PARTE
I - AS
LÁGRIMAS
1.
Partindo
Preocupação
com as coisas comuns (1:1)
Nos
dias
em que julgavam os juizes ...um homem.
Em
um mundo dominado (se acreditarmos nos meios de comunicação)
pela "crise" e pêlos "desafios", no qual cada
pequeno acontecimento
pode ser transformado em manchete, contanto que haja nela uma
"história interessante" (e até mesmo em uma igreja, onde
o incomum
e espetacular costuma ser recebido por certas pessoas como mais
autêntico que a monotonia e a rotina), é um alívio abrir o livro
de Rute.
Já descrevemos a agradável simplicidade de seus assuntos: a vida
do interior, suas alegrias e tristezas, suas "virtudes
agradáveis" e,
especialmente, sua concentração nos personagens à volta dos quais
se
tece a história. Isto se destaca mais ainda pelo contraste com o
livro dos
Juizes, com o qual as palavras iniciais estabelecem uma ligação. O
livro
de Juizes termina com uma referência ao caos social e à miséria
pessoal
resultantes da falta de autoridade justa entre o povo: "Naqueles
dias
não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto."1
O
livro de Juizes foi pintado numa tela grande. Embora apareçam no
livro personagens individuais, sempre surgem no contexto da guerra
civil,
das convulsões nacionais, dos assuntos internacionais. Mas o livro
de Rute, embora não fique totalmente esquecido do significado
nacional,
e até mesmo global, dos seus personagens, trata de um
<
homem,
sua
família e seu destino. Lembra-nos de que o Deus das nações também
está interessado nas coisas comuns relacionadas a "um homem".
Nosso
Senhor, que nos ensinou a orar ao "nosso Pai que está no céu"
e a elevar nossos corações e mentes para a visão global da vinda
do
seu reino (pois seu é o reino e a glória para todo o sempre),
também nos
ensinou a orar pelo pão nosso de cada dia. Deus, que sabe quando um
pardal cai ao chão e que nota quando oferecemos um copo de água
fresca a quem precisa dele,2
também se interessa pelas coisas comuns. Como
Helmut Thielicke o destaca:
Diga-me
até que ponto você considera Deus sublime e eu lhe direi quão
pouco ele significa para você. Este pode ser um axioma teológico.
O Deus sublime foi arrancado de minha vida particular... Se Deus
não tem significado para as minúsculas peças do mosaico de minha
vidinha particular e para as coisas que são do meu interesse, então
ele não tem significado algum para mim.3
O
interesse de Deus no destino de um
homem nos
dias em que julgavam
os juizes deveria nos lembrar que até mesmo as nossas
coisas
mais
comuns são significantes para Deus e se encaixam no seu cuidado
todo-poderoso.
A
fome (1:1)
Nos
dias
em que julgavam os juizes, houve fome na terra; e um homem de Belém
de Judá saiu a habitar na terra de Moabe, com sua mulher e seus dois
filhos.
Mudar
de residência não é uma tarefa que a maioria das pessoas assume
com leviandade. É uma coisa dispendiosa e inquietante. Implica
arrancar raízes e deixar amigos e vizinhos. Geralmente leva a
procurar uma nova casa, estabelecer uma nova vizinhança, conhecer
outras pessoas. Para uma família é um verdadeiro terremoto. Embora
Elimeleque certamente não tivesse a mesma quantidade de utensílios
domésticos para transportar que um chefe de família moderno, não
foi uma decisão menos importante para ele. Ele resolveu
sair de Belém por causa de uma
fome.
Belém
de Judá era
uma cidade, cerca de oito quilómetros ao sul da atual Jerusalém.
Seu nome significa "casa do pão", nome que aponta para
a incomum fertilidade daquela região para o plantio de cereais (como
o esclarece o capítulo 2 do livro de Rute), Também destaca que a
fome era fora do comum. Alguns comentaristas crêem que a fome local
na região de Belém (aparentemente não havia tal dificuldade cerca
de oitenta quilómetros a sudeste, em Moabe, do outro lado do atual
Mar Morto) devia-se em parte às pilhagens associadas com o período
caótico dos juizes. A invasão midianita no período de Gideão, por
exemplo,4
destruiu a lavoura e o gado.
Por
causa da fome, Elimeleque decidiu que ele e sua família iriam morar
durante algum tempo como estrangeiros residentes (peregrinos)
na
terra de Moabe.
