Voltando para casa
1:8-22
2. Voltando para casa
A preocupação de Noemi (1:8-9)
Disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram, e comigo. 9 O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz.
A verdadeira fé sempre pode ser avaliada pêlos frutos do amor;1 e Rute, a moabita que veio a crer no Deus de Noemi, devia ter aprendido com esta a realidade da fé, experimentando seus benefícios através do amor praticante de sua sogra para com ela.
Noemi surge agora como a personagem principal de Rute 1. No desdobramento da "outra história", o tema da providência de Deus na sucessão dos acontecimentos de situações humanas nas quais Noemi e suas noras se encontram, e a subsequente provisão divina para com Rute e Boaz, vamos nos concentrar primeiro em Noemi e especialmente na fé inabalável de Noemi em Javé. Especificamente aqui vemos como a sua fé se demonstrou ativa em amor.2
Antes de mais nada, a preocupação amorosa de Noemi com suas noras encontra sua expressão na oração. Como já se disse com muito acerto: "O que um homem crê ou não crê a respeito da oração é uma boa indicação de suas crenças religiosas de um modo geral. O que ele crê sobre a oração é uma indicação do que ele crê sobre Deus. Mais particularmente, o que o homem faz com a oração é uma indicação do que ele crê a respeito dela."3
A oração é, e sempre foi, o lado ativo da doutrina da providência. A oração é o reconhecimento, não do benefício psicológico de algum exercício mitológico, mas do fato de que nós cremos que Deus existe, que Deus se importa conosco, que Deus está no controle e que Deus providencia tudo, e cremos de tal modo que estamos dispostos a fazer alguma coisa com base nisso, isto é, a falar com ele. A providência nos lembra que não passamos de criaturas, que somos dependentes de Deus e que, junto com o mundo todo, estamos sob o senhorio de Deus; a oração é uma atividade pela qual reconhecemos que não podemos ser nosso próprio senhor. A providência nos lembra que nem tudo é desesperadamente absurdo ou sem sentido; a oração é a nossa maneira de dizer "sim" diante da convicção de que Deus está operando os seus propósitos na natureza, nos homens e na história. A providência é um lembrete de que o Senhor é um Deus de graça e generosidade; a oração é a nossa maneira de responder ao seu convite para fazermos parte da família da sua aliança, para sermos seu filho ou sua filha, seus cooperadores neste mundo. A providência nos lembra que o Deus vivo não é um destino imutável diante do qual só podemos manter silêncio e ficar passivos; a oração é a nossa reação diante do convite de Deus para que partilhemos da comunhão com ele, uma expressão da nossa união com ele. Como disse P. Forster:
A profundidade do senhorio de Deus é tal que ele permite que tenhamos um lugar no seu governo do mundo ... isto aponta para a seriedade de nossas ações como cristãos. Não significa que estejamos segurando as rédeas do governo do mundo. Elas estão nas mãos de Deus. Mas nós temos o nosso lugar no seu exercício. Em sua onipotência e onisciência supremas, Deus quer partilhar sua vida conosco.4
Forster prossegue dizendo que Deus vai retificar e compensar nossa oração quando a responder. Não que a nossa oração seja a coisa certa e segura a fazer, e a resposta de Deus a coisa incerta e insegura. Pelo contrário, nós é que somos desafiados na oração, e não Deus.
Portanto, através da oração nós expressamos a nossa confiança na providência de Deus e descobrimos como a nossa própria vontade deve ser alinhada com a sua vontade soberana e cheia de amor por nós. A nossa ação na oração se encontra na sua resposta transforma-dora.
Isto aconteceu com Noemi em sua oração a favor de Rute e Órfã. Ela orou como alguém que conhecia o seu Deus como o Senhor da aliança. A sua oração aqui é de confiante entrega do futuro nas mãos do Senhor. Ao pensar em suas noras e nas necessidades delas, Noemi ora pedindo que o Senhor, o Deus da aliança, use de benevolência para com elas.
O amor da aliança
Benevolência (versículo 8) traduz a palavra central do relacionamento de Deus com o seu povo através da aliança: hesed, amor constante e fidelidade. É uma palavra "que combina o calor da comunhão de Deus com a segurança da sua fidelidade".5 É a palavra de amor que Moisés canta ao louvar o redentor,6 e pela qual o povo é convocado para a comunhão da aliança com ele. Noemi louva a Deus por seu hesed em 2:20, e Rute é louvada pelo seu em 3:10. Portanto, é uma palavra que nos diz algo do cará ter do Deus da aliança, e também diz algo das pessoas que demonstram esse caráter em suas vidas. Vamos retornar a este assunto no capítulo 4.
O correlativo desta palavra no Novo Testamento é ágape, que descreve o amor sacrificial de Deus pelo seu povo e o amor que ele espera que o seu povo demonstre em troca disso. Talvez a definição mais aproximada é a que encontramos em l João 4:10-11: "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pêlos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira .nos amou, devemos nós também amar uns aos outros."
Noemi confia no Deus do amor e entrega Rute e Órfã aos cuidados dele. Suas noras demonstraram uma bondade maravilhosa para com ela e sua extinta família; que Deus demonstre o seu amor para com elas. Sua preocupação particular era que elas retornassem às suas próprias famílias em Moabe, onde aparentemente pelo menos os pais de Rute ainda viviam (2:11), e que se casassem novamente.
Um lar
O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido', isto indica principalmente o anseio por um "lugar de descanso".7 A palavra não se refere apenas ao fim dos problemas e do sofrimento (que Rute e Órfã pudessem superar a dor de suas perdas), mas também à experiência positiva da segurança e do conforto divinos. "Volta, minha alma, ao teu sossego (descanso)", canta o salmista, "pois o Senhor tem sido generoso para contigo."8
Para entender o pleno significado da oração de Noemi, temos de saber alguma coisa sobre a situação das mulheres viúvas naquele tempo. Considerando que o status das mulheres na sociedade do Antigo Testamento era muito aquém do que lhes foi concedido por Jesus 110 Novo Testamento (na sua maneira de tratar a mulher junto ao poço, com a siro-fenícia, Maria e Marta, como também no que ensinou sobre o divórcio, garantindo às mulheres direitos iguais aos dos homens),9 a situação da viúva era ainda pior. A esposa estava incluída na propriedade do marido, podendo ser repudiada, e não tinha direito de herança.10 Era, entretanto, bem superior a uma escrava e, especialmente quando nascia um filho do sexo masculino, era respeitada dentro da família. Mas a sua segurança repousava no marido e ela tinha poucos direitos próprios.
Portanto, quando morria o marido, a viúva (especialmente se tivesse filhos pequenos para sustentar) ficava em posição muito difícil. A palavra traduzida para "viúva" não apenas indica a morte do marido, mas também dá ideia de solidão, abandono e desamparo.11 As viúvas eram geralmente mencionadas junto com os órfãos e os estrangeiros.12 Elas tinham necessidade especial de proteção, e Javé cuida delas de maneira singular." Portanto, o povo era convo¬cado a cuidar do direito das viúvas e diversas leis do Pentateuco procuravam aliviar o destino delas.14 Contudo, a queixa do tratamento injusto recebido pelas viúvas é um tema constante nos profetas.15
A única esperança que restava de recuperar o status social para uma viúva ainda jovem era casar outra vez. Toda a profundeza de sen¬timentos extraídos de sua própria viuvez Noemi colocou em sua oração em favor das duas jovens: O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido.
