segunda-feira, 20 de agosto de 2012

III - Graça e gratidão

PARTE II

ASAS DE REFÚGIO

2:1-13
3. Graça e gratidão

O segredo (2:1)
Tinha Noemi um parente de seu marido, senhor de muitos bens, da família de Elimeleque, o qual se chamava Boaz.

Enquanto a maior parte das histórias de detetives guarda seu segredo até a última página, o escritor desta nos revela um segredo bem no começo deste capítulo. Ao fazê-lo, ele nos dá mais uma indicação do propósito geral deste livro e de sua preocupação em não nos deixar ignorantes a respeito dele. A esta altura da história, nem Noemi nem Rute sabiam que não muito longe de sua casa morava um homem de considerável riqueza e influência que era seu parente, ou melhor, parente do falecido marido de Noemi. O dia da vida de Rute contido em Rute 2:1-22 é o dia em que ela vem a conhecer esse homem, Boaz. No final do dia, depois do trabalho, ela conta a Noemi o que aconteceu. Só então ela percebe o verdadeiro significado do seu encontro (2:20). Até então, Rute não havia notado que o encontro não fora acidental, mas parte do propósito de um Deus cheio de graça e cuidado.
Mas nós, os leitores, somos informados sobre Boaz neste primeiro versículo. Com esta informação, nosso contador de histórias está nos preparando pelo seguinte motivo: quando, mais tarde, Rute vem a conhecer Boaz de um modo que lhe parece puramente acidental, nós já estaremos informados. Por trás dos aparentes acasos dos encontros comuns do dia a dia, Deus expressa o seu cuidado e a sua determinação providencial, a sua graça da aliança.
Quem era Boaz e por que esta informação é tão significativa para nós? Embora o significado do seu nome não seja claro (parece ser algo relacionado com "rapidez" ou "força"1), duas coisas importantes ficamos sabendo a respeito dele. Em primeiro lugar, Boaz é umparente de Elimeleque, um membro da família de Elimeleque. Em segundo lugar, Boaz é senhor de muitos bens. Vamos examinar uma expressão de cada vez.

Um parente
A importância crucial do elo familiar de Boaz se tornará mais clara no devido tempo. É importante, porém, que saibamos deste relacionamento, uma vez que é apenas por causa deste parentesco com Noemi que Boaz cumpre o papel no qual mais tarde se encaixa a história. Por "família", o Antigo Testamento naturalmente se refere a uma rede de relacionamentos muito mais ampla do que o nosso conceito de uma família nuclear moderna, constituída de mãe, pai e filhos. A família do Antigo Testamento consiste de todos aqueles que estão unidos sob o mesmo teto. Assim, a "família" de Noé incluía sua esposa, seus filhos e suas noras.2 A família de Jacó incluía três gerações.3 Os servos e até mesmo os estrangeiros residentes eram incluídos na família, como as viúvas e os órfãos que viviam sob a proteção do chefe da casa.4 A família no antigo Israel ficava no centro de uma série de relacionamentos ligados: com Deus, com Israel (o povo de Deus como um todo) e com a terra.
A família era o centro do relacionamento principal da aliança do povo com o seu Deus. Assim, os filhos de Noé com suas esposas (e os filhos, se houvesse) estavam incluídos na aliança feita com Noé.5 Quando Deus fez sua aliança com Abraão, todo macho (inclusive "o que tem oito dias") devia ser circuncidado. Até mesmo as criancinhas eram bem recebidas na membresia da aliança, com base única na sua participação na família.6 Na noite de Páscoa, um cordeiro foi pro¬videnciado "para cada família".7 Toda a família permaneceu segura no local demarcado pelo sangue do Cordeiro. Deus operava nas famílias; o seu relacionamento com o seu povo, na aliança, focalizava a vida familiar.
A família era a unidade básica da estrutura social dos israelitas. Era também a unidade básica e beneficiária do sistema israelita de propriedade da terra, porque a terra, em última análise, pertencia a Deus e era concedida às famílias como herança.8 Portanto, na maneira de ver dos israelitas, que se consideravam o povo da aliança de Deus, as áreas social e econômica estavam ligadas à família como seu centro focal. A solidariedade da família era, portanto, extremamente forte no antigo Israel, e os membros da família num sentido mais amplo tinham a obrigação de ajudar e proteger uns aos outros quando houvesse necessidade. Isto se via não apenas na convicção de que o nome da família de um homem devia ser preservado em sua herança, mas também no costume do "levirato" (que discutiremos na seção 5), através do qual isto se tomava possível. Conforme veremos, o papel que Boaz desempenha mais tarde na história deriva do fato de ele ser um parente: alguém da família de Elimeleque. Como que para garantir que nós não percamos a importância do ponto, o fato é repetido novamente no versículo 3.
Talvez valha a pena refletir que grande parte do interesse cristão pelo bem-estar da "vida familiar" nos dias de hoje tem uma ênfase totalmente diferente da solidariedade familiar do Antigo Testamento. Como J. Gladwin observa com acerto,9 devemos ter o cuidado de não nos concentrarmos demasiadamente em determinados padrões culturais da classe média ocidental, crendo serem eles necessariamente um modelo bíblico. Seria mais importante procurar, dentro de nossos próprios termos e de nossa própria cultura, descobrir maneiras de refletir a interligação dos relacionamentos familiares com a terra e com a sociedade que o Israel do Antigo Testamento conhecia em seu contexto em Deus. C. J. H. Wright escreveu:

Ainda que, naturalmente, não sejamos uma nação teocrática redimida como o era Israel, certamente podemos desejar produzir uma sociedade que refuta, num certo sentido, o triângulo dos relacionamentos dentro do qual a família estava estabelecida no Antigo Testamento. Isto significa uma sociedade na qual as famílias desfrutariam de um grau de independência econômica com base na participação equitativa da riqueza da nação; na qual a família pudesse sentir alguma relevância social e algum significado dentro da comunidade; na qual cada família tivesse a oportunidade de ouvir a mensagem da redenção divina de um modo culturalmente relevante e significativo, tendo a liberdade de reagir. Idealístico? Talvez. Mas pelo menos é um idealismo bíblico que de fato parece mais realista do que a crença que busca uma sociedade moralmente revitalizada, desejando apenas uma maior coesão familiar, sem atacar as forças econômicas que solapam a própria coisa desejada.10

Precisamos afirmar não apenas a família mas também as condições sociais dentro das quais a coesão familiar se torna economicamente viável e socialmente digna.

Senhor de muitos bens
A outra coisa que ficamos sabendo sobre Boaz é que ele era um senhor de muitos bens. A expressão, às vezes, significa homem "valente"; foi usada com referência a Gideão, "homem valente", e a Jefté, "homem valente".11 Às vezes significa homem de "poder", como na oração de Moisés por Levi: "Abençoa o seu poder, ó Senhor."12 Às vezes, significa "riqueza", expressão diversas vezes usada por Isaías.13 Também traz um sentido de valor moral; na verdade é a palavra que Boaz usou elogiando Rute em 3:11: "Toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa.^ Portanto, quando somos apresentados a Boaz, somos apresentados a um homem de integridade, a um homem de influência, a um homem de recursos.
Todos esses fatores na vida de Boaz, e, acima de tudo, o fato de ser "alguém da família", um parente de Elimeleque, serão importantes no papel que ele desempenhará dentro da história de Noemi e Rute.

"Por casualidade entrou ..." (2:2-3)
Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele que mo favorecer. Ela lhe disse: Vai, minha filha. 3E/a se foi, chegou ao campo, e apanhava após os segadores; por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque.