Não
temos certeza do que o induziu a partir. Embora a religião cananéia
procurasse controlar o processo da natureza com os seus
niveis da fertilidade, o povo de Javé fora ensinado a confiar nele
conquanto à prosperidade da terra. Será que a fome, na mente de
Elimeleque,
era um sinal do descontentamento divino?5
Não sabemos.
Sabemos que outros belemitas permaneceram na terra à espera tio
final
da fome e, ao que parece, passaram muito melhor do que lilimeleque
(versículo 6). À luz dos acontecimentos subsequentes, fie.imos
imaginando se o autor não pretende nos levar a pensar que
lilimeleque
não foi sábio na sua atitude! Certamente a viagem não alcançou
o seu objetivo: escapar da morte. Todos os três homens da fnmília
morreram em Moabe. Além disso, com a mudança, morreram numa
terra estranha, deixando Noemi, a viúva, muito mais desolada do
que se tivesse permanecido na companhia dos seus conhecidos.
Ali,
com
tantos lugares, por que ir a Moabe?!
Localizada
no planalto, ao leste do Mar Morto, Moabe era povoada pt-Ios
descendentes de Ló.6
Embora não tivessem sido atacados pêlos israelitas em seu retorno à
terra prometida depois do êxodo, apesar de sua
falta de amabilidade característica, os moabitas não deviam ser
admitidos
na congregação de Israel.7
Por quê? Eles eram adoradores ile
Camos, um deus ao qual aparentemente se faziam sacrifícios humanos.
Os moabitas eram, às vezes, chamados de "povo de Camos".8
Além
disso, durante o primeiro período dos juizes, Eglom, rei de Moabe,
invadiu a terra dos israelitas e manteve o povo de Israel na
escravidão
durante dezoito anos.9
Portanto, era um lugar muito estranho
para um crente em Javé, habitante de Belém, escolher para morar.
Por que não foram para algum lugar onde se adorava Javé? Será
que era falta de confiança na providência de Deus? Embora elogiando
o pretenso desejo de Elimeleque de cuidar de sua família durante a
fome, Matthew Henry pergunta como se poderia justificar a mudança a
Moabe. "Aborrecer-nos com o lugar no qual Deus nos coloca
e abandoná-lo na primeira oportunidade, logo que nos deparamos
com algum desconforto ou alguma inconveniência, é evidência de um
espírito descontente, desconfiado e instável."10
Não
temos dados suficientes para saber se a atitude de Elimeleque
justifica
o comentário de Matthew Henry. Porém, mesmo que a atitude
de Elimeleque implique falta de fé ou expressão de
descontentamento
para com Javé, o restante do livro de Rute demonstra amplamente
que a providência graciosa de Deus não é limitada pela loucura
do homem. A alegria final na família e o propósito de sua história,
resultante da entrada de Rute no cenário, demonstram a rica
benignidade
da providência de Deus. Ver que tais benefícios foram colhidos
como resultado de uma conduta impensada é uma evidência
de
seu amor. Felizmente, a providência de Deus cobre até os nossos
erros!
Os
nomes (1:2-5)
Este
homem se chamava Elimeleque, e sua mulher, Noemi; os filhos se
chamavam
Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; vieram à terra de
Moabe
e ficaram ali. 3
Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus
dois filhos, 4os
quais
casaram com mulheres moabitas; era o nome duma Órfã,
e o nome da outra Rute; e ficaram ali quase dez anos. 5
Morreram também
ambos, Malom e Quiliom, ficando assim a mulher desamparada de seus
dois filhos e de seu marido.
Para
o nosso autor, os nomes
são
significativos. Temos alguns personagens no livro cujos nomes não
são mencionados, como o "resgatador" que aparece em Rute
4:1. Portanto devemos presumir que,
se o escritor nos cita nomes, é com algum propósito especial. Na
maneira
hebraica de pensar, saber o nome de uma pessoa é conhecer o
seu caráter, conhecer a pessoa. O nome é a pessoa. Quando Abrão se
tornou
uma nova pessoa, ele recebeu um novo nome.11
Quando o nome
de uma pessoa é destruído ou retirado, a pessoa, é extinguida da
memória humana, como se nunca tivesse existido.12
Era uma coisa terrível
ser deixado sem nome nem descendentes.13
Portanto, quando Deus
diz o seu próprio nome, está falando do seu caráter e
compartilhando
o seu próprio ser com aqueles aos quais falou.14
"Javé" é o seu nome
pessoal, o nome do Deus da aliança.