A dor da separação (l:9b-14)
E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz, we lhe disseram: Não, iremos contigo ao teu povo. "Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas, por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? nTornai, filhas minhas, ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: Tenho esperança, ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas, porque por vossa causa a num me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão. uEntão de novo choraram em voz alta; Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela.
O choro expressava a dor, e a dor era em parte um sentimento de ambivalência de Órfã e Rute, que precisavam escolher entre o seu amor por Noemi e a sua esperança de serem mães num segundo casamento. Inicialmente as duas se recusaram a partir, mas, com a insistência de Noemi, Órfã foi persuadida. O raciocínio de Noemi girava em redor da prática do casamento de levirato, que explicaremos mais detalhadamente na seção 5. Quando um homem morria sem deixar um filho homem, o seu irmão devia agir como "levir": isto é, tomar a viúva, a fim de gerar um filho para o homem morto. Talvez Noemi estivesse dizendo a Rute e Órfã que não havia irmãos vivos de Malom e Quiliom que pudessem agir como "levir" e, naturalmente, as jovens não podiam esperar que futuros filhos seus atingissem a idade de casar! De qualquer forma, Noemi já havia ultrapassado a idade de conceber.16
O autor pretende descrever um quadro de desesperança: Noemi está enfatizando a completa impossibilidade de providenciar pais para os filhos de Órfã e Rute.17 Conforme veremos, a situação estava longe de tal desespero, pois na providência de Deus, e através da ação de um goel (um parente remidor), Rute receberia um marido e um filho. Mas, por agora, essa esperança não estava ainda no horizonte. E Órfã foi persuadida a partir. Ela beijou Noemi, despedindo-se dela (versículo 14), e presumivelmente voltou a Moabe para procurar outro marido. A propriedade de Quiliom retornou para Noemi (4:9).
A dor não era apenas das noras. Tanto o sofrimento da própria Noemi como a sua participação na dolorosa escolha que Rute e Órfã tinham de fazer expressavam-se nas suas palavras: "Não, filhas mi¬nhas, porque por vossa causa a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão." Vamos retomar a este versículo quando chegarmos a Rute 1:21. Note-se, porém, que, apesar do sofrimento, seus pensamentos são voltados para o benefício dos outros (por vossa causa). E, apesar do sofrimento (e até mesmo ira), Noemi ainda se apega ao fato de que aquilo que recebeu veio das mãos do Senhor. Não há sentimentos ocultos, não há fingimento de que não existe ira, não há qualquer gesto estóico, nem falsas afirmativas de que tudo vai bem. Enquanto, da perspectiva de sua fé na providência de Deus, tudo vai bem, ela certamente não se sente assim. Como o grito de Habacuque diante de Deus por causa de seu aparente fracasso em evitar que se levantassem os opressores caldeus,18 para descobrir depois, finalmente, que os próprios caldeus faziamparte do propósito amoroso de Deus19 e havia, não obstante, fundamentos para confiança na força de Deus, até mesmo alegria,20 assim também Noemi, aqui, não esconde de Deus seus sentimentos mais profundos.
Muitos de nós até já esqueceram como se lamenta a morte de alguém. Embora devamos nos lembrar de que a fé cristã acabou com o aguilhão da morte e que há lugar para uma palavra gentil de compaixão em certas ocasiões ("Não chores!"21), não devemos negar a dor da separação daqueles que perderam os seus queridos. Chegará o dia em que a afirmação cristã da esperança de vida em Cristo se tornará a realidade do novo céu e da nova terra, quando "a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor";22 mas haverá momentos ainda deste lado do céu quando choraremos e lamentaremos antes de nossa tristeza ser convertida em alegria.23
Naturalmente, a fé cristã tomou obsoleta grande parte da lamentação pública prolongada e dolorosa pêlos mortos, o que era costume no Israel de antigamente. Embora os crentes em Javé fossem proibidos de praticar alguns rituais da morte dos cananeus, eles ainda ficavam, durante longos períodos, gemendo e batendo no peito depois da morte de um ente querido.24 A parábola de Jesus sobre as crianças lamentando os mortos quando brincavam de enterro25 indica que alguns desses costumes ainda prevaleciam no seu tempo. Mas, embora grande parte do desespero dessa lamentação tenha se transformado para o cristão com a morte e ressurreição de Cristo,26 ainda há uma tristeza muito espiritual quando perdemos um amigo e quando a morte penetra em nossa vida. Não foi por isso que Jesus chorou junto à sepultura do seu amigo?27 Em nossa tristeza pela morte, nós, como cristãos, somos sustentados pela esperança da ressurreição dos mortos. Mas não vamos fingir que a morte não machuca e que a tristeza não pode ser expressada. A tristeza é uma coisa real e a sensibilidade renovada pela graça de Cristo pode sentir-se profundamente ferida e, portanto, muito mais suscetível a revelar-se em lágrimas.
Após o choque inicial de dor pela morte de alguém, e após o pequeno período de serenidade forçada por causa dos outros (no funeral, por exemplo), o verdadeiro sofrimento muito naturalmente leva a uma experiência de retorno às emoções que alguns de nós esquecemos desde a infância. Sentimentos, às vezes de culpa, às vezes de raiva, vêm junto com uma tensão que anseia ser aliviada com lágrimas. É depois de passar por esta importante fase, na qual a dor pode ser expressa e chorada, que uma pessoa pode começar a se consolidar e a edificar novamente um futuro.28 Muitos de nós perdemos contato com os nossos sentimentos, ou esquecemos como é que se chora. Para nós geralmente é mais difícil atingir este estágio de reconstrução. Que as lágrimas dessas mulheres nos lembrem a im¬portância de não esconder nossos sentimentos, ou de não fingir que eles não existem. Maturidade implica aprender a expressar nossas emoções apropriadamente. Noemi passou pela dor e chegou à determinação de edificar uma vida nova no futuro.
Que Noemi também nos faça lembrar que nossos sentimentos mais profundos e nossas ansiedades não estão ocultos de Deus. Ela delibe-radamente apresenta a ele os seus sentimentos de maneira bem franca. Realmente, ela lança toda a responsabilidade do seu destino nas costas de Deus! Ela agora experimenta Deus como um inimigo (cuja mão foi descarregada contra ela). Dele foi também a mão por trás da fome e das mortes, primeiro de seu marido e, depois, dos sevis filhos. Mas ela mantém estas amargas experiências dentro do contexto da sua promessa, lembrando-se, e às suas noras, do seu nome:
Javé, o Senhor.
O que significa a fé em Javé em períodos de aflição? Mais tarde voltamos os olhos para o sofrimento e, às vezes, discernimos o bem que veio após ele. Outras vezes, não. Frequentemente, podemos crer, o sofrimento nos confronta, mais que qualquer outra coisa, com a transitoriedade e fragilidade de nossas vidas. O sofrimento, como bem se vê no livro do Dr. Martin Israel, The Pain that Heals (O Sofrimento que Cura), pode nos colocar em contato com dimensões mais profundas da vida espiritual. O sofrimento (que o Dr. Israel chama de "a face escura" de Deus) pode ser o caminho para o crescimento e a maturidade do caráter: dor que cura. Mas na hora não sentimos assim. Na hora, como o testifica a experiência de Noemi, a essência da confiança, durante toda a experiência da aflição, é nos colocarmos humildemente debaixo da mão de Deus, da qual recebemos o golpe, na firme crença de que (apesar de todas as aparências) é a mão do Pai de amor.