Um dos aspectos mais importantes da fé na providência de Deus é que ela nos ensina que até mesmo as coisas acidentais estão dentro do seu cuidado.
O tema do capítulo 2 passa agora para o crescente relacionamento entre Rute, a pobre e jovem viúva de Moabe, e Boaz, o influente homem de recursos que era parente do falecido marido de Noemi. Rute, a esta altura, totalmente ignorante da existência de Boaz, aproveita-se de uma das generosas provisões da lei de Israel, que se refere à respigadura. Por causa da preocupação com os desamparados, os pobres e os "viajantes", as leis levíticas exigiam que os segadores nos campos por ocasião da colheita, e também os agricultores nas vinhas e nos olivais, deixassem uma porção dos frutos, inclusive às margens dos campos, para que fossem colhidos pêlos necessitados. Os segadores não deviam voltar para buscar o grão que tivessem deixado sem colher ou que tivesse caído. Em Levítico 19:9-10 nós lemos:
Quando também segares a messe da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha: deixá-los ás ao pobre e ao estrangeiro: Eu sou o Senhor vosso Deus.14
O motivo da preocupação com os pobres e os oprimidos está expresso em termos do caráter divino. Repetidas vezes, neste capítulo 19 de Levítico, encontramos provisões para a vida doméstica, social, religiosa, econômica e para os aspectos pessoais da vida, junto com o refrão: "Eu sou o Senhor". Há no caráter do Deus (o Senhor) da aliança alguma coisa que deve ser seguida com um determinado padrão de comportamento na vida do povo da aliança. Neste caso em particular, o deuteronomista enuncia o motivo mais claramente: "Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito."15 Em outras palavras, sendo Deus um Deus que liberta os escravos e cuida dos pobres, dos desamparados e dos necessitados, as leis socioeconômicas do país devem expressar também esta preocupação humana, pois a terra e o povo pertencem a esse Deus da aliança, e o seu padrão de vida deve refletir a natureza dele. Assim como no princípio do Jubileu16 e do ano sabático, e também nas leis do dízimo,17 está implícita a crença de que a terra pertence, em última análise, a Deus, e de que a sua preocupação com os pobres e os desprivilegiados encontra expressão económica desse modo.
Aqui surge uma questão muito importante. Será que os países que herdaram a fé cristã têm o dever de ajudar economicamente as áreas mais pobres do mundo? A preocupação com a justa distribuição dos recursos da terra não é uma opção confortável para o cristão. Ela fazia parte do significado de pertencer ao povo da aliança de Deus. A lei da respigadura era uma das maneiras que o antigo Israel entendia como sua obrigação neste sentido. Rute, sendo uma viúva pobre, podia aproveitar-se dela.
Rute sabia também que esta provisão da lei era uma provisão generosa, um sinal da graça que vai além dos direitos pessoais na posse de propriedades. Ela sabia que, embora fosse obrigatório que o proprietário deixasse alguma coisa para o pobre, era perfeitamente possível que senhores inescrupulosos dificultassem a vida dos respigadores. Os pobres dependiam, em grande parte, da boa vontade do proprietário, como se vê pela conversa de Noemi com Rute, no final do dia: "Bendito seja aquele que te acolheu" (2:19). O pedido de Rute a Noemi reconhece o fato: Deixe-me irão campo, e apanharei espigas atrás daquele que mo favorecer. A palavra "favorecer " é usada com referência à graça de Deus (Noé "achou graça diante do Senhor"18), como também expressa o caráter gracioso de uma pessoa em relação à outra. Depois, falaremos mais sobre isto. Por ora, descobrimos que Boaz está colocado no papel de generoso provedor, e Rute é a pessoa neces¬sitada que depende da graça de outra pessoa.
A gentil lealdade de Rute para com a sua sogra, um dos aspectos mais atraentes deste relacionamento já tão rico e bom, é destacada pelo pedido de permissão que ela faz a Noemi, para ir ao campo. Noemi é o poder propulsionador humano em que se baseiam as escolhas de Rute nos capítulos 2 e 3.
Lemos que Rute, por casualidade, entrou na parte do campo que pertencia a Boaz. Ou, como diz a Edição Revista e Corrigida, "caiu-lhe em sorte uma parte do campo de Boaz". Temos aqui uma reafirmação da fé do autor na graciosa providência de Deus. O escritor sabe, como também os leitores, que não foi uma "sorte" ou "casualidade" acidental. O que para Rute foi uma mera coincidência em um conjunto de circunstâncias não planejadas, entendemos (como Noemi entendeu mais tarde naquele dia; 2:20) que foi parte da obra do cuidado gracioso de Deus. "Deus tem o mundo em suas mãos", diz o conhecido hino. Ou, na linguagem mais refinada do apóstolo Paulo, que, depois de exaltar a misericórdia, as riquezas, a sabedoria, o conheci¬mento e o juízo de Deus, lembra os leitores cristãos de Roma de que "dele e por meio dele e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém."19
Abraham Kuyper foi Primeiro Ministro da Holanda no começo do século. Ele também era professor de teologia, jornalista, escritor e amante da arte. Ele fundou a Universidade Livre de Amsterdã em 1880, e na sua conferência inaugural incluiu estas famosas palavras: "Não há uma polegada em toda a área da existência humana que Cristo, o soberano de tudo, não reivindique como sendo sua."20 Kuyper tinha a preocupação de colocar cada esfera da vida, de maneira consciente, sob o senhorio e domínio de Cristo, por causa da sua convicção que todo o mundo se encontrava "em suas mãos"; de que "dele e por meio dele e para ele são todas as cousas". Todos os acontecimentos que aparentemente são ocasionais e que alteram a situação do mundo estão nas mãos de um Deus que tem um propósito para esse seu mundo, um propósito que ele "propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as cousas, tanto as do céu como as da terra".21
O que temos pela frente, não sabemos, se vamos viver ou morrer; mas sabemos que todas as coisas estão ordenadas e certas. Tudo foi ordenado com inerrante sabedoria e amor sem limites, por ti, ó nosso Deus que és amor. Que possamos ver a tua mão em todas as coisas, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.22
Tendo, assim, falado sobre a soberania de Deus, devemos, entretanto, nos guardar do ponto de vista estático e determinista sobre Deus que às vezes acompanha esse tipo de fé. O corolário não é que não passamos de peças em algum jogo de xadrez divino, ou de marionetes controlados por cordas nas mãos de um artista celestial. Pelo contrário. Tanto o Antigo como o Novo Testamento deixam-nos diante do paradoxo (ao qual retornaremos mais tarde) de que as escolhas e as responsabilidades humanas são inteiramente nossas, e de que o desenvolvimento da nossa fé (com temor e tremor) é também obra nossa, precisamente porque Deus opera em nós "tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade".23
Aqui na história de Rute vemos claramente exemplificada a verdade de que a graciosa providência divina não abafa a decisão e a ação humanas. Antes, foi o pedido de Rute e o estímulo de Noemi, a acidental escolha do campo e a livre decisão de Boaz de fazer a colheita no seu campo naquela ocasião, que se tornaram instrumentos na mão de Deus para o seu cuidado providencial. Esta visão de Deus, longe de ser estática e determinista, é viva, dinâmica e responsiva.
Parte da nossa dificuldade em entender este paradoxo deriva talvez da maneira como as tradições cristãs, tanto a católica quanto a protestante, costumam explicar a graça. A tendência de ambas é considerar a graça de Deus como uma força. Às vezes, ela é vista como um poder extra por cima e acima da força humana, uma outra camada de vida, como a nata por cima do leite. Às vezes, a graça é considerada como o poder de uma cirurgia radical que extrai o pecado e coloca, em lugar do poder do pecado original, uma nova força. E naturalmente existe certa verdade em tudo isto. Mas a ênfase principal em nossa compreensão da graça é que "graça" é uma palavra que traduz relacionamento pessoal. Graça significa, mais do que qualquer outra coisa, um "relacionamento cheio de graça" entre Deus e nós. Quando "Noé achou graça" diante do Senhor,24 a verdade é que Deus, com a sua graça, achou Noé e o convidou a se relacionar com ele de uma forma especial. Assim, a graça de Deus não "age sobre nós" de maneira forçada, acabando com a nossa liberdade. Antes, o relacionamento cheio de graça de Deus cria a nossa liberdade. E a sua graciosa providência se expressa em nosso tempo e espaço através da liberdade que temos, como seres humanos, de fazer escolhas, tornar decisões e assumir responsabilidades.
Para dizer a verdade, nem sempre as coisas parecem ser assim. O Pregador assumiu a tarefa de encontrar um propósito divino em todas as coisas e chegou à conclusão deprimente e pessimista de que tudo não passa de "correr atrás de vento" ,25 A vida parece (como deve ter sentido Noemi em suas amargas experiências) um emaranhado de fios desconexos. Mas a fé na graciosa providência divina traz consigo a certeza de que aqueles fios emaranhados são apenas o avesso de uma tapeçaria, cujo lado direito apresenta uma mensagem de espe¬rança e graça. Na verdade, a graça através do sofrimento e da incerteza é um tema que se destaca tanto no Antigo como no Novo Testamento.
Talvez uma das experiências mais poderosas seja a do apóstolo Paulo, que orou três vezes pedindo a cura de seu "espinho na carne", apenas para receber a resposta transformadora: "A minha graça te basta." Como ele mesmo aprendeu e compartilhou conosco, o poder cheio da graça de Deus "se aperfeiçoa na fraqueza" humana.26 É este o ponto alto de sua carta, o vantajoso ponto para onde convergem as experiências de Paulo como apóstolo (inclusive suas fraquezas, provações, alegrias e "acidentes"). Aqui, na hora da necessidade, percebe-se mais claramente a generosa providência de Deus: o que sustentou o apóstolo em sua fraqueza foi a fé. Foi igualmente a fé que, muito tempo antes e com muito menos clareza, Rute partilhou e que o nosso autor está preocupado em expor aqui. Este é o mundo de Deus e até mesmo nossa "sorte" ou "casualidade" faz parte de sua pro¬vidência dominante.

Gratidão (2:4)
Eis que Boaz veio de Belém, e disse aos segadores: O Senhor seja convosco. Responderam-lhe eles: O Senhor te abençoe.

