, diversas vezes, as características do povo nesta história combinam com o que ele cria sobre o caráter de Deus. Seria para expressar sua ideia sobre a graça redentora de Javé que o escritor selecionou esta história em particular, tratando especialmente destes temas? Rute certamente permanece em notável contraste com a severa e legalista adesão aos códigos da lei que colocam a lei de Deus fora do contexto da aliança de Deus, e que reduz a fé viva a um moralismo frio.
Ou será que o livro de Rute foi simplesmente escrito para contar, numa história de grande beleza, os acontecimentos que envolveram as perdas de Noemi e o casamento de Rute, talvez para incentivar virtudes tais como o amor e a fidelidade nos relacionamentos familiares?
Não conhecemos o propósito exato do nosso autor. Mas o que está claro é que, através de sua leitura, aprendemos algo da vida rural do século XI ou XII a. C. na Palestina, a rotina do dia a dia, a necessidade do trabalho, as alegrias familiares, a dor da morte, a separação dos parentes, o relacionamento com a sogra. E, na ilustração de pureza, inocência, fidelidade e lealdade, dever e amor, o escritor deseja que os seus leitores percebam a mão de Deus, que cuida, sustenta e provê.
Gastamos muito tempo observando que a história foi colocada no período dos juízes. É como se o autor quisesse que soubéssemos que houve um outro lado da vida na época dos juízes. Certamente houve os grandes líderes carismáticos de Juízes 4-16, com seu sucesso intermitente e seu fracasso geral em proporcionar estabilidade e segurança ao povo de Deus. Houve igualmente a apostasia, violência, imoralidade e guerra civil de Juízes 17 - 21. Mas não havia fé: fé viva na providência cheia da graça de Deus, que enriquecia e satisfazia. Talvez o autor conte a história dessa forma para destacar o fato de maneira especial e para reacender esse tipo de fé em seus leitores.
Com uma fé assim, o nosso escritor apega-se a um valor da vida humana que é precioso para Deus e para os outros e a uma compreensão dos propósitos de Deus em seu mundo, transcendendo as bar¬reiras raciais, e a um prazer no envolvimento do Todo Poderoso com os problemas de uma família comum que ora pelo seu pão de cada dia.
Procurando acompanhar a fé do autor na providência de Deus, descobrimos a segunda história (a perspectiva divina) que permeia a história humana, e aprendemos hoje, quando muitos têm medo "da noite e das trevas", que o Deus de Israel quer ser conhecido como o nosso Deus. Vivendo, como vivemos, do lado de cá do Calvário e da sepultura vazia, com o conhecimento que temos da encarnação e da ascensão do Senhor, podemos dar à expressão "parente remidor " um significado muito mais completo do que Noemi, Rute ou Boaz foram capazes de entender. Mas nós, à nossa moda, podemos compartilhar com eles do conhecimento de que "sob suas asas", nos sofrimentos e nas alegrias do nosso dia a dia, podemos encontrar a segurança do seu "refúgio".
Densas trevas
envolvem o meu ser.
Sozinha.
Com medo.
Minha mente é um sorvedouro
voltado para dentro
na direção de uma eternidade de sofrimento intolerável.
Eu costumava estender a mão
nas trevas desconhecidas com esperança.
Mas minha alma foi arrancada de mim, e eu já não tenho mais esperança.
Foi como um poço. Profundidade insondável. Humilhação tortuosa. Apenas o som de minhas lágrimas na impenetrável escuridão.
Eu me lembro desse poço,
e do medo,
e da desesperança
de uma eterna agonia da mente,
e da peregrinação cruel
no deserto inexplorado.
Agora eu me encontro neste oásis,
neste porto inesperado,
neste refúgio.
Eu não mereci esta graça
de ser arrancada daquelas profundezas todo-poderosas.
Eu não tinha esperanças,
mas quando voltei pelo caminho que trilhava,
vi uma mão cheia de graça
e um sorriso amoroso.
Eu vi uma luz orientadora
e senti uma asa protetora.
Aninhando-me no seu calor,
meu coração gelado se derreteu.
A negrura de minha alma
desabrochou em milhares de flores.
Minhas lágrimas se transformaram em joias, e minha amargura em mel.
Mas eu me lembro do poço.
Mantém-me, ó Senhor,
Segura
no refúgio das tuas asas.
Elisabeth
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