"Garante-me, ó Senhor, a força de atravessar o vale da sombra da morte de modo que, ao sair do outro lado, eu seja uma pessoa melhor, mais compassiva, mais aproveitável por ti como testemunha e mais útil ao meu irmão como servo."29
Uma fé assim deve ter tido uma influência vital na vida de Rute.
A fé de Rute (l:14b-18)
Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. l5Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. l6Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. l7Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra cousa que não seja a morte me separar de ti. w Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a ir com ela, deixou de insistir com ela.
Enquanto Órfã deu prova do seu amor na obediência ao desejo de Noemi de que partisse para se casar novamente, Rute demonstrou o seu amor tornando-se sua filha. Lemos que Rute se apegou a Noemi (versículo 14). Este verbo é a palavra que expressa um "apego" fiel e sincero em um relacionamento pessoal, como o do homem com a esposa no jardim do Éden.30 Também é usado em relação à sincera fidelidade que Deus espera do povo da aliança em resposta à sua iniciativa da graça salvadora.31 Rute, a moabita, ex-adoradora de Camos, está demonstrando uma qualidade de vida característica do povo de Javé.
Apesar de Noemi citar o exemplo de Órfã e da óbvia adequabilidade de que Rute permaneça com o "seu povo", e apesar de que, de acordo com a sabedoria humana, uma adoradora de Camos devesse obviamente permanecer onde os "seus deuses" eram adorados, Rute insiste em ficar com Noemi. O nosso autor apresenta aqui as palavras de Rute, sua clássica e bela afirmação de fidelidade, determinação e compromisso de amor. Rute quer compartilhar do futuro de Noemi: sua viagem, seu lar, sua fé. É a promessa de uma fidelidade sincera na vida e para toda a vida. Ou, por que não dizer, além da vida: os membros de uma família partilhavam do mesmo chão ao serem sepultados, pelo menos na Palestina primitiva;32 e supomos que isto também acontecia com o povo de Rute. Como diz Leon Morris, a firme determinação de Rute é que nada, nem mesmo a morte, vá separá-la de Noemi.33 E no centro desta expressão de amor e compromisso para com Noemi (na viagem, no lar, na família, na vida e na morte) está o compromisso de adorar o Deus de Noemi. Embora, num certo sentido, seja verdade que Rute talvez pensasse que uma mudança para Belém poderia implicar a necessidade de reconhecer "o deus de Belém",34 num outro, a sua fé mostra-se explicitamente mais profunda. Rute está disposta a colocar nos seus lábios o nome do Deus da aliança de Noemi, Javé, o Senhor, numa determinada profissão de fé naquele que fundamenta o seu juramento. Faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver: esta expressão deveria incluir um gesto invocando a punição de Javé sobre ela, caso deixasse de cumprir o seu voto.
A fé de Noemi com certeza era tão eficaz, mesmo na adversidade, apontando para o governo soberano de Javé, que Rute, através do testemunho de Noemi, foi agora capaz de exercer a sua própria fé no Deus dela e de se considerar agora como parte do povo da aliança de Javé. Não teria sido precisamente a fé de Noemi, em meio às incertezas, que mostrou a Rute o Senhor?
Com que frequência o Senhor usa as experiências do seu povo, especialmente em períodos de aflição e dificuldades, para atrair outros a si! Quando Moisés foi ao encontro de Jetro, seu sogro, ele contou "tudo o que o Senhor havia feito a Faraó e aos egípcios por amor de Israel, todo o trabalho que passaram no Egüo, e como o Senhor os livrara." Jetro se regozijou pelo livramento cheio de graça de Deus: "Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses."35
Da mesma forma, Paulo, preso sob a guarda romana, o que ele considerava como parte de sua "incumbência"36 para com Cristo, escreve aos leitores em Filipos: "Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as cousas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho."37 Por meio dos seus sofrimentos a igreja foi incitada a uma renovada devoção e Cristo foi pregado.
Aqui, nesta passagem, o Senhor está atraindo Rute à fé, certamente usando como testemunho persuasivo a experiência da graça de Noemi através da aflição. Um Deus que se revela no vale das sombras é digno de nossa confiança também nos dias de maior conforto.
Noemi ou Mara? (1:19-22)
Então ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi? 20Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi, chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-poderoso. 2}Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o Senhor se manifestou contra mim, e o Todo-poderoso me tem afligido? 22Assim voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega das cevadas.
Quando Noemi viu que Rute estava "resolvida", firmemente determinada por uma decisão inabalável (1:18), ela concordou, e as duas viúvas seguiram juntas para Belém. Quando chegaram, os homens, ao que parece, estavam fazendo a colheita da cevada, no começo da sega, isto é, em abril. Mas as mulheres (Knox as restringe a "todas as fofoqueiras"!) começaram a fazer perguntas. Noemi estivera fora durante muitos anos. Ela partira com marido e dois filhos, e voltava agora viúva com uma nora viúva. Talvez sua aparência falasse da amargura que tinham experimentado. Quando lhe perguntaram: Não é esta Noemi?, o jogo de palavras com o significado do seu nome é comovente: Não me chameis Noemi (que significa "alegre"); antes, chamai-me Mara (que significa "amargura"). Conforme percebemos em 1:13, ela crê que as amargas experiências que enfrentou vieram da mão de Deus: "porque grande amargura me tem dado o Toâo-Poderoso."
O Todo-poderoso
O título divino traduz a palavra hebraica Shadai, geralmente usada no Pentateuco e particularmente em Génesis. Discordam os autores sobre o significado de sua raiz, sugerindo alguns que mais provavel¬mente a etimologia relacione "Shadai" com "montanha", no sentido qualitativo de possuir durabilidade, solidez e veracidade.38 Contudo, se verificarmos o seu uso em Génesis, descobriremos três referências que podem esclarecer o seu significado, levando-nos ao pensamento de Noemi ao usá-lo.
Primeiro, em Génesis 17:1, descobrimos que Deus fez a um Abraão de noventa e nove anos de idade a promessa de gerar filhos, e se revela como "Deus Todo-poderoso". Aqui ele é o Deus que pode transfor¬mar a impotência do homem em bênção, para o bem do próprio homem e para a sua glória. Segundo, em Génesis 43:14, o velho Jacó, em sua perplexidade, concorda relutantemente com que os seus angustiados filhos retornem ao Egito, levando o irmão mais moço para o (até então) ainda não identificado José: "Deus Todo-poderoso vos dê misericórdia perante o homem." "Shadai" aqui fala da esperança da proteção de Deus para um período de incertezas. E, terceiro, em Génesis 49:25, a profecia de Jacó sobre os seus filhos fala da futura "fertilidade" de José apesar de todo o "embaraço", e o atribui ao "Todo-poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos das profundezas, com bênçãos dos seios e da madre." Depois de treze anos de sofrimento e isolamento na prisão, José é elevado a primeiro ministro do Egito! Esse tipo de bênção é característico de Shadai.
E é com referência a esse aspecto do caráter de Javé descrito por "Shadai" ("o Deus que é melhor quando o homem está na pior", como J. A. Motyer uma vez expressou) que Noemi apresenta a estrutura de sua fé naquele em quem ela deposita o seu sofrimento. É como se ela dissesse: "Vocês podem ver a amargura que tenho experimentado: a fome, a perda de entes queridos, as dúvidas, as separações, o aparente desespero; mas eu conheço Deus como Shadai, e posso deixar as explicações, e até mesmo a responsabilidade, desta amargura com ele."