Nem sempre o Senhor é reconhecido tão francamente por um gerente em sua conversação com os operários. "O Senhor seja convosco" (a única vez em que esta saudação em particular se encontra nesta forma, o que talvez indique ser ela mais do que mera convenção) nos dá a entender que até mesmo o trabalho comum cotidiano é considerado por Boaz e seus homens no contexto da fé no Deus da aliança, a quem pertence a terra. Há, nesta saudação, calor e até mesmo gratidão. Como diz Cooke, "nesta propriedade, um espírito religioso governa o relacionamento entre empregador e emprega¬dos."27
Encontramos uma bênção semelhante no final do Salmo 129: "A bênção do Senhor seja convosco! Nós vos abençoamos em nome do Senhor!" Isto se parece muito com a bênção sacerdotal de Números 6:24: "O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto, e te dê paz." Ela provavelmente reflete a maneira como o sacerdote despedia a congregação depois do culto. Mas o salmo usa a bênção apenas em contraste com uma maldição. Mais de uma vez o salmista usa a linguagem da colheita ao fazê-lo, e a certa altura indica que partilhar as bênçãos fazia parte da ideologia da colheita em Israel. A maldição contra "todos os que aborrecem a Sião" expressa a brevidade e a fragilidade da vida em termos de ser esta "como a erva dos telhados, que seca antes de florescer". Descreve, então, o fracasso econômico dizendo que "não enche a mão o ceifeiro, nem os braços, o que ata os feixes". Quando chegamos, portanto, ao versículo final, que fala da ausência de confraternização no trabalho em que seria compartilhado esse tipo de bênção, podemos presumir que aqui também se faz referência a um tema de colheita. A comunhão da bênção partilhada fazia parte da filosofia da colheita de Israel.
Além disso, a bênção que é apropriada para o culto é igualmente adequada ao local de trabalho. A troca de bênçãos entre Boaz e seus trabalhadores tem muita semelhança com o repartir da bênção no final do culto. Não há, no Antigo Testamento, separação entre o "sagrado" e o "secular": o todo da vida é vivido "diante da face de Deus". Assim o Salmo 129 chega ao seu filial contrastando o silêncio dos futuros destruidores de Israel com aquilo que Maclaren chama de "pequeno e belo quadro de um campo de colheita, onde os que passam gritam seus votos aos alegres trabalhadores e recebem destes saudações iguais."28 "A bênção do Senhor seja convosco! Nós vos abençoamos em nome do Senhor!" Esse também é o quadro aqui em Rute 2: a alegria do trabalho e a invocação das bênçãos do Senhor sobre o fruto do árduo labor.
Temos aqui um reconhecimento implícito de uma dependência essencial, ainda que amadurecida (nada infantil), de Deus. No nível da ordem natural, a compreensão de Deus como Criador traz consigo uma compreensão do mundo como uma coisa contingente em sua existência e ordem: isto é, ele poderia ter sido feito de maneira diferente, e a sua existência atual depende totalmente de Deus para continuar sendo assim. Como T. F. Torraiice, S. Jaki e outros argumentam,29 esta é uma pressuposição básica de toda obra científica experimental. Se a ordem do universo fosse uma ordem logicamente necessária, nós a descobriríamos pensando nela sentados em nossas poltronas. Sendo a sua ordem contingente, só podemos descobrir os padrões da natureza através da experiência. E ainda assim a ciência também aceita que o universo é ordeiro e não caótico. O cristão responde dizendo que ambos, tanto ordem quanto contingência, derivam da racionalidade do Criador, que com liberdade de senhor deu a este mundo uma limitada liberdade na dependência dele. E isto se aplica tanto ao nível pessoal como ao impessoal. Nós somos seres morais e racionais, cujas vidas, sob todos os aspectos, refletem os limites de nossa humanidade como criaturas dependentes do Criador, e também uma limitada liberdade de responder-lhe em gratidão e adoração ou de ignorá-lo em suposta autonomia. É pela gratidão e pela adoração que desfrutamos as riquezas da verdadeira liberdade humana dentro dos limites divinos, e é esta que se torna a base de nossa própria criatividade humana em amor.
A psicanalista Melanie Klein escreve muito sobre a interação de um senso de "confiança em alvos pessoais bons" com a capacidade de expressar gratidão e, então, sobre o elo íntimo entre gratidão e generosidade.30 De fato, ela argumenta persuasivamente que é o cultivo de uma atitude de gratidão (ela cita, por exemplo, certos hábitos enfatizados pelos rituais cristãos, como o de dar graças antes das refeições) que pode mitigar os impulsos destrutivos dentro de nós, como a inveja e ganância. O reconhecimento de dependência e de gratidão joga um papel nada desprezível em nossa vida emocional, no sentido de libertar-nos dos efeitos deformadores da inveja e da mania de perseguição, e de liberar nossa capacidade de ser generosos e criativos. Para a Srta. Klein, tal confiança tem uma relação predominante com a confiança da criança em sua mãe e com o amadurecimento emocional que pode advir de tal relacionamento.31 Com muito mais frequência poderia (e deveria) o reconhecimento da dependência e, portanto, um sentimento de gratidão para com o Deus da aliança levar-nos a reações de generosidade nos nossos relacionamentos com os outros. Este foi certamente o caso de Boaz.

A jovem moabita: "Sendo eu estrangeira" (2:5-13)
Depois perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça? Respondeu-lhe o servo: Esta é a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe. 7Disse-me ela: Deixa-me rebuscar espigas, e ajuntá-las entre as gavelas após dos segadores. Assim ela veio, desde pela manhã está aqui até agora, menos um pouco que esteve na choça. Então disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher a outro campo, nem tão pouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. 9Estarás atenta ao campo que segarem, e irás após delas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem ? Quando tiveres sede, vai às vasilhas, e bebe do que os servos tiraram.
10 Então ela, inclinando-se, rosto em terra, lhe disse: Como é que me favoreces e fazes caso de mim, sendo eu estrangeira? 11 Respondeu Boaz, e lhe disse: Bem me contaram tudo quanto fizeste a tua sogra, depois da morte de teu marido, e como deixaste a teu povo e a tua mãe, e a terra onde nasceste e vieste para um povo que dantes não conhecias. 12 O Senhor retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio. l3Disse ela: Tu me favoreces muito, senhor meu, pois me consolaste, e falaste ao coração de tua serva, não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas.