Elimeleque
significa
"meu Deus é rei". Alguns comentaristas, como Henry,
que já citamos acima, imaginam que talvez haja alguma censura
implícita no fato de citar este nome. Não deveria tal nome
expressar
dependência e confiança em Deus? Com certeza deveríamos lembrar
que para todo aquele que pode dizer "meu Deus é rei",
embora
não receba uma promessa de uma vida livre de problemas, há sempre
a promessa do pão de cada dia e a certeza de que não há
necessidade
de ficar morbidamente ansioso por causa do amanhã.15
Parte
do significado da fé pode ser expressa declarando que a f é é
aquilo que Deus nos dá para nos ajudar a enfrentar as incertezas da
vida.
Será que Elimeleque vivia de acordo com o seu nome?
Noemi
significa
"amável, encantadora, agradável". E o comovente
significado
deste nome destaca-se mais tarde, quando Noemi volta de Moabe
com sua nora Rute, entristecida pelas experiências amargas que ela
cria ter recebido da mão do Senhor. "Não me chameis de
Noemi",
ela diz aos seus vizinhos, "chamai-me Mara; porque grande
.unargura me tem dado o Todo-poderoso" (1:20).
Malom
e
Quiliom,
os
filhos de Noemi, aparentemente tinham antigos nomes cananeus,
mas foram aqui mencionados devido ao seu sig-n
i ficado dentro do cenário, para que entendamos as lágrimas e o
sofrimento
do restante de Rute 1. "Malom" parece estar ligado a uma
raiz
cujo significado é "estar enfermo"; e "Quiliom"
significa algo assim como "enfraquecer", ou "definhar",
ou até mesmo "aniquilação".
Órfã
e
Rute
são
nomes moabitas e os seus significados não são muito claros.
Mas o que está claro é a sua nacionalidade. Os filhos de
lïlimeleque casaram-se com adoradoras de Camos e, embora tal
casamento
não fosse aparentemente proibido,16
os moabitas não eram admitidos
na congregação para o culto.17
A
família, diz-nos o autor, era de efrateus.
Efrata
é uma palavra geralmente associada com Belém, mas o seu significado
é muito incerto.
As passagens onde aparece sugerem que há uma dignidade especial
ou alguma importância em se estar ligado a um efrateu. Aqui,
provavelmente,
indica que estamos sendo apresentados a uma família bem
estabelecida. Certamente, quando Noemi voltou, não era uma pessoa
sem importância (1:19). Talvez, como sugere Leon Morris,18
sua
família pertencesse à "aristocracia" local, uma família
que, quando partiu
para Moabe, era conhecida como de pessoas ricas ("Ditosa eu
parti",
1:21). Mas a riqueza e o prestígio não são garantias de
felicidade
material ou de ausência de sofrimento. A fome angustiou a família
o suficiente para que esta abandonasse o seu lar e partisse para
Moabe.
Depois, além da perda do conforto físico e da segurança do lar,
veio a dor, não de uma morte, mas de três. Noemi, em quem se
concentra
este primeiro capítulo de Rute, ficou sozinha, sem lar, sem marido,
sem filhos, sem amigos, sem esperança, sem herança. O que o culto a
Javé significava para ela agora?
A
morte (1:3-5)
Morreu
Elimeleque... 5Morreram
também ambos, Malom e Quiliom, ficando assim
a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.
A
morte, num certo sentido, é um dos acontecimentos mais naturais
da vida, mas, num outro, é o menos natural. Todos os homens são
mortais;19
o tempo de permanência do homem aqui na terra é limitado.
A morte inexoravelmente lembra o homem de sua fragilidade e
limitação;
limitação essa (o salmista nos diz) da qual o Senhor não fica
esquecido, e que faz par te do significado da compaixão que sente
para com
o seu povo: "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o
Senhor
se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura,
e sabe que somos pó."20
Assim como toda a "natureza", a morte
faz parte do homem desde o princípio. E certas casas funerárias
modernas
parecem recusar-se a crer que ela seja real.
Que
significado, ficamos imaginando, o crente em Javé dava à morte
quando Noemi ficou desamparada
de seus dois filhos e de seu marido?