Será que ela não estava conseguindo enfrentar a realidade? Será que Noemi estava errada em pensar assim? Será que ela estava acusando Deus do mal que sofria, usando aquele tipo de astuta explicação mais apropriada aos inúteis consoladores de Jó ao invés de observações que eram fruto de uma fé amadurecida? Não nos parece assim. Antes, parece que é exatamente a chave de como uma pessoa de fé aprende a enfrentar a dor e a incerteza das muitas tribulações da vida. Em um mundo, no qual, da perspectiva humana, as palavras do Pregador parecem sobremodo verdadeiras ("Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento")3'1, suas outras palavras podem fornecer o contexto completo, a perspectiva mais ampla dentro da qual a "vaidade" pode ser enfrentada: "não sabes as obras de Deus, que faz todas as cou-sas".40 É a pessoa que conhece o seu Deus como Shadai que pode perceber a outra história: que até mesmo a aparente falta de signifi¬cado do sofrimento terreno faz parte de um padrão da providência, e pode ser enfrentada quando colocada nas mãos de Deus. E não apenas Shadai, pois o Deus que se revelou nessa característica é o Deus que também declarou o seu nome ao seu povo: Javé, um nome que aponta para o seu amor expresso na aliança. E Noemi sabe que o Shadai com o qual ela pode deixar sua amargura é o Javé que a trouxe para casa.
Conta-se a história de um pregador que usava como ilustração os fios emaranhados do avesso de uma tapeçaria, destacando que grande parte da experiência desta vida "debaixo do sol", neste mundo decaído e afligido pelo pecado, em todos os seus diferentes caminhos, geralmente nos parece ser uma confusão de cores sem relação alguma, fios soltos e nós indesembaraçáveis. Apenas quando o outro lado da tapeçaria se torna visível é que esses mesmos fios nos apresentam o que foi bordado: "Deus é Amor". Talvez não vejamos o outro lado, que nós chamamos de "outra história", que está sendo escrito ao longo e ao redor da história humana a qual nós lemos às vezes de maneira tão dolorosa. Mas a fé é a garantia divina de que esse outro lado existe, e de que, no seu amor, até mesmo o sofrimento tem um significado.
Este é um tema exemplificado em outras passagens das Escrituras. Quando o salmista ficou desesperado por causa da prosperidade dos perversos e da aparente futilidade de uma vida honesta, de modo que até a sua própria fé parecia estar sendo tragada pela calamidade e pela dúvida, ele achou que era "mui pesada tarefa" tentar compreendê-lo. "Até que entrei no santuário de Deus": então o homem perverso e ele mesmo foram vistos a uma nova luz. Ele pôde, apesar da contínua incerteza, exclamar: "Todavia, estou sempre contigo, quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio."41 Davi também, no Salmo 30, chegou a "clamar" a Deus pedindo ajuda. Ele experimentou o que chama de "ira" de Deus. Ele chora e suplica a Deus, e descobre que até mesmo a profunda tristeza pode produzir alegria. O visitante noturno que chega vestido de "choro" é transformado pela luz do dia em exclamações de alegria.42
Nosso Senhor Jesus, também, ajudou os discípulos a entenderem suas perplexidades e dúvidas a uma nova luz e de uma perspectiva diferente. Quando, falando do sofrimento de um homem que nascera cego, eles perguntaram a Jesus "Por quê?" Eles não foram informados da causa ativa do sofrimento, mas apenas da causa final: "para que se manifestem nele as obras de Deus".43
Mas é na própria pessoa de Cristo que a plena revelação desta verdade se torna clara. O Novo Testamento o apresenta como o servo sofredor de Deus, como o Cordeiro de Deus sobre o qual foram colocados os pecados e as dores do mundo. Em Cristo, e em particular na vida de Cristo derramada na morte da cruz, o próprio Deus entrou e compartilhou das profundezas do sofrimento e do pecado deste mundo. Ele assumiu sobre os seus ombros a responsabilidade de resolver este assunto. Na horrível ruptura da comunhão entre o Pai e o Filho, focalizada no grito de abandono, Deus demonstrou o seu desejo de que a graça preciosa fosse conhecida em cada separação e sofrimento humano; ele ouve cada oração com o grito: "Meu Deus, por quê?" Além disto, com espantosa condescendência, ele nos convida a lançar sobre ele nosso pecado e nosso sofrimento, e até mesmo, poderíamos dizer, a desabafar sobre ele nossa ira, pois ele a pode suportar. Não é isto que acontece em alguns daqueles difíceis salmos "imprecatórios", quando o autor dá vasão à sua ira?
Frank Lake cita Robert Leighton, arcebispo de Glasgow no século XVII, que escreveu a uma mulher muito deprimida: "Eu a convido a lançar a sua raiva 110 seio de Deus." Então Lake prossegue, dizendo o seguinte em um parágrafo muito comovente:
O propósito da cruz de Cristo é atrair sobre ele a justa ira dos inocentes aflitos, que não podem se defender nem se vingar adequadamente para dar um fim à injustiça do momento e que tendem, portanto, a adiar e inevitavelmente transferir a reação, de modo que outras pessoas, relativa ou totalmente inocentes, vêm a sofrer. Cristo foi crucificado para que agora a nossa ira possa se esgotar, obedientemente e na fé, ferindo aquele que foi providenciado, o Cordeiro de Deus. Pecado passa a ser, então, "não crer em Jesus", não confiar nele para assumi-la e, ao assumi-la, acabar com ela.44
Precisamos aprender, na vida pessoal e pastoral, a aplicar o evangelho da graça de Deus em Cristo às mais profundas necessidades emocionais. Nossos sentimentos também estão dentro do escopo da providência de Deus.
Neste primeiro capítulo de Rute, Noemi compartilhou conosco a sua fé em Deus. É uma fé cujo brilho contrasta com as trevas dos seus sofrimentos. Ela viu a mão do Senhor na restauração da bênção de Belém; reconheceu a mão divina levantando-se contra ela na amarga experiência da morte; buscou o seu cuidado e proteção para Órfã e Rute; deu testemunho do Todo-poderoso na dor, quando de sua volta às antigas amizades. Esta é uma fé e uma confiança em Javé que reluz maravilhosamente na tela de fundo obscura e cheia de dúvidas dos dias em que os juizes julgavam. É a fé em Javé que levou Rute a confiar nele: a fé na qual se baseiam os subsequentes capítulos de nossa história.
Rute e Boaz assumem os papéis principais no restante do livro. Noemi, porém, volta no capítulo 2 de Rute como a intérprete à luz da providência de Deus; e, em Rute 3 e 4, ela é o agente de bênçãos divinas providenciais aos outros.
O amor é quente como as lágrimas,
O amor são lágrimas: Pressão na cabeça, Tensão na garganta, Dilúvio, semanas de chuva, Montes de feno inundados, Mares sem forma entre as sebes; Antes tudo era verde.
O amor é ardente como fogo,
O amor é fogo: Todo tipo: fogo do inferno, Cheio de avidez e orgulho, Desejo lírico, forte e doce, Risonho, mesmo quando desejado, E essa chama celeste De onde vem todo o amor.
O amor é suave como a primavera,
O amor é primavera: Cânticos de aves pelo ar, Aromas frescos nas matas, A sussurrar: "Coragem!" Dizendo à seiva, ao sangue: "Calma, segurança e repouso São bons; mas não o melhor."
O amor é duro como os cravos,
O amor são cravos: Duros, grossos, martelados Nos nervos mediais daquele Que, tendo nos feito, sabia O que ele tinha feito, E vendo (com tudo isso) A nossa cruz e a dele.