Tem-se dito com frequência que um dos propósitos com que o livro de Rute foi escrito foi a oposição à rígida impermeabilidade da aplicação das leis contra o casamento inter-racial que aconteceu no período de Esdras e Neemias. Conforme já sugerimos, entretanto, é provável que o livro de Rute tenha sido escrito antes do exílio; de qualquer forma, ele não tem o aspecto de um tratado polêmico político. Não obstante, seja como for, o livro não apresenta sérios empecilhos àqueles que pensam no povo de Deus, no Antigo Testamento, como a raça israelita para a qual a questão do casamento inter-racial estava sujeita a sanções legais. Este é um ponto de vista comum. A própria Rute se considerava "uma estrangeira". Um rápido exame das leis do Pentateuco que proibiam o casamento entre israelitas e estrangeiros também parece apoiar o ponto de vista de que o povo de Deus era definido em termos raciais. Assim, em Deuteronômio 7:3, o povo de Deus, na iminência de entrar em Canaã, é comparado às nações que já ocupavam a terra, e recebe esta advertência: Não "contrairás matrimônio com os filhos dessas nações: não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos! ¬Isto não parece enfatizar uma preocupação com a pureza racial entre o povo de Deus? É um princípio que, nos últimos anos, tem sido explorado consideravelmente na política do "apartheid" da África do Sul. Mesmo assim, é um ponto de vista erróneo.
Em um artigo sobre "Racismo e a Bíblia", John Austin Baker começa dizendo o seguinte: "Quando buscamos orientação e sabedoria na Bíblia para os nossos problemas raciais, a primeira coisa, e a mais importante, que devemos absorver é que a Bíblia não tem absolutamente nada a nos dizer."32
O que ele quis dizer com esta declaração totalmente sem artifícios é que "raça", nos termos em que refletimos, é um conceito do qual os escritores da Bíblia não tinham a mínima ideia. As diferenças, para não dizer antagonismos, do mundo antigo não eram sobre raça, no nosso sentido étnico ou de diferenças de cor; tinham a ver com cultura, tradição e religião. O único tipo de discriminação que encontramos no Antigo Testamento é a cultural e a religiosa, e não a racial. Na verdade, a proibição deuteronômica sobre casamentos mistos, que citamos pouco atrás, foi feita para justificar a lei: não era uma pre¬ocupação com raça, mas com religião. Os casamentos com mulheres estrangeiras foram proibidos, "pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses".33 Além disto, os motivos subjacentes na linha dura assumida por Neemias depois do exílio foram precisamente os mesmos: o casamento com "mulheres estrangei¬ras" seria o mesmo que (como aconteceu com Salomão34) seduzir o povo de Javé à adoração de outros deuses. Não é uma proibição de casamento inter-racial, mas, sim, uma forte proibição de casamento inter-religioso. Mas mesmo esta proibição não devia enfatizar a exclusividade como tal. Esdras e Neemias não desistiram da visão universal de "Deutero-Isaías".35 Eles, antes, insistiram numa base moral e religiosamente definida sobre a qual uma tal visão de missão mundial poderia ser realizada.36 O povo de Deus deve ser reconhecido por suas diferenças culturais, morais e religiosas. Mas não se trata, de forma alguma, de uma questão de "raça".
Isto acaba com qualquer tentativa de defender a segregação racial e a discriminação com base num suposto princípio bíblico de "pureza racial". O primeiro princípio sobre o qual se deveria basear qualquer discussão cristã da questão racial é que "no que se refere à raça humana, só existe um único grupo".37 Ser membro do povo da aliança de Javé, portanto, é uma questão de fé na promessa universal de graça, e não uma questão de raça, cor ou antecedentes étnicos. E este sempre tem sido o padrão de fé do Antigo Testamento. Com certa ironia, Baker comenta sobre os "partos, medos e elamitas e os naturais de Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia; da Frigia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes", mencionados em Atos 2, destacando o fato de que eles estavam reunidos em uma comunidade universal sob a antiga aliança para prestar culto em Jerusalém quando o dom pentecostal do Espírito Santo foi derramado. O que os unia inicialmente era sua fé em Javé.
E foi o que ocorreu com Rute e Boaz. Embora Rute se entendesse como uma "estrangeira", Boaz a recebe como membro da família de Javé, sob cujas asas ela veio buscar refúgio.
A insistência do evangelho do Novo Testamento, em que a graça de Cristo e a fé dos cristãos transcendem todas as barreiras raciais e devem ter expressão nos relacionamentos da comunidade,38 baseia-se na convicção fundamental de que Deus "de um só fez toda raça humana".39 O Salvador que os cristãos proclamam é um salvador universal que participa de nossa humanidade comum. O diálogo do próprio Jesus com a mulher de Samaria, junto ao poço de Sicar,40 destaca esse mesmo ponto. E é esta insistência do Novo Testamento que é prefigurada na generosa atitude de Boaz, o belemita, para com Rute, a viúva de Moabe.
Como é que me favoreces e fazes caso de mim? (2:10). Já percebemos que Rute se considerava dependente da graça. Face a face com Boaz, ela novamente reconhece na solícita generosidade deste os sinais da graça ("favoreces"). Boaz obviamente já tinha ouvido falar da volta de Noemi e Rute de Moabe a Belém (versículo 11). Sabia que Rute aceitara a fé em Javé e ouvira do seu devotado serviço à sogra, o que era provavelmente reforçado pela notícia da persistência de Rute o dia todo no trabalho (2:7). Ele sabia que ela desistira de sua família e amigos, de sua religião e da companhia de seus compatriotas para ficar com Noemi. Boaz sabia que Rute, tal como Abraão,41 deixara a casa de seu pai e a sua parentela para ir a uma outra terra, não sabendo o que lhe reservava o futuro. E ele sabia que isto era uma prova da profundeza da fé recém-descoberta de Rute em Javé (2:12), uma fé que se expressava em amor.
A notícia de que aquela era a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe não surpreendeu a Boaz quando ele perguntou ao encarre¬gado dos segadores quem era a nova jovem que rebuscava no campo (versículo 5). Boaz imediatamente responde com a instrução de que ela deve ser tratada com respeito (versículo 9). Rute recebe esta iniciativa como um sinal da graça (versículo 10), outra indicação para ela, talvez, da graciosa providência do seu novo Deus.
Aqui, porém, um outro aspecto do significado da graça começa a se tornar claro. Já falamos do relacionamento cheio de graça entre uma pessoa e Deus, que capacita colocar as mudanças e as oportunidades dos acontecimentos deste mundo dentro de uma nova perspectiva: ver "o mundo inteiro nas mãos dele". Também mencionamos a graça através do sofrimento, o qual sustentou Noemi em suas amargas experiências: uma graça que é suficiente, que é "perfeita" em situações de fraqueza humana. Vemos aqui que a graça também tem muito a ver com a provisão das necessidades pessoais. Em sua graciosa providência, além de governar o seu mundo, Deus também o sustenta e provê o necessário. O salmista adora a Deus pela sua grandeza, não apenas como Criador, mas também como sustentador e provedor.42 O mundo não é apenas um mundo ordeiro (como o indica a nossa compreensão da criação e o fato de o empreendimento científico ser possível); é, como dissemos, um mundo contingente, lembrando-nos a nossa contínua e constante dependência da graça mantenedora de Deus. A manutenção e a provisão de Deus para o seu mundo também são um aspecto de sua graça. E a sua provisão cheia de graça para conosco geralmente se expressa através da generosidade cheia de graça dos outros. É Noemi quem, naquele mesmo dia (2:20), relaciona mais claramente a generosidade de Boaz com a provisão cheia de graça de Deus; mas talvez mesmo antes essa relação já tivesse começado a despontar na mente de Rute. Boaz empenhou-se em ser gentil: "Não vás colher a outro campo ...ficarás com as minhas servas ... e irás após elas ... Quando tiveres sede... bebe do que os servos tiraram" (2:8-9). Certamente suas palavras gentis e a oferta de pelo menos uma posição temporária em sua casa (ficarás com as minhas servas) foram um conforto para a viúva de Moabe. Talvez fossem para ela o primeiro sinal do fim do escuro túnel que ela vinha atravessando desde a morte do seu marido. Foram um sinal de esperança.

Humildade e responsabilidade
"Deixa-me rebuscar... Então ela, inclinando-se, rosto em terra... não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas (2:7,10,13). Se Boaz percebeu em Rute a devoção de sua lealdade para com Noemi, não poderia deixar de perceber nela a sua humildade em relação a ele. Embora a lei, como já vimos, exigisse o cuidado para com os pobres, Rute não insistiu em seus direitos. Humildemente ela pedira permissão ao servo encarregado: Deixa-me rebuscar. Este humilde reconhecimento de sua dependência também se vê na sua outra resposta: "Mas o que estou dizendo ao me chamar tua serva? Eu não sou digna de ser comparada com a menos importante das tuas servas!"43
Em seu importante comentário sobre direitos humanos (Human Rights: a Study in Biblical Themes), Christopher Wright começa, não com "direitos", mas com a "responsabilidade para com Deus", que ele considera como a característica essencial do que significa ser humano.
Não podemos escapar à responsabilidade, pois isto não está em nosso poder como criaturas. Mesmo tentar negá-la é reconhecer sua realidade. Assim Caim, até mesmo ao tentar isentar-se da respon¬sabilidade para com o seu irmão, pelo simples fato de responder a Deus, admite a sua responsabilidade para com o seu Criador. E inseparável dessa responsabilidade primeira está o fato de que Deus nos considera responsáveis pelo nosso próximo. Considerando que não podemos escapar ao fato intrínseco de nossa constituição humana, que é a responsabilidade para com Deus, tampouco podemos fugir ao seu correlativo divinamente imposto, a nossa obrigação diante de Deus pêlos outros seres humanos.44
As características que mais se destacam em Boaz, um homem de fé, e em Rute, uma mulher de fé, aqui neste parágrafo, são as suas respectivas recusas de se apegarem aos seus direitos (Boaz como proprietário, Rute como rebuscadora). Temos, antes, evidências de sua humilde disposição de expressar a fé em Deus cuidando (Boaz para com Rute), e de gratidão e humildade aceitando o cuidado (Rute para com Boaz). Uma fé viva, às vezes, é demonstrada no ato de dar, outras vezes, na disposição de aceitar com gratidão.
Como já notamos antes, nunca devemos formular a nossa com¬preensão da providência soberana de Deus de tal forma a diluir a nossa responsabilidade humana. A graça de Deus não elimina a nossa liberdade; antes, a graça cria a liberdade. E a primeira premissa de toda moralidade é que a pessoa moral é responsável. Na Bíblia, a responsabilidade fica atribuída às pessoas feitas à imagem de Deus, e contém o senso de "resposta" ao Criador, que nos considera responsáveis. Nossa compreensão cristã da queda humana, na qual o pecado desordenou todos os aspectos de nossa personalidade e relacionamentos, significa que uma responsabilidade humana to¬talmente restaurada deve estar ligada à nossa total restauração como pessoas, à medida que nos tornamos mais e mais semelhantes a Cristo. Assim, como em todos os aspectos da vida cristã, há uma ambiguidade no exercício de nossa responsabilidade entre o "agora" do hoje e o "ainda não" do futuro dia do Senhor. A responsabilidade é, portanto, uma admissão e um alvo. Devemos ficar atentos aos efeitos debilitantes dos pecados de outras pessoas, e dos nossos próprios, no exercício de nossa responsabilidade, mas não temos a liberdade de anular a nossa responsabilidade moral por causa de qualquer tipo de determinismo. Toda a nossa vida está sob o que
Barth certa vez chamou de "mandato global da liberdade res¬ponsável".'15 Ser responsável é viver como se prestássemos conta a Deus e cuidássemos dos outros, dentro dos limites da liberdade que temos neste mundo.
E existem limites. O fato de ser um mundo criado, estabelece limites à nossa liberdade. Somos livres como criaturas de Deus; portanto tal liberdade não é arbitrária. O fato de nossa constituição física, genética e psicológica coloca limites à nossa liberdade; somos o que somos, em certo sentido, por causa do que foram os nossos pais. Há limites estabelecidos pelas personalidades e necessidades dos outros: a lei do amor nos obriga a não exercer a nossa liberdade às custas da humanidade de qualquer outra pessoa. Somos obrigados, antes, a exercê-la para o maior bem dos outros. A existência do pecado também coloca limites à nossa liberdade, de tal forma que nem sempre somos capazes de fazer o que sabemos ser o bem, mesmo quando desejamos fazê-lo. E há limites morais à nossa liberdade, que indicam que, às vezes, temos que dizer "não devemos" quando a tecnologia diz "podemos". Estes limites precisam ser enfatizados em nosso contexto de devastação ecológica, na licenciosidade sexual, na proliferação das armas nucleares e no congelamento dos embriões humanos.
Responsabilidade é aprender a "amar dentro dos limites"46, é um diálogo responsável com as restrições que nos são impostas, sempre abertos à direção e à graça de Deus, sempre abertos às reivindicações éticas prioritárias das necessidades dos outros. E isto que a experiência da fé em Deus significava para Boaz e Rute. Podemos aprender com eles a importância de se viver dessa forma.