Eles
não tinham consciência da transformação do significado da
morte trazida pelo Novo Testamento. Eles tinham muito menos
fundamento
do que nós para crer na vida após a morte. Não poderiam ter
entendido a plenitude do significado das palavras de Paulo sobre a
morte, que "perdeu o seu aguilhão", ou da sua descrição
da morte como
um simples "adormecer".21
Mas não devemos esquecer a confiança
de Davi em que estaria com o seu filho morto,22
nem o pensamento
positivo dos Salmos 49 e 73. Mesmo para um homem de fé
do Antigo Testamento, morrer era "dormir com os seus pais",
ou "ser reunido ao seu povo".23
E o desespero expresso em passagens tais como o Salmo 88 parte
daquele que se julga alienado da compaixão
de Deus, morrendo sob a sua ira, e não de um crente plenamente
confiante na graça de Deus.
Mas
é a ressurreição de Jesus Cristo que dá forma àquilo que para o
cristão agora é uma certeza: para o crente a morte proporciona
comunhão
infinita com o Senhor.24
Para o cristão, morrer é "zarpar rumo a outra terra".25
Nossos corpos são preparados para uma vida espiritual
mais completa, preparados para a vida no céu, com seus correlativos
celestiais mais ricos do que os corpos físicos que são apropriados
para este mundo de espaço e tempo.26
A esperança cristã aguarda "aquela grande multidão que
ninguém pode enumerar", cujas
roupas foram alvejadas "no sangue do Cordeiro", que ficarão
em
pé diante do trono de Deus e o servirão "de dia e de noite no
seu santuário".27
Algumas
partes do Antigo Testamento dão indicações destas afirmações
de fé. Isaías, numa seção que poderia ser considerada como a base
da fé no destino pessoal, como também da sorte da nação, fala do
tempo
quando o Senhor "tragará a morte para sempre e assim enxugará
o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos." Então ele
afirma
que "os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e
ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó."28
E nas visões
apocalípticas de Daniel, ele se estende pela fé em busca daquilo
que
talvez apenas perceba indistintamente: "Muitos dos que dormem no
pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a
vergonha
e horror eterno."29
Mas,
de um modo geral, a morte no Antigo Testamento é um estado nmbíguo
e escuro. De um lado, os mortos são às vezes considerados como
aqueles que foram separados da esfera da influência de Javé. A
morte para eles significa o fim de um relacionamento consciente com
Deus;
já não se ouvem mais louvores a Javé. A morte é o rei dos
terrores.30
O submundo tenebroso do Seol, o lugar dos mortos, é um local
profanado que enfatiza o horror da morte. O crente em Javé não deve
tentar alcançar aqueles que morreram, nem deve, como os demais
cananeus, ocupar-se em rituais da morte, como cortar o cabelo ou
ferir sua carne como um reconhecimento do poder da morte.31
O povo
de Moabe, entre o qual Noemi habitava, possivelmente tinha atitudes
para com a morte que eram intoleráveis para o crente em Javé
(indicadas, talvez, pelo modo como Amos teve de denunciá-lo porque
"queimou
os ossos do rei de Edom, até os reduzir a cal"32).
Por
outro lado, também encontramos no Antigo Testamento uma forte
fé em Javé como Senhor, e o Senhor da vida.33
Nenhum outro soberano
pode reinar no reino da morte. Assim, neste vácuo, a fé em Javé
cria indícios de esperança. O salmista, quando se encontra à beira
da morte, clama a Javé para que se lembre dele; e, em outra
passagem, o
poeta expressa a certeza de que Deus vai recebê-lo através da morte
numa
outra vida.34
Ou, então, mesmo que venha a fazer a sua cama no Seol,
"lá estás também". O Senhor não vai abandoná-lo.35
Há um sentido
no qual, no momento da morte, Javé vai "arrebatar" o
crente para
que fique em comunhão com ele.36
O próprio Deus está presente junto
ao crente na vida e na morte, e não vai abandoná-lo no reino de
Seol.
Quanto
desta fé crescente Noemi partilhava nós não sabemos. Talvez
ela tivesse vislumbres dessa verdade que nos foi totalmente revelada
no Novo Testamento: para aquele que se aproxima de Deus pela
fé, a morte, num certo sentido, já ficou para trás. Os crentes
cristãos
são "batizados na morte de Cristo"37
e, embora a sua morte física
ainda tenha de acontecer porque a glória completa ainda não foi
revelada,38
sua comunhão contínua com o Senhor é coisa segura.