C. S. Lewis (1898-1963)
2. Voltando para casa
A preocupação de Noemi (1:8-9)
Disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram, e comigo. 9 O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz.
A verdadeira fé sempre pode ser avaliada pêlos frutos do amor;1 e Rute, a moabita que veio a crer no Deus de Noemi, devia ter aprendido com esta a realidade da fé, experimentando seus benefícios através do amor praticante de sua sogra para com ela.
Noemi surge agora como a personagem principal de Rute 1. No desdobramento da "outra história", o tema da providência de Deus na sucessão dos acontecimentos de situações humanas nas quais Noemi e suas noras se encontram, e a subsequente provisão divina para com Rute e Boaz, vamos nos concentrar primeiro em Noemi e especialmente na fé inabalável de Noemi em Javé. Especificamente aqui vemos como a sua fé se demonstrou ativa em amor.2
Antes de mais nada, a preocupação amorosa de Noemi com suas noras encontra sua expressão na oração. Como já se disse com muito acerto: "O que um homem crê ou não crê a respeito da oração é uma boa indicação de suas crenças religiosas de um modo geral. O que ele crê sobre a oração é uma indicação do que ele crê sobre Deus. Mais particularmente, o que o homem faz com a oração é uma indicação do que ele crê a respeito dela."3
A oração é, e sempre foi, o lado ativo da doutrina da providência. A oração é o reconhecimento, não do benefício psicológico de algum exercício mitológico, mas do fato de que nós cremos que Deus existe, que Deus se importa conosco, que Deus está no controle e que Deus providencia tudo, e cremos de tal modo que estamos dispostos a fazer alguma coisa com base nisso, isto é, a falar com ele. A providência nos lembra que não passamos de criaturas, que somos dependentes de Deus e que, junto com o mundo todo, estamos sob o senhorio de Deus; a oração é uma atividade pela qual reconhecemos que não podemos ser nosso próprio senhor. A providência nos lembra que nem tudo é desesperadamente absurdo ou sem sentido; a oração é a nossa maneira de dizer "sim" diante da convicção de que Deus está operando os seus propósitos na natureza, nos homens e na história. A providência é um lembrete de que o Senhor é um Deus de graça e generosidade; a oração é a nossa maneira de responder ao seu convite para fazermos parte da família da sua aliança, para sermos seu filho ou sua filha, seus cooperadores neste mundo. A providência nos lembra que o Deus vivo não é um destino imutável diante do qual só podemos manter silêncio e ficar passivos; a oração é a nossa reação diante do convite de Deus para que partilhemos da comunhão com ele, uma expressão da nossa união com ele. Como disse P. Forster:
A profundidade do senhorio de Deus é tal que ele permite que tenhamos um lugar no seu governo do mundo ... isto aponta para a seriedade de nossas ações como cristãos. Não significa que estejamos segurando as rédeas do governo do mundo. Elas estão nas mãos de Deus. Mas nós temos o nosso lugar no seu exercício. Em sua onipotência e onisciência supremas, Deus quer partilhar sua vida conosco.4
Forster prossegue dizendo que Deus vai retificar e compensar nossa oração quando a responder. Não que a nossa oração seja a coisa certa e segura a fazer, e a resposta de Deus a coisa incerta e insegura. Pelo contrário, nós é que somos desafiados na oração, e não Deus.
Portanto, através da oração nós expressamos a nossa confiança na providência de Deus e descobrimos como a nossa própria vontade deve ser alinhada com a sua vontade soberana e cheia de amor por nós. A nossa ação na oração se encontra na sua resposta transforma-dora.
Isto aconteceu com Noemi em sua oração a favor de Rute e Órfã. Ela orou como alguém que conhecia o seu Deus como o Senhor da aliança. A sua oração aqui é de confiante entrega do futuro nas mãos do Senhor. Ao pensar em suas noras e nas necessidades delas, Noemi ora pedindo que o Senhor, o Deus da aliança, use de benevolência para com elas.
O amor da aliança
Benevolência (versículo 8) traduz a palavra central do relacionamento de Deus com o seu povo através da aliança: hesed, amor constante e fidelidade. É uma palavra "que combina o calor da comunhão de Deus com a segurança da sua fidelidade".5 É a palavra de amor que Moisés canta ao louvar o redentor,6 e pela qual o povo é convocado para a comunhão da aliança com ele. Noemi louva a Deus por seu hesed em 2:20, e Rute é louvada pelo seu em 3:10. Portanto, é uma palavra que nos diz algo do cará ter do Deus da aliança, e também diz algo das pessoas que demonstram esse caráter em suas vidas. Vamos retornar a este assunto no capítulo 4.
O correlativo desta palavra no Novo Testamento é ágape, que descreve o amor sacrificial de Deus pelo seu povo e o amor que ele espera que o seu povo demonstre em troca disso. Talvez a definição mais aproximada é a que encontramos em l João 4:10-11: "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pêlos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira .nos amou, devemos nós também amar uns aos outros."
Noemi confia no Deus do amor e entrega Rute e Órfã aos cuidados dele. Suas noras demonstraram uma bondade maravilhosa para com ela e sua extinta família; que Deus demonstre o seu amor para com elas. Sua preocupação particular era que elas retornassem às suas próprias famílias em Moabe, onde aparentemente pelo menos os pais de Rute ainda viviam (2:11), e que se casassem novamente.
Um lar
O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido', isto indica principalmente o anseio por um "lugar de descanso".7 A palavra não se refere apenas ao fim dos problemas e do sofrimento (que Rute e Órfã pudessem superar a dor de suas perdas), mas também à experiência positiva da segurança e do conforto divinos. "Volta, minha alma, ao teu sossego (descanso)", canta o salmista, "pois o Senhor tem sido generoso para contigo."8
Para entender o pleno significado da oração de Noemi, temos de saber alguma coisa sobre a situação das mulheres viúvas naquele tempo. Considerando que o status das mulheres na sociedade do Antigo Testamento era muito aquém do que lhes foi concedido por Jesus 110 Novo Testamento (na sua maneira de tratar a mulher junto ao poço, com a siro-fenícia, Maria e Marta, como também no que ensinou sobre o divórcio, garantindo às mulheres direitos iguais aos dos homens),9 a situação da viúva era ainda pior. A esposa estava incluída na propriedade do marido, podendo ser repudiada, e não tinha direito de herança.10 Era, entretanto, bem superior a uma escrava e, especialmente quando nascia um filho do sexo masculino, era respeitada dentro da família. Mas a sua segurança repousava no marido e ela tinha poucos direitos próprios.
Portanto, quando morria o marido, a viúva (especialmente se tivesse filhos pequenos para sustentar) ficava em posição muito difícil. A palavra traduzida para "viúva" não apenas indica a morte do marido, mas também dá ideia de solidão, abandono e desamparo.11 As viúvas eram geralmente mencionadas junto com os órfãos e os estrangeiros.12 Elas tinham necessidade especial de proteção, e Javé cuida delas de maneira singular." Portanto, o povo era convo¬cado a cuidar do direito das viúvas e diversas leis do Pentateuco procuravam aliviar o destino delas.14 Contudo, a queixa do tratamento injusto recebido pelas viúvas é um tema constante nos profetas.15
A única esperança que restava de recuperar o status social para uma viúva ainda jovem era casar outra vez. Toda a profundeza de sen¬timentos extraídos de sua própria viuvez Noemi colocou em sua oração em favor das duas jovens: O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido.