O Senhor da Aliança
O Senhor retribua o teu feito, c seja cumprida a tua recompensa do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio (2:12-13). Javé, o Senhor, como já observamos anteriormente, é o nome do Deus de Israel na aliança. De acordo com Êxodo 6:2s., o significado deste nome foi esclarecido a Moisés47 quando Deus prometeu, lembrando sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó, libertar e resgatar "com braço estendido" o seu povo, então escravo no Egito. Foi Javé, o Senhor, quem, de acordo com Êxodo 19:3ss., chamou Moisés e estabeleceu com ele a sua aliança no Sinai, uma aliança na qual percebemos pela primeira vez a ideia do "povo escolhido". Foi sob o nome Javé que, segundo Êxodo 20:lss., Deus enunciou os Dez Mandamentos, essa destilação fundamental de princípios e preceitos que descrevem o caráter de Deus e também o padrão de vida apropriado a um povo que fez aliança com Deus, que mais do que qualquer outra coisa estabeleceu os limites morais para o povo de Deus, e que, em maior ou menor extensão, se reflete em todas as outras leis do Pentateuco, no Antigo Testamento, como também no Sermão do Monte e nas cartas de Paulo, no Novo Testamento.
A aliança do Sinai foi modelada segundo os tratados de suserania comparativamente comuns no antigo Oriente Médio. Quando os reis dos grandes impérios (o Egito, os hititãs, a Assíria) conquistavam um reino menor, eles podiam permitir que o rei subjugado retivesse o governo do seu reino, contanto que fizesse um juramento de vassalagem ao conquistador.48 Através desse tratado de suserania, o subjugado jurava vassalagem ao "grande rei" conquistador. Esta terminologia passou para o registro israelita no seu relacionamento pactuai com Deus. Contrastando a aliança do Sinai com a aliança abraâmica que a precedera e a aliança davídica que se seguiu a ela, G. J. Wenham escreve:

A aliança do Sinai não teve como modelo um privilégio real, mas sim um tratado de vassalagem, uma forma legal em que as obrigações do vassalo são muito mais proeminentes. Mas mesmo então as leis são estabelecidas em um contexto de graciosa iniciativa divina. A obediência à lei não é fonte de bênção, mas aumenta a bênção já concedida.49
Há, portanto, um padrão de escolha divina e iniciativa da graça, de obediente reação humana em adoração e serviço, que, por sua vez, leva a um gozo maior de outras bênçãos divinas.
Voltando agora à oração de Boaz em favor de Rute (2:12), podemos ver uma clara evidência da consciência que este tinha de ser membro dessa família pactuai do Deus de Israel. O seu conhecimento de Deus como Javé, o Senhor; a sua descrição da graça de Javé em termos de "asas de refúgio"; seu reconhecimento, então, da reação humilde e obediente de Rute para com a graça, em sua devoção a Noemi; e, finalmente, sua expectativa de que o Senhor a abençoaria plenamente, tudo indica o padrão do relacionamento de Deus com o seu povo dentro da aliança. "Nestas palavras", comentam Keil e Delitzsch sobre este versículo, "vemos a piedade genuína de um verdadeiro israelita." "Retribuição" e "recompensa"

A devoção cristã sempre teve a devida cautela de não fazer o bem "por amor a uma recompensa". Mas as palavras que Boaz usa aqui são "retribuição" e "recompensa". Essa oração de Boaz pedindo a Deus um "pagamento" para Rute por seu devotado serviço deve ser entendida no contexto de sua fé no Senhor da aliança. A palavra "retribuição" é usada com diversas e diferentes nuances no Antigo Testamento. Está relacionada com a palavra "paz". Pode ter sentido de "pagamento", como quando Eliseu diz à mulher de um dos filhos dos profetas: "Vai, vende o azeite, e paga a tua dívida."50 Pode ter o sentido de "reparação". Se um boi ou um jumento caísse em uma cova que fora aberta por um homem e ficara sem cobertura, a lei do Livro da aliança exigia que ele fizesse a "reparação".51 Semelhantemente, "quem matar um animal, o restituirá: igual por igual".52 A mesma palavra é, às vezes, usada também para "restituição" ("Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador"53) e para "fazer paz".54 A palavra "recompensa", entretanto, é uma pa¬lavra pouco usada no Antigo Testamento, aparecendo outra vez apenas em Gênesis,55 sempre no sentido de "salário".
A oração de Boaz é, portanto, que Deus "recompense conveniente¬mente" a Rute por todo o seu sofrimento e altruísmo para com Noemi, que ela seja "suficientemente paga" e "restaurada a uma condição de inteireza e paz" novamente.
Mas por que deveríamos nos preocupar com "pagamentos" e "recompensas"? Não parece que, deixando de lado a piedade, passamos a um prudente interesse pelo que poderíamos receber por causa dela? Será que a fé de Boaz aponta para uma crença que diz ser preciso ganhar o favor de Deus através de serviço sacrificial? O Novo Testamento não destaca principalmente que somos justificados pela graça mediante a fé, e não pelas obras?56 Mas então nos lembramos de que o Novo Testamento também parece ter muito a dizer sobre recompensas. Jesus fala de um "grande galardão nos céus" para aqueles que são perseguidos.57 Ele ensina que o Pai que vê seus filhos dando esmolas, orando e jejuando em segredo, irá recompensá-los.58 Nem um copo de água fresca ficará sem recompensa; e Deus é chamado de "galardoador" daqueles que o buscam, e aquele que recompensa seus profetas e santos.5'' E agora? Talvez seja conveniente fazer aqui uma distinção entre o que se costuma chamar de recompensas "arbitrárias" e aquelas que são "verdadeiras" recompensas. As recompensas arbitrárias não têm qualquer relação direta com o comportamento que as causou. Não há necessariamente nada de errado em se ser recompensado arbitrariamente (como receber dinheiro por uma pintura a óleo que você criou). Seria um erro, 110 entanto, buscar a recompensa arbitrária só por amor a ela. É este o defeito dos hipócritas que tocam suas trombetas e oram nas esquinas e desfiguram seus rostos quando jejuam "para serem vistos pelos homens".
As "verdadeiras" recompensas, pelo contrário, são consequências diretas e integralmente relacionadas com o comportamento (como a satisfação de ser capaz de pintar depois de muita prática). Assim, a verdadeira recompensa de se dar esmolas, orar e jejuar é o relacionamento com Deus, o que essas atividades pretendem expressar. Portanto, quando Jesus insiste em que as boas obras deveriam ser feitas sem interesse em recompensa,60 ele também dá a entender que a "verdadeira" recompensa pela bondade deve ser deixada com Deus. Um precioso relacionamento com Deus é a "devida recompensa" da obediência amorosa em resposta à sua iniciativa de graça e amor. A Edição Revista e Corrigida capta o sentido, se não a tradução exata, de Gênesis 15:1: há algo do próprio Deus experimentado em todos os seus benefícios.62 A sua palavra a Abraão foi: "Não temas ... eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão." Calvino, comentando este versículo, diz que a palavra "galardão" tem a força de "herança" ou "felicidade". Ele insiste que deveríamos gravar profundamente em nossas mentes que só em Deus temos a mais elevada e completa perfeição de todas as coisas, e que "seremos verdadeiramente felizes quando Deus nos for propício; pois ele não somente derrama sobre nós a abundância de sua bondade, mas oferece-se ele mesmo a nós para que o desfrutemos."63
Qualquer pessoa que esteja completamente convencida de que a sua vida está protegida pela mão de Deus, e de que ela nunca pode ser miserável enquanto Deus for gracioso para com ela; e que, consequentemente, recorra a esta certeza em todos os seus cuidados e problemas, encontrará o melhor de todos os remédios para todos os males. Não que os fiéis possam ficar inteiramente livres de temores e cuidados quando sacudidos por temporais de lutas e misérias, mas porque a tempestade é acalmada no seu próprio peito; e, assim, sendo a defesa de Deus maior do que todo perigo, a fé triunfa sobre o medo.64
A oração de Boaz em favor de Rute fala de sua experiência de um relacionamento rico com Deus como a "devida recompensa" por sua lealdade para com Noemi, resultante, segundo ela crê, da nova fé no Deus da aliança de Israel.