Mas
seja quanto for que Noemi tenha captado sobre o significado da
morte para o crente em Javé, existem dois aspectos de suas próprias
circunstâncias que são evidentes. Primeiro, seu marido e filhos
haviam morrido
prematuramente.
Como podemos nos identificar
bem com a tristeza do Antigo Testamento, quando enfrentamos aquilo
que os que ficam só podem classificar de morte prematura! Abraão
morreu em idade avançada, um homem velho e cheio de anos.
Numa vida assim há realização, como na de Jó, que viu seus
filhos,
netos e até mesmo bisnetos.39
Mas a morte de uma pessoa jovem
tem um tom de tragédia: "Em pleno vigor de meus dias hei de
entrar nas portas do além; roubado estou do resto dos meus anos."40
Hagar,
a mãe, lamenta a morte iminente de seu filho: "Assim não verei
morrer o menino"; e Davi sofre com a morte do seu filho.41
Para Malom
e Quiliom certamente, e podemos imaginar que também para Elimeleque,
a morte chegou cedo na vida; eles foram "roubados" do resto
dos seus anos. E Noemi ficou desamparada
de seus dois filhos e de seu
marido muito
cedo na vida.
Em
segundo lugar, embora o livro de Rute apenas nos dê um rápido
vislumbre
de fé em que a morte não seja o fim da comunhão (1:17), havia
uma certeza. O nome do homem não deve ser esquecido. Seu nome
permaneceria na sua herança. Como era importante para ele, portanto,
que tivesse um filho (4:5,10)! E como deveria ser desespera-dor,
portanto, para Noemi o fato de que, além de ter perdido os três
homens
de sua família, ela não tivesse um único herdeiro através do qual
os nomes deles continuassem e sua herança ficasse garantida! Seus
homens morreram, e com eles os seus nomes!
Aqui
o autor coloca um desastre em cima do outro na vida de Noemi,
dando-nos um senso real do choque que atinge uma pessoa nessas
condições. Ela certamente não havia merecido; com certeza fora
inesperado. Não estaremos penetrando aqui no lado oculto da
providência
de Deus: o fato de que certos sofrimentos nossos parecem
insuportáveis;
algumas de nossas circunstâncias parecem tão injustas; e
algumas de nossas perguntas ficam sem respostas?
Com
Noemi aprendemos que fé, às vezes, significa uma disposição de
deixar essas perguntas como mistérios de Deus, na confiança de que,
em dias melhores, ele tem se mostrado fidedigno.
O
Senhor visita
(1:6-7)
Então
se dispôs ela com as suas noras, e voltou da terra de Moabe,
porquanto nesta
ouviu que o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. 7Saiu,
pois, ela
com suas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de
volta para
a terra de Judá,...
A
nossa memória mantém vivo no presente o significado das
experiências
passadas. Com que frequência o povo de Deus recebeu a
instrução de "lembrar" de como Deus o ajudou no passado.
Depois do
êxodo
do Egito, na noite de Páscoa, a primeira palavra de Moisés , ao
povo foi: "Lembrai-vos deste mesmo dia ... pois com mão forte o
Se-nhor
vos tirou de lá." Eles deviam se lembrar do seu tempo de
escravos no Egito como um incentivo para a guarda do sábado; deviam
lembrar que o Senhor era o seu Deus. Quando tivessem medo, deviam
se lembrar do poder do Senhor. Quando repousassem em bênçãos,
deviam se lembrar de que também o tinham provocado à ira. Ci
rande parte das regras éticas de sua sociedade estava fundamentada
na lembrança do tempo em que eram escravos e na salvação de Deus.