A dor da separação (l:9b-14)
E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz, we lhe disseram: Não, iremos contigo ao teu povo. "Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas, por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? nTornai, filhas minhas, ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: Tenho esperança, ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas, porque por vossa causa a num me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão. uEntão de novo choraram em voz alta; Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela.
O choro expressava a dor, e a dor era em parte um sentimento de ambivalência de Órfã e Rute, que precisavam escolher entre o seu amor por Noemi e a sua esperança de serem mães num segundo casamento. Inicialmente as duas se recusaram a partir, mas, com a insistência de Noemi, Órfã foi persuadida. O raciocínio de Noemi girava em redor da prática do casamento de levirato, que explicaremos mais detalhadamente na seção 5. Quando um homem morria sem deixar um filho homem, o seu irmão devia agir como "levir": isto é, tomar a viúva, a fim de gerar um filho para o homem morto. Talvez Noemi estivesse dizendo a Rute e Órfã que não havia irmãos vivos de Malom e Quiliom que pudessem agir como "levir" e, naturalmente, as jovens não podiam esperar que futuros filhos seus atingissem a idade de casar! De qualquer forma, Noemi já havia ultrapassado a idade de conceber.16
O autor pretende descrever um quadro de desesperança: Noemi está enfatizando a completa impossibilidade de providenciar pais para os filhos de Órfã e Rute.17 Conforme veremos, a situação estava longe de tal desespero, pois na providência de Deus, e através da ação de um goel (um parente remidor), Rute receberia um marido e um filho. Mas, por agora, essa esperança não estava ainda no horizonte. E Órfã foi persuadida a partir. Ela beijou Noemi, despedindo-se dela (versículo 14), e presumivelmente voltou a Moabe para procurar outro marido. A propriedade de Quiliom retornou para Noemi (4:9).
A dor não era apenas das noras. Tanto o sofrimento da própria Noemi como a sua participação na dolorosa escolha que Rute e Órfã tinham de fazer expressavam-se nas suas palavras: "Não, filhas mi¬nhas, porque por vossa causa a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão." Vamos retomar a este versículo quando chegarmos a Rute 1:21. Note-se, porém, que, apesar do sofrimento, seus pensamentos são voltados para o benefício dos outros (por vossa causa). E, apesar do sofrimento (e até mesmo ira), Noemi ainda se apega ao fato de que aquilo que recebeu veio das mãos do Senhor. Não há sentimentos ocultos, não há fingimento de que não existe ira, não há qualquer gesto estóico, nem falsas afirmativas de que tudo vai bem. Enquanto, da perspectiva de sua fé na providência de Deus, tudo vai bem, ela certamente não se sente assim. Como o grito de Habacuque diante de Deus por causa de seu aparente fracasso em evitar que se levantassem os opressores caldeus,18 para descobrir depois, finalmente, que os próprios caldeus faziamparte do propósito amoroso de Deus19 e havia, não obstante, fundamentos para confiança na força de Deus, até mesmo alegria,20 assim também Noemi, aqui, não esconde de Deus seus sentimentos mais profundos.
Muitos de nós até já esqueceram como se lamenta a morte de alguém. Embora devamos nos lembrar de que a fé cristã acabou com o aguilhão da morte e que há lugar para uma palavra gentil de compaixão em certas ocasiões ("Não chores!"21), não devemos negar a dor da separação daqueles que perderam os seus queridos. Chegará o dia em que a afirmação cristã da esperança de vida em Cristo se tornará a realidade do novo céu e da nova terra, quando "a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor";22 mas haverá momentos ainda deste lado do céu quando choraremos e lamentaremos antes de nossa tristeza ser convertida em alegria.23
Naturalmente, a fé cristã tomou obsoleta grande parte da lamentação pública prolongada e dolorosa pêlos mortos, o que era costume no Israel de antigamente. Embora os crentes em Javé fossem proibidos de praticar alguns rituais da morte dos cananeus, eles ainda ficavam, durante longos períodos, gemendo e batendo no peito depois da morte de um ente querido.24 A parábola de Jesus sobre as crianças lamentando os mortos quando brincavam de enterro25 indica que alguns desses costumes ainda prevaleciam no seu tempo. Mas, embora grande parte do desespero dessa lamentação tenha se transformado para o cristão com a morte e ressurreição de Cristo,26 ainda há uma tristeza muito espiritual quando perdemos um amigo e quando a morte penetra em nossa vida. Não foi por isso que Jesus chorou junto à sepultura do seu amigo?27 Em nossa tristeza pela morte, nós, como cristãos, somos sustentados pela esperança da ressurreição dos mortos. Mas não vamos fingir que a morte não machuca e que a tristeza não pode ser expressada. A tristeza é uma coisa real e a sensibilidade renovada pela graça de Cristo pode sentir-se profundamente ferida e, portanto, muito mais suscetível a revelar-se em lágrimas.
Após o choque inicial de dor pela morte de alguém, e após o pequeno período de serenidade forçada por causa dos outros (no funeral, por exemplo), o verdadeiro sofrimento muito naturalmente leva a uma experiência de retorno às emoções que alguns de nós esquecemos desde a infância. Sentimentos, às vezes de culpa, às vezes de raiva, vêm junto com uma tensão que anseia ser aliviada com lágrimas. É depois de passar por esta importante fase, na qual a dor pode ser expressa e chorada, que uma pessoa pode começar a se consolidar e a edificar novamente um futuro.28 Muitos de nós perdemos contato com os nossos sentimentos, ou esquecemos como é que se chora. Para nós geralmente é mais difícil atingir este estágio de reconstrução. Que as lágrimas dessas mulheres nos lembrem a im¬portância de não esconder nossos sentimentos, ou de não fingir que eles não existem. Maturidade implica aprender a expressar nossas emoções apropriadamente. Noemi passou pela dor e chegou à determinação de edificar uma vida nova no futuro.
Que Noemi também nos faça lembrar que nossos sentimentos mais profundos e nossas ansiedades não estão ocultos de Deus. Ela delibe-radamente apresenta a ele os seus sentimentos de maneira bem franca. Realmente, ela lança toda a responsabilidade do seu destino nas costas de Deus! Ela agora experimenta Deus como um inimigo (cuja mão foi descarregada contra ela). Dele foi também a mão por trás da fome e das mortes, primeiro de seu marido e, depois, dos sevis filhos. Mas ela mantém estas amargas experiências dentro do contexto da sua promessa, lembrando-se, e às suas noras, do seu nome:
Javé, o Senhor.
O que significa a fé em Javé em períodos de aflição? Mais tarde voltamos os olhos para o sofrimento e, às vezes, discernimos o bem que veio após ele. Outras vezes, não. Frequentemente, podemos crer, o sofrimento nos confronta, mais que qualquer outra coisa, com a transitoriedade e fragilidade de nossas vidas. O sofrimento, como bem se vê no livro do Dr. Martin Israel, The Pain that Heals (O Sofrimento que Cura), pode nos colocar em contato com dimensões mais profundas da vida espiritual. O sofrimento (que o Dr. Israel chama de "a face escura" de Deus) pode ser o caminho para o crescimento e a maturidade do caráter: dor que cura. Mas na hora não sentimos assim. Na hora, como o testifica a experiência de Noemi, a essência da confiança, durante toda a experiência da aflição, é nos colocarmos humildemente debaixo da mão de Deus, da qual recebemos o golpe, na firme crença de que (apesar de todas as aparências) é a mão do Pai de amor.