As asas de refúgio
A oração de Boaz termina com esta frase, que de diversas maneiras focaliza o tema de todo o livro. Ela inclui este gracioso quadro de Deus como uma águia que estende as asas sobre os seus filhotes. O hino de Moisés registrado em Deuteronômio 32:lls. usa a mesma imagem: "Como a águia desperta a sua ninhada, e voeja sobre os seus filhotes, estende as suas asas, e, tomando-os, os leva sobre elas, assim só o Senhor o guiou." Figuras semelhantes encontramos nos salmos. As "asas" de Deus descrevem um lugar de segurança ("Esconde-me, à sombra das tuas asas, dos perversos"65) ou um lugar de refrigério ("Como é preciosa, ó Deus, a tua benignidade! por isso os filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas. Fartam-se da abundância da tua casa, e na torrente das tuas delícias lhes dás de beber"66). Em outras passagens a figura é de um lugar de quietude na tempestade ("Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia; à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades"67). Algumas vezes descreve um lugar de auxílio e descanso ("Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas eu canto jubiloso"68). Outras vezes o pensamento é de esperança quando as circunstâncias amedrontam ("O que habita no esconderijo do Altíssimo, e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio. Pois ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Cobrir-te-á com as suas penas, sob suas asas estarás seguro: a sua verdade é pavês e escudo. Não te assustarás ,.."69). Segurança, refrigério, quietude, auxílio, descanso, esperança: estas são as palavras associadas com as "asas" de Deus.
Há no ser humano um anseio básico por Deus, captado na figura do filho pródigo longe do lar, e na afirmação de Agostinho, de que nossos corações não encontram paz até que encontrem o seu repouso em Deus,70 e na "noite, no escuro e no medo" citados por alguns dos nossos escritores contemporâneos. Como satisfaz à pessoa "alienada", aquela que se sente "sozinha na insensível imensidão do universo",71 descobrir que, longe de estar "em pedaços" a antiga aliança, Deus está presente: Deus se importa, Deus governa, Deus provê.
Ó Senhor nosso Deus, que o abrigo de tuas asas dê esperança. Protege-nos e preserva-nos. Tu serás o Sustento que nos dá o apoio desde a meninice até quando as nossa cabeças ficarem grisalhas. Quando tu és a nossa força, nós somos fortes, mas quando a nossa força é a nossa própria, somos fracos. Em ti habita o nosso bem para sempre, e quando nos desviamos de ti, voltamo-nos para o mal. Faze que finalmente voltemos para o lar, ó Senhor, para que não nos percamos, pois em ti habita o nosso bem que não tem mácula, pois és tu mesmo. Não tememos que não haja lar para retornar. Nós nos afastamos dele; mas o nosso lar é a tua eternidade e ela não desmoronou porque nós nos afastamos.73
Que Rute encontre no Deus de Israel tal provisão para as suas ' necessidades! Sua porção foi a de uma viúva sozinha em terra estranha, e parece que ela agora se encontra em contínuo perigo de ser molestada (2:22). Ela passou fome, mudanças, ansiedade e sem dúvida ficou emocionalmente esgotada. Como precisa de um lugar de segurança e refrigério! Ela anseia por encontrar quietude, repouso e uma nova esperança. A oração de Boaz é que ela encontre tudo isto através da sua confiança em Javé.
Como nos revela o restante da história, descobrimos que aquele que fez esta oração é de fato aquele através de quem ela será atendida! É através do próprio Boaz que Rute recebe segurança, refrigério e alimento, encontra um lugar de repouso na alegria do casamento e a esperança de um novo lar e um novo nome familiar. Nós, na qualidade de povo da aliança de Deus, o Israel que pertence a Cristo, podemos fazer acertadamente a mesma oração para nós e para os outros. Podemos experimentar o refúgio de suas asas e ao mesmo tempo estar prontos para ser o meio de outros passarem pela mesma experiência. Como Helmut Thielicke expõe no final do seu grande sermão sobre o filho pródigo e o pai que o aguarda. "Há para todos nós uma volta ao lar, porque existe um lar."74

II - Voltando

Voltando para casa

1:8-22
2. Voltando para casa

A preocupação de Noemi (1:8-9)
Disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram, e comigo. 9 O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz.

A verdadeira fé sempre pode ser avaliada pêlos frutos do amor;1 e Rute, a moabita que veio a crer no Deus de Noemi, devia ter aprendido com esta a realidade da fé, experimentando seus benefícios através do amor praticante de sua sogra para com ela.
Noemi surge agora como a personagem principal de Rute 1. No desdobramento da "outra história", o tema da providência de Deus na sucessão dos acontecimentos de situações humanas nas quais Noemi e suas noras se encontram, e a subsequente provisão divina para com Rute e Boaz, vamos nos concentrar primeiro em Noemi e especialmente na fé inabalável de Noemi em Javé. Especificamente aqui vemos como a sua fé se demonstrou ativa em amor.2
Antes de mais nada, a preocupação amorosa de Noemi com suas noras encontra sua expressão na oração. Como já se disse com muito acerto: "O que um homem crê ou não crê a respeito da oração é uma boa indicação de suas crenças religiosas de um modo geral. O que ele crê sobre a oração é uma indicação do que ele crê sobre Deus. Mais particularmente, o que o homem faz com a oração é uma indicação do que ele crê a respeito dela."3
A oração é, e sempre foi, o lado ativo da doutrina da providência. A oração é o reconhecimento, não do benefício psicológico de algum exercício mitológico, mas do fato de que nós cremos que Deus existe, que Deus se importa conosco, que Deus está no controle e que Deus providencia tudo, e cremos de tal modo que estamos dispostos a fazer alguma coisa com base nisso, isto é, a falar com ele. A providência nos lembra que não passamos de criaturas, que somos dependentes de Deus e que, junto com o mundo todo, estamos sob o senhorio de Deus; a oração é uma atividade pela qual reconhecemos que não podemos ser nosso próprio senhor. A providência nos lembra que nem tudo é desesperadamente absurdo ou sem sentido; a oração é a nossa maneira de dizer "sim" diante da convicção de que Deus está operando os seus propósitos na natureza, nos homens e na história. A providência é um lembrete de que o Senhor é um Deus de graça e generosidade; a oração é a nossa maneira de responder ao seu convite para fazermos parte da família da sua aliança, para sermos seu filho ou sua filha, seus cooperadores neste mundo. A providência nos lembra que o Deus vivo não é um destino imutável diante do qual só podemos manter silêncio e ficar passivos; a oração é a nossa reação diante do convite de Deus para que partilhemos da comunhão com ele, uma expressão da nossa união com ele. Como disse P. Forster:
A profundidade do senhorio de Deus é tal que ele permite que tenhamos um lugar no seu governo do mundo ... isto aponta para a seriedade de nossas ações como cristãos. Não significa que estejamos segurando as rédeas do governo do mundo. Elas estão nas mãos de Deus. Mas nós temos o nosso lugar no seu exercício. Em sua onipotência e onisciência supremas, Deus quer partilhar sua vida conosco.4
Forster prossegue dizendo que Deus vai retificar e compensar nossa oração quando a responder. Não que a nossa oração seja a coisa certa e segura a fazer, e a resposta de Deus a coisa incerta e insegura. Pelo contrário, nós é que somos desafiados na oração, e não Deus.
Portanto, através da oração nós expressamos a nossa confiança na providência de Deus e descobrimos como a nossa própria vontade deve ser alinhada com a sua vontade soberana e cheia de amor por nós. A nossa ação na oração se encontra na sua resposta transforma-dora.
Isto aconteceu com Noemi em sua oração a favor de Rute e Órfã. Ela orou como alguém que conhecia o seu Deus como o Senhor da aliança. A sua oração aqui é de confiante entrega do futuro nas mãos do Senhor. Ao pensar em suas noras e nas necessidades delas, Noemi ora pedindo que o Senhor, o Deus da aliança, use de benevolência para com elas.

O amor da aliança
Benevolência (versículo 8) traduz a palavra central do relacionamento de Deus com o seu povo através da aliança: hesed, amor constante e fidelidade. É uma palavra "que combina o calor da comunhão de Deus com a segurança da sua fidelidade".5 É a palavra de amor que Moisés canta ao louvar o redentor,6 e pela qual o povo é convocado para a comunhão da aliança com ele. Noemi louva a Deus por seu hesed em 2:20, e Rute é louvada pelo seu em 3:10. Portanto, é uma palavra que nos diz algo do cará ter do Deus da aliança, e também diz algo das pessoas que demonstram esse caráter em suas vidas. Vamos retornar a este assunto no capítulo 4.
O correlativo desta palavra no Novo Testamento é ágape, que descreve o amor sacrificial de Deus pelo seu povo e o amor que ele espera que o seu povo demonstre em troca disso. Talvez a definição mais aproximada é a que encontramos em l João 4:10-11: "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pêlos nossos pecados. Amados, se Deus de tal maneira .nos amou, devemos nós também amar uns aos outros."
Noemi confia no Deus do amor e entrega Rute e Órfã aos cuidados dele. Suas noras demonstraram uma bondade maravilhosa para com ela e sua extinta família; que Deus demonstre o seu amor para com elas. Sua preocupação particular era que elas retornassem às suas próprias famílias em Moabe, onde aparentemente pelo menos os pais de Rute ainda viviam (2:11), e que se casassem novamente.