Nos
dias dos juizes, logo depois que Gideão morreu, houve problemas,
porque o povo se voltou novamente para Baal e não se lembrou
do
Senhor seu Deus.42
Mas
Noemi se lembrou. As linhas de comunicação com os amigos da
pátria continuaram abertas. Pelo testemunho posterior de Rute vemos
que Noemi fora uma servidora fiel de Javé em Moabe. Ela mantivera
viva em sua consciência a realidade da ajuda do Senhor ao seu povo
no passado. E aguardava sinais da sua ajuda no presente. Como o
salmista, quando consumido com sofrimento e depressão, Noemi sem
dúvida consolava-se "invocando os feitos do Senhor". Como
Jonas em seu nada invejável estado aquático, a mente de Noemi
estava
em oração ("Quando dentro em mim desfalecia a minha alma, eu
me lembrei do Senhor; e subiu a ti a minha oração").43
Nos tempos de
provação, fé às vezes significa deixar as dificuldades nas mãos
de Deus, mesmo sem receber uma resposta. Uma fé assim é fortalecida
pela
lembrança constante de como Deus nos ajudou no passado. Pedro
insiste com os seus leitores cristãos para que tenham em mente as
promessas e os dons graciosos de Deus, e que os tenham como
lembrete.44
E, acima de tudo, somos aconselhados a lembrar, a descansar
e a nos alimentar da graça salvadora de Deus em Cristo sempre que
comermos o pão e bebermos o cálice do Senhor "em memória"
dele.45
A fé é uma caminhada de confiança e crescimento; é um móbile em
movimento, não uma vida estática. E quando algumas partes balançam
por algum tempo nas sombras, confiamos que aparecerão de
novo na luz, como já aconteceu muitas outras vezes. Parte da
espiritualidade dos homens e mulheres de fé no tempo de Noemi
consistia em meditar nos grandes feitos de Deus no passado, e podemos
aprender com eles a manter assim a fé viva em períodos de trevas.
Assim,
o coração de Noemi permaneceu em Judá e ela não se esqueceu
do seu Deus. Na verdade os seus ouvidos ficaram alertas às notícias
que chegavam a Moabe, de que Javé não abandonara o seu povo:
a fome terminara, o
Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. O
Senhor, como
já dissemos, traduz o nome de Deus, Javé. Ele é o Deus
cujo nome pessoal indica o seu caráter: o Deus que está em
atividade,
o Deus que vem ao encontro do seu povo na necessidade, o
Deus que liberta o seu povo pela ação de um remidor (goel)-46
É através
do caráter deste Senhor, revelado ao seu povo gerações antes, que
Noemi mede agora a amargura de suas perdas e do seu isolamento (1:13,
21). É este Senhor que, descobrimos mais tarde, é adorado
por Boaz e seus empregados, e cuja bênção é invocada sobre Rute
(2:4,12). É este Senhor que é bendito por Noemi por causa da
graciosa
generosidade de Boaz, que é visto como o doador da vida e sob cujos
cuidados providenciais Noemi finalmente encontra alegria
(2:20,4:13-14).
O livro de Rute é rico em sua revelação do tipo de Deus que
é Javé.
O
nosso autor anseia que o caráter deste Senhor domine a sua
narrativa. É como se quisesse que os seus leitores colocassem os
acontecimentos detalhados das alegrias e tristezas de sua história
dentro
do contexto do Deus cujo caráter foi descrito como "Javé".
Quanto
significado existe na frase O
Senhor se lembrará! As
notícias que
Noemi recebeu não são expressas em termos tais como "o tempo
melhorou",
ou "houve uma inversão económica", ou "a ameaça da
invasão desapareceu". Tudo isso poderia fazer parte da cadeia
das causas
para a recuperação da fartura em Belém. Mas não, as notícias
chegaram
a Noemi em termos de ação do Senhor. Aqui há um tema central
na Bíblia: toda a vida é traçada diretamente pela mão de Deus.
Quando
nos concentrarmos principalmente nas causas secundárias sentimo-nos
encorajados a manipular o sistema. É a concentração na Grande
Causa que nos ensina a viver pela fé.
Quando
o Senhor "visita" o seu povo, ele o faz pelo julgamento47
ou através
de bênção.48
O alimento que agora existia em Belém é entendido
por Noemi como um dom de Deus. O sentido disto foi captado pelo
salmista ("Abençoarei com abundância o seu mantimento, e de
pão fartarei os seus pobres"49),
como também pelo sacerdote Zacarias séculos mais tarde, quando ele
se deleitou no nascimento do mensageiro do Messias ("Bendito
seja o Deus de Israel,
porque visitou e redimiu o seu povo"50).
Com a confiança de Noemi
nesse Deus, ela podia lidar, como veremos, com os sentimentos
de ira que suas circunstâncias viessem a provocar.
Agora,
com Rute e Órfã, ela inicia sua viagem de volta ao lar.
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