"Garante-me, ó Senhor, a força de atravessar o vale da sombra da morte de modo que, ao sair do outro lado, eu seja uma pessoa melhor, mais compassiva, mais aproveitável por ti como testemunha e mais útil ao meu irmão como servo."29
Uma fé assim deve ter tido uma influência vital na vida de Rute.
A fé de Rute (l:14b-18)
Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. l5Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. l6Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. l7Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra cousa que não seja a morte me separar de ti. w Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a ir com ela, deixou de insistir com ela.
Enquanto Órfã deu prova do seu amor na obediência ao desejo de Noemi de que partisse para se casar novamente, Rute demonstrou o seu amor tornando-se sua filha. Lemos que Rute se apegou a Noemi (versículo 14). Este verbo é a palavra que expressa um "apego" fiel e sincero em um relacionamento pessoal, como o do homem com a esposa no jardim do Éden.30 Também é usado em relação à sincera fidelidade que Deus espera do povo da aliança em resposta à sua iniciativa da graça salvadora.31 Rute, a moabita, ex-adoradora de Camos, está demonstrando uma qualidade de vida característica do povo de Javé.
Apesar de Noemi citar o exemplo de Órfã e da óbvia adequabilidade de que Rute permaneça com o "seu povo", e apesar de que, de acordo com a sabedoria humana, uma adoradora de Camos devesse obviamente permanecer onde os "seus deuses" eram adorados, Rute insiste em ficar com Noemi. O nosso autor apresenta aqui as palavras de Rute, sua clássica e bela afirmação de fidelidade, determinação e compromisso de amor. Rute quer compartilhar do futuro de Noemi: sua viagem, seu lar, sua fé. É a promessa de uma fidelidade sincera na vida e para toda a vida. Ou, por que não dizer, além da vida: os membros de uma família partilhavam do mesmo chão ao serem sepultados, pelo menos na Palestina primitiva;32 e supomos que isto também acontecia com o povo de Rute. Como diz Leon Morris, a firme determinação de Rute é que nada, nem mesmo a morte, vá separá-la de Noemi.33 E no centro desta expressão de amor e compromisso para com Noemi (na viagem, no lar, na família, na vida e na morte) está o compromisso de adorar o Deus de Noemi. Embora, num certo sentido, seja verdade que Rute talvez pensasse que uma mudança para Belém poderia implicar a necessidade de reconhecer "o deus de Belém",34 num outro, a sua fé mostra-se explicitamente mais profunda. Rute está disposta a colocar nos seus lábios o nome do Deus da aliança de Noemi, Javé, o Senhor, numa determinada profissão de fé naquele que fundamenta o seu juramento. Faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver: esta expressão deveria incluir um gesto invocando a punição de Javé sobre ela, caso deixasse de cumprir o seu voto.
A fé de Noemi com certeza era tão eficaz, mesmo na adversidade, apontando para o governo soberano de Javé, que Rute, através do testemunho de Noemi, foi agora capaz de exercer a sua própria fé no Deus dela e de se considerar agora como parte do povo da aliança de Javé. Não teria sido precisamente a fé de Noemi, em meio às incertezas, que mostrou a Rute o Senhor?
Com que frequência o Senhor usa as experiências do seu povo, especialmente em períodos de aflição e dificuldades, para atrair outros a si! Quando Moisés foi ao encontro de Jetro, seu sogro, ele contou "tudo o que o Senhor havia feito a Faraó e aos egípcios por amor de Israel, todo o trabalho que passaram no Egüo, e como o Senhor os livrara." Jetro se regozijou pelo livramento cheio de graça de Deus: "Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses."35
Da mesma forma, Paulo, preso sob a guarda romana, o que ele considerava como parte de sua "incumbência"36 para com Cristo, escreve aos leitores em Filipos: "Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as cousas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho."37 Por meio dos seus sofrimentos a igreja foi incitada a uma renovada devoção e Cristo foi pregado.
Aqui, nesta passagem, o Senhor está atraindo Rute à fé, certamente usando como testemunho persuasivo a experiência da graça de Noemi através da aflição. Um Deus que se revela no vale das sombras é digno de nossa confiança também nos dias de maior conforto.
Noemi ou Mara? (1:19-22)
Então ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi? 20Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi, chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-poderoso. 2}Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o Senhor se manifestou contra mim, e o Todo-poderoso me tem afligido? 22Assim voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega das cevadas.
Quando Noemi viu que Rute estava "resolvida", firmemente determinada por uma decisão inabalável (1:18), ela concordou, e as duas viúvas seguiram juntas para Belém. Quando chegaram, os homens, ao que parece, estavam fazendo a colheita da cevada, no começo da sega, isto é, em abril. Mas as mulheres (Knox as restringe a "todas as fofoqueiras"!) começaram a fazer perguntas. Noemi estivera fora durante muitos anos. Ela partira com marido e dois filhos, e voltava agora viúva com uma nora viúva. Talvez sua aparência falasse da amargura que tinham experimentado. Quando lhe perguntaram: Não é esta Noemi?, o jogo de palavras com o significado do seu nome é comovente: Não me chameis Noemi (que significa "alegre"); antes, chamai-me Mara (que significa "amargura"). Conforme percebemos em 1:13, ela crê que as amargas experiências que enfrentou vieram da mão de Deus: "porque grande amargura me tem dado o Toâo-Poderoso."
O Todo-poderoso
O título divino traduz a palavra hebraica Shadai, geralmente usada no Pentateuco e particularmente em Génesis. Discordam os autores sobre o significado de sua raiz, sugerindo alguns que mais provavel¬mente a etimologia relacione "Shadai" com "montanha", no sentido qualitativo de possuir durabilidade, solidez e veracidade.38 Contudo, se verificarmos o seu uso em Génesis, descobriremos três referências que podem esclarecer o seu significado, levando-nos ao pensamento de Noemi ao usá-lo.
Primeiro, em Génesis 17:1, descobrimos que Deus fez a um Abraão de noventa e nove anos de idade a promessa de gerar filhos, e se revela como "Deus Todo-poderoso". Aqui ele é o Deus que pode transfor¬mar a impotência do homem em bênção, para o bem do próprio homem e para a sua glória. Segundo, em Génesis 43:14, o velho Jacó, em sua perplexidade, concorda relutantemente com que os seus angustiados filhos retornem ao Egito, levando o irmão mais moço para o (até então) ainda não identificado José: "Deus Todo-poderoso vos dê misericórdia perante o homem." "Shadai" aqui fala da esperança da proteção de Deus para um período de incertezas. E, terceiro, em Génesis 49:25, a profecia de Jacó sobre os seus filhos fala da futura "fertilidade" de José apesar de todo o "embaraço", e o atribui ao "Todo-poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos das profundezas, com bênçãos dos seios e da madre." Depois de treze anos de sofrimento e isolamento na prisão, José é elevado a primeiro ministro do Egito! Esse tipo de bênção é característico de Shadai.
E é com referência a esse aspecto do caráter de Javé descrito por "Shadai" ("o Deus que é melhor quando o homem está na pior", como J. A. Motyer uma vez expressou) que Noemi apresenta a estrutura de sua fé naquele em quem ela deposita o seu sofrimento. É como se ela dissesse: "Vocês podem ver a amargura que tenho experimentado: a fome, a perda de entes queridos, as dúvidas, as separações, o aparente desespero; mas eu conheço Deus como Shadai, e posso deixar as explicações, e até mesmo a responsabilidade, desta amargura com ele."