Um lar
O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido', isto indica principalmente o anseio por um "lugar de descanso".7 A palavra não se refere apenas ao fim dos problemas e do sofrimento (que Rute e Órfã pudessem superar a dor de suas perdas), mas também à experiência positiva da segurança e do conforto divinos. "Volta, minha alma, ao teu sossego (descanso)", canta o salmista, "pois o Senhor tem sido generoso para contigo."8
Para entender o pleno significado da oração de Noemi, temos de saber alguma coisa sobre a situação das mulheres viúvas naquele tempo. Considerando que o status das mulheres na sociedade do Antigo Testamento era muito aquém do que lhes foi concedido por Jesus 110 Novo Testamento (na sua maneira de tratar a mulher junto ao poço, com a siro-fenícia, Maria e Marta, como também no que ensinou sobre o divórcio, garantindo às mulheres direitos iguais aos dos homens),9 a situação da viúva era ainda pior. A esposa estava incluída na propriedade do marido, podendo ser repudiada, e não tinha direito de herança.10 Era, entretanto, bem superior a uma escrava e, especialmente quando nascia um filho do sexo masculino, era respeitada dentro da família. Mas a sua segurança repousava no marido e ela tinha poucos direitos próprios.
Portanto, quando morria o marido, a viúva (especialmente se tivesse filhos pequenos para sustentar) ficava em posição muito difícil. A palavra traduzida para "viúva" não apenas indica a morte do marido, mas também dá ideia de solidão, abandono e desamparo.11 As viúvas eram geralmente mencionadas junto com os órfãos e os estrangeiros.12 Elas tinham necessidade especial de proteção, e Javé cuida delas de maneira singular." Portanto, o povo era convo¬cado a cuidar do direito das viúvas e diversas leis do Pentateuco procuravam aliviar o destino delas.14 Contudo, a queixa do tratamento injusto recebido pelas viúvas é um tema constante nos profetas.15
A única esperança que restava de recuperar o status social para uma viúva ainda jovem era casar outra vez. Toda a profundeza de sen¬timentos extraídos de sua própria viuvez Noemi colocou em sua oração em favor das duas jovens: O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido.

A dor da separação (l:9b-14)
E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz, we lhe disseram: Não, iremos contigo ao teu povo. "Porém Noemi disse: Voltai, minhas filhas, por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos? nTornai, filhas minhas, ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: Tenho esperança, ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas, porque por vossa causa a num me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão. uEntão de novo choraram em voz alta; Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela.

O choro expressava a dor, e a dor era em parte um sentimento de ambivalência de Órfã e Rute, que precisavam escolher entre o seu amor por Noemi e a sua esperança de serem mães num segundo casamento. Inicialmente as duas se recusaram a partir, mas, com a insistência de Noemi, Órfã foi persuadida. O raciocínio de Noemi girava em redor da prática do casamento de levirato, que explicaremos mais detalhadamente na seção 5. Quando um homem morria sem deixar um filho homem, o seu irmão devia agir como "levir": isto é, tomar a viúva, a fim de gerar um filho para o homem morto. Talvez Noemi estivesse dizendo a Rute e Órfã que não havia irmãos vivos de Malom e Quiliom que pudessem agir como "levir" e, naturalmente, as jovens não podiam esperar que futuros filhos seus atingissem a idade de casar! De qualquer forma, Noemi já havia ultrapassado a idade de conceber.16
O autor pretende descrever um quadro de desesperança: Noemi está enfatizando a completa impossibilidade de providenciar pais para os filhos de Órfã e Rute.17 Conforme veremos, a situação estava longe de tal desespero, pois na providência de Deus, e através da ação de um goel (um parente remidor), Rute receberia um marido e um filho. Mas, por agora, essa esperança não estava ainda no horizonte. E Órfã foi persuadida a partir. Ela beijou Noemi, despedindo-se dela (versículo 14), e presumivelmente voltou a Moabe para procurar outro marido. A propriedade de Quiliom retornou para Noemi (4:9).
A dor não era apenas das noras. Tanto o sofrimento da própria Noemi como a sua participação na dolorosa escolha que Rute e Órfã tinham de fazer expressavam-se nas suas palavras: "Não, filhas mi¬nhas, porque por vossa causa a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão." Vamos retomar a este versículo quando chegarmos a Rute 1:21. Note-se, porém, que, apesar do sofrimento, seus pensamentos são voltados para o benefício dos outros (por vossa causa). E, apesar do sofrimento (e até mesmo ira), Noemi ainda se apega ao fato de que aquilo que recebeu veio das mãos do Senhor. Não há sentimentos ocultos, não há fingimento de que não existe ira, não há qualquer gesto estóico, nem falsas afirmativas de que tudo vai bem. Enquanto, da perspectiva de sua fé na providência de Deus, tudo vai bem, ela certamente não se sente assim. Como o grito de Habacuque diante de Deus por causa de seu aparente fracasso em evitar que se levantassem os opressores caldeus,18 para descobrir depois, finalmente, que os próprios caldeus faziamparte do propósito amoroso de Deus19 e havia, não obstante, fundamentos para confiança na força de Deus, até mesmo alegria,20 assim também Noemi, aqui, não esconde de Deus seus sentimentos mais profundos.
Muitos de nós até já esqueceram como se lamenta a morte de alguém. Embora devamos nos lembrar de que a fé cristã acabou com o aguilhão da morte e que há lugar para uma palavra gentil de compaixão em certas ocasiões ("Não chores!"21), não devemos negar a dor da separação daqueles que perderam os seus queridos. Chegará o dia em que a afirmação cristã da esperança de vida em Cristo se tornará a realidade do novo céu e da nova terra, quando "a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor";22 mas haverá momentos ainda deste lado do céu quando choraremos e lamentaremos antes de nossa tristeza ser convertida em alegria.23
Naturalmente, a fé cristã tomou obsoleta grande parte da lamentação pública prolongada e dolorosa pêlos mortos, o que era costume no Israel de antigamente. Embora os crentes em Javé fossem proibidos de praticar alguns rituais da morte dos cananeus, eles ainda ficavam, durante longos períodos, gemendo e batendo no peito depois da morte de um ente querido.24 A parábola de Jesus sobre as crianças lamentando os mortos quando brincavam de enterro25 indica que alguns desses costumes ainda prevaleciam no seu tempo. Mas, embora grande parte do desespero dessa lamentação tenha se transformado para o cristão com a morte e ressurreição de Cristo,26 ainda há uma tristeza muito espiritual quando perdemos um amigo e quando a morte penetra em nossa vida. Não foi por isso que Jesus chorou junto à sepultura do seu amigo?27 Em nossa tristeza pela morte, nós, como cristãos, somos sustentados pela esperança da ressurreição dos mortos. Mas não vamos fingir que a morte não machuca e que a tristeza não pode ser expressada. A tristeza é uma coisa real e a sensibilidade renovada pela graça de Cristo pode sentir-se profundamente ferida e, portanto, muito mais suscetível a revelar-se em lágrimas.
Após o choque inicial de dor pela morte de alguém, e após o pequeno período de serenidade forçada por causa dos outros (no funeral, por exemplo), o verdadeiro sofrimento muito naturalmente leva a uma experiência de retorno às emoções que alguns de nós esquecemos desde a infância. Sentimentos, às vezes de culpa, às vezes de raiva, vêm junto com uma tensão que anseia ser aliviada com lágrimas. É depois de passar por esta importante fase, na qual a dor pode ser expressa e chorada, que uma pessoa pode começar a se consolidar e a edificar novamente um futuro.28 Muitos de nós perdemos contato com os nossos sentimentos, ou esquecemos como é que se chora. Para nós geralmente é mais difícil atingir este estágio de reconstrução. Que as lágrimas dessas mulheres nos lembrem a im¬portância de não esconder nossos sentimentos, ou de não fingir que eles não existem. Maturidade implica aprender a expressar nossas emoções apropriadamente. Noemi passou pela dor e chegou à determinação de edificar uma vida nova no futuro.
Que Noemi também nos faça lembrar que nossos sentimentos mais profundos e nossas ansiedades não estão ocultos de Deus. Ela delibe-radamente apresenta a ele os seus sentimentos de maneira bem franca. Realmente, ela lança toda a responsabilidade do seu destino nas costas de Deus! Ela agora experimenta Deus como um inimigo (cuja mão foi descarregada contra ela). Dele foi também a mão por trás da fome e das mortes, primeiro de seu marido e, depois, dos sevis filhos. Mas ela mantém estas amargas experiências dentro do contexto da sua promessa, lembrando-se, e às suas noras, do seu nome:

Javé, o Senhor.
O que significa a fé em Javé em períodos de aflição? Mais tarde voltamos os olhos para o sofrimento e, às vezes, discernimos o bem que veio após ele. Outras vezes, não. Frequentemente, podemos crer, o sofrimento nos confronta, mais que qualquer outra coisa, com a transitoriedade e fragilidade de nossas vidas. O sofrimento, como bem se vê no livro do Dr. Martin Israel, The Pain that Heals (O Sofrimento que Cura), pode nos colocar em contato com dimensões mais profundas da vida espiritual. O sofrimento (que o Dr. Israel chama de "a face escura" de Deus) pode ser o caminho para o crescimento e a maturidade do caráter: dor que cura. Mas na hora não sentimos assim. Na hora, como o testifica a experiência de Noemi, a essência da confiança, durante toda a experiência da aflição, é nos colocarmos humildemente debaixo da mão de Deus, da qual recebemos o golpe, na firme crença de que (apesar de todas as aparências) é a mão do Pai de amor.
"Garante-me, ó Senhor, a força de atravessar o vale da sombra da morte de modo que, ao sair do outro lado, eu seja uma pessoa melhor, mais compassiva, mais aproveitável por ti como testemunha e mais útil ao meu irmão como servo."29
Uma fé assim deve ter tido uma influência vital na vida de Rute.

A fé de Rute (l:14b-18)
Órfã com um beijo se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. l5Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. l6Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. l7Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra cousa que não seja a morte me separar de ti. w  Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a ir com ela, deixou de insistir com ela.

Enquanto Órfã deu prova do seu amor na obediência ao desejo de Noemi de que partisse para se casar novamente, Rute demonstrou o seu amor tornando-se sua filha. Lemos que Rute se apegou a Noemi (versículo 14). Este verbo é a palavra que expressa um "apego" fiel e sincero em um relacionamento pessoal, como o do homem com a esposa no jardim do Éden.30 Também é usado em relação à sincera fidelidade que Deus espera do povo da aliança em resposta à sua iniciativa da graça salvadora.31 Rute, a moabita, ex-adoradora de Camos, está demonstrando uma qualidade de vida característica do povo de Javé.
Apesar de Noemi citar o exemplo de Órfã e da óbvia adequabilidade de que Rute permaneça com o "seu povo", e apesar de que, de acordo com a sabedoria humana, uma adoradora de Camos devesse obviamente permanecer onde os "seus deuses" eram adorados, Rute insiste em ficar com Noemi. O nosso autor apresenta aqui as palavras de Rute, sua clássica e bela afirmação de fidelidade, determinação e compromisso de amor. Rute quer compartilhar do futuro de Noemi: sua viagem, seu lar, sua fé. É a promessa de uma fidelidade sincera na vida e para toda a vida. Ou, por que não dizer, além da vida: os membros de uma família partilhavam do mesmo chão ao serem sepultados, pelo menos na Palestina primitiva;32 e supomos que isto também acontecia com o povo de Rute. Como diz Leon Morris, a firme determinação de Rute é que nada, nem mesmo a morte, vá separá-la de Noemi.33 E no centro desta expressão de amor e compromisso para com Noemi (na viagem, no lar, na família, na vida e na morte) está o compromisso de adorar o Deus de Noemi. Embora, num certo sentido, seja verdade que Rute talvez pensasse que uma mudança para Belém poderia implicar a necessidade de reconhecer "o deus de Belém",34 num outro, a sua fé mostra-se explicitamente mais profunda. Rute está disposta a colocar nos seus lábios o nome do Deus da aliança de Noemi, Javé, o Senhor, numa determinada profissão de fé naquele que fundamenta o seu juramento. Faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver: esta expressão deveria incluir um gesto invocando a punição de Javé sobre ela, caso deixasse de cumprir o seu voto.
A fé de Noemi com certeza era tão eficaz, mesmo na adversidade, apontando para o governo soberano de Javé, que Rute, através do testemunho de Noemi, foi agora capaz de exercer a sua própria fé no Deus dela e de se considerar agora como parte do povo da aliança de Javé. Não teria sido precisamente a fé de Noemi, em meio às incertezas, que mostrou a Rute o Senhor?
Com que frequência o Senhor usa as experiências do seu povo, especialmente em períodos de aflição e dificuldades, para atrair outros a si! Quando Moisés foi ao encontro de Jetro, seu sogro, ele contou "tudo o que o Senhor havia feito a Faraó e aos egípcios por amor de Israel, todo o trabalho que passaram no Egüo, e como o Senhor os livrara." Jetro se regozijou pelo livramento cheio de graça de Deus: "Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses."35
Da mesma forma, Paulo, preso sob a guarda romana, o que ele considerava como parte de sua "incumbência"36 para com Cristo, escreve aos leitores em Filipos: "Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as cousas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho."37 Por meio dos seus sofrimentos a igreja foi incitada a uma renovada devoção e Cristo foi pregado.
Aqui, nesta passagem, o Senhor está atraindo Rute à fé, certamente usando como testemunho persuasivo a experiência da graça de Noemi através da aflição. Um Deus que se revela no vale das sombras é digno de nossa confiança também nos dias de maior conforto.

Noemi ou Mara? (1:19-22)
Então ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi? 20Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi, chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-poderoso. 2}Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o Senhor se manifestou contra mim, e o Todo-poderoso me tem afligido? 22Assim voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega das cevadas.
Quando Noemi viu que Rute estava "resolvida", firmemente determinada por uma decisão inabalável (1:18), ela concordou, e as duas viúvas seguiram juntas para Belém. Quando chegaram, os homens, ao que parece, estavam fazendo a colheita da cevada, no começo da sega, isto é, em abril. Mas as mulheres (Knox as restringe a "todas as fofoqueiras"!) começaram a fazer perguntas. Noemi estivera fora durante muitos anos. Ela partira com marido e dois filhos, e voltava agora viúva com uma nora viúva. Talvez sua aparência falasse da amargura que tinham experimentado. Quando lhe perguntaram: Não é esta Noemi?, o jogo de palavras com o significado do seu nome é comovente: Não me chameis Noemi (que significa "alegre"); antes, chamai-me Mara (que significa "amargura"). Conforme percebemos em 1:13, ela crê que as amargas experiências que enfrentou vieram da mão de Deus: "porque grande amargura me tem dado o Toâo-Poderoso."

O Todo-poderoso
O título divino traduz a palavra hebraica Shadai, geralmente usada no Pentateuco e particularmente em Génesis. Discordam os autores sobre o significado de sua raiz, sugerindo alguns que mais provavel¬mente a etimologia relacione "Shadai" com "montanha", no sentido qualitativo de possuir durabilidade, solidez e veracidade.38 Contudo, se verificarmos o seu uso em Génesis, descobriremos três referências que podem esclarecer o seu significado, levando-nos ao pensamento de Noemi ao usá-lo.
Primeiro, em Génesis 17:1, descobrimos que Deus fez a um Abraão de noventa e nove anos de idade a promessa de gerar filhos, e se revela como "Deus Todo-poderoso". Aqui ele é o Deus que pode transfor¬mar a impotência do homem em bênção, para o bem do próprio homem e para a sua glória. Segundo, em Génesis 43:14, o velho Jacó, em sua perplexidade, concorda relutantemente com que os seus angustiados filhos retornem ao Egito, levando o irmão mais moço para o (até então) ainda não identificado José: "Deus Todo-poderoso vos dê misericórdia perante o homem." "Shadai" aqui fala da esperança da proteção de Deus para um período de incertezas. E, terceiro, em Génesis 49:25, a profecia de Jacó sobre os seus filhos fala da futura "fertilidade" de José apesar de todo o "embaraço", e o atribui ao "Todo-poderoso, o qual te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos das profundezas, com bênçãos dos seios e da madre." Depois de treze anos de sofrimento e isolamento na prisão, José é elevado a primeiro ministro do Egito! Esse tipo de bênção é característico de Shadai.
E é com referência a esse aspecto do caráter de Javé descrito por "Shadai" ("o Deus que é melhor quando o homem está na pior", como J. A. Motyer uma vez expressou) que Noemi apresenta a estrutura de sua fé naquele em quem ela deposita o seu sofrimento. É como se ela dissesse: "Vocês podem ver a amargura que tenho experimentado: a fome, a perda de entes queridos, as dúvidas, as separações, o aparente desespero; mas eu conheço Deus como Shadai, e posso deixar as explicações, e até mesmo a responsabilidade, desta amargura com ele."
Será que ela não estava conseguindo enfrentar a realidade? Será que Noemi estava errada em pensar assim? Será que ela estava acusando Deus do mal que sofria, usando aquele tipo de astuta explicação mais apropriada aos inúteis consoladores de Jó ao invés de observações que eram fruto de uma fé amadurecida? Não nos parece assim. Antes, parece que é exatamente a chave de como uma pessoa de fé aprende a enfrentar a dor e a incerteza das muitas tribulações da vida. Em um mundo, no qual, da perspectiva humana, as palavras do Pregador parecem sobremodo verdadeiras ("Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento")3'1, suas outras palavras podem fornecer o contexto completo, a perspectiva mais ampla dentro da qual a "vaidade" pode ser enfrentada