Será que ela não estava conseguindo enfrentar a realidade? Será que Noemi estava errada em pensar assim? Será que ela estava acusando Deus do mal que sofria, usando aquele tipo de astuta explicação mais apropriada aos inúteis consoladores de Jó ao invés de observações que eram fruto de uma fé amadurecida? Não nos parece assim. Antes, parece que é exatamente a chave de como uma pessoa de fé aprende a enfrentar a dor e a incerteza das muitas tribulações da vida. Em um mundo, no qual, da perspectiva humana, as palavras do Pregador parecem sobremodo verdadeiras ("Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento")3'1, suas outras palavras podem fornecer o contexto completo, a perspectiva mais ampla dentro da qual a "vaidade" pode ser enfrentada: "não sabes as obras de Deus, que faz todas as cou-sas".40 É a pessoa que conhece o seu Deus como Shadai que pode perceber a outra história: que até mesmo a aparente falta de signifi¬cado do sofrimento terreno faz parte de um padrão da providência, e pode ser enfrentada quando colocada nas mãos de Deus. E não apenas Shadai, pois o Deus que se revelou nessa característica é o Deus que também declarou o seu nome ao seu povo: Javé, um nome que aponta para o seu amor expresso na aliança. E Noemi sabe que o Shadai com o qual ela pode deixar sua amargura é o Javé que a trouxe para casa.
Conta-se a história de um pregador que usava como ilustração os fios emaranhados do avesso de uma tapeçaria, destacando que grande parte da experiência desta vida "debaixo do sol", neste mundo decaído e afligido pelo pecado, em todos os seus diferentes caminhos, geralmente nos parece ser uma confusão de cores sem relação alguma, fios soltos e nós indesembaraçáveis. Apenas quando o outro lado da tapeçaria se torna visível é que esses mesmos fios nos apresentam o que foi bordado: "Deus é Amor". Talvez não vejamos o outro lado, que nós chamamos de "outra história", que está sendo escrito ao longo e ao redor da história humana a qual nós lemos às vezes de maneira tão dolorosa. Mas a fé é a garantia divina de que esse outro lado existe, e de que, no seu amor, até mesmo o sofrimento tem um significado.
Este é um tema exemplificado em outras passagens das Escrituras. Quando o salmista ficou desesperado por causa da prosperidade dos perversos e da aparente futilidade de uma vida honesta, de modo que até a sua própria fé parecia estar sendo tragada pela calamidade e pela dúvida, ele achou que era "mui pesada tarefa" tentar compreendê-lo. "Até que entrei no santuário de Deus": então o homem perverso e ele mesmo foram vistos a uma nova luz. Ele pôde, apesar da contínua incerteza, exclamar: "Todavia, estou sempre contigo, quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio."41 Davi também, no Salmo 30, chegou a "clamar" a Deus pedindo ajuda. Ele experimentou o que chama de "ira" de Deus. Ele chora e suplica a Deus, e descobre que até mesmo a profunda tristeza pode produzir alegria. O visitante noturno que chega vestido de "choro" é transformado pela luz do dia em exclamações de alegria.42
Nosso Senhor Jesus, também, ajudou os discípulos a entenderem suas perplexidades e dúvidas a uma nova luz e de uma perspectiva diferente. Quando, falando do sofrimento de um homem que nascera cego, eles perguntaram a Jesus "Por quê?" Eles não foram informados da causa ativa do sofrimento, mas apenas da causa final: "para que se manifestem nele as obras de Deus".43
Mas é na própria pessoa de Cristo que a plena revelação desta verdade se torna clara. O Novo Testamento o apresenta como o servo sofredor de Deus, como o Cordeiro de Deus sobre o qual foram colocados os pecados e as dores do mundo. Em Cristo, e em particular na vida de Cristo derramada na morte da cruz, o próprio Deus entrou e compartilhou das profundezas do sofrimento e do pecado deste mundo. Ele assumiu sobre os seus ombros a responsabilidade de resolver este assunto. Na horrível ruptura da comunhão entre o Pai e o Filho, focalizada no grito de abandono, Deus demonstrou o seu desejo de que a graça preciosa fosse conhecida em cada separação e sofrimento humano; ele ouve cada oração com o grito: "Meu Deus, por quê?" Além disto, com espantosa condescendência, ele nos convida a lançar sobre ele nosso pecado e nosso sofrimento, e até mesmo, poderíamos dizer, a desabafar sobre ele nossa ira, pois ele a pode suportar. Não é isto que acontece em alguns daqueles difíceis salmos "imprecatórios", quando o autor dá vasão à sua ira?
Frank Lake cita Robert Leighton, arcebispo de Glasgow no século XVII, que escreveu a uma mulher muito deprimida: "Eu a convido a lançar a sua raiva 110 seio de Deus." Então Lake prossegue, dizendo o seguinte em um parágrafo muito comovente:
O propósito da cruz de Cristo é atrair sobre ele a justa ira dos inocentes aflitos, que não podem se defender nem se vingar adequadamente para dar um fim à injustiça do momento e que tendem, portanto, a adiar e inevitavelmente transferir a reação, de modo que outras pessoas, relativa ou totalmente inocentes, vêm a sofrer. Cristo foi crucificado para que agora a nossa ira possa se esgotar, obedientemente e na fé, ferindo aquele que foi providenciado, o Cordeiro de Deus. Pecado passa a ser, então, "não crer em Jesus", não confiar nele para assumi-la e, ao assumi-la, acabar com ela.44
Precisamos aprender, na vida pessoal e pastoral, a aplicar o evangelho da graça de Deus em Cristo às mais profundas necessidades emocionais. Nossos sentimentos também estão dentro do escopo da providência de Deus.
Neste primeiro capítulo de Rute, Noemi compartilhou conosco a sua fé em Deus. É uma fé cujo brilho contrasta com as trevas dos seus sofrimentos. Ela viu a mão do Senhor na restauração da bênção de Belém; reconheceu a mão divina levantando-se contra ela na amarga experiência da morte; buscou o seu cuidado e proteção para Órfã e Rute; deu testemunho do Todo-poderoso na dor, quando de sua volta às antigas amizades. Esta é uma fé e uma confiança em Javé que reluz maravilhosamente na tela de fundo obscura e cheia de dúvidas dos dias em que os juizes julgavam. É a fé em Javé que levou Rute a confiar nele: a fé na qual se baseiam os subsequentes capítulos de nossa história.
Rute e Boaz assumem os papéis principais no restante do livro. Noemi, porém, volta no capítulo 2 de Rute como a intérprete à luz da providência de Deus; e, em Rute 3 e 4, ela é o agente de bênçãos divinas providenciais aos outros.
O amor é quente como as lágrimas,
O amor são lágrimas: Pressão na cabeça, Tensão na garganta, Dilúvio, semanas de chuva, Montes de feno inundados, Mares sem forma entre as sebes; Antes tudo era verde.
O amor é ardente como fogo,
O amor é fogo: Todo tipo: fogo do inferno, Cheio de avidez e orgulho, Desejo lírico, forte e doce, Risonho, mesmo quando desejado, E essa chama celeste De onde vem todo o amor.
O amor é suave como a primavera,
O amor é primavera: Cânticos de aves pelo ar, Aromas frescos nas matas, A sussurrar: "Coragem!" Dizendo à seiva, ao sangue: "Calma, segurança e repouso São bons; mas não o melhor."
O amor é duro como os cravos,
O amor são cravos: Duros, grossos, martelados Nos nervos mediais daquele Que, tendo nos feito, sabia O que ele tinha feito, E vendo (com tudo isso) A nossa cruz e a dele.
C. S. Lewis (1898-1963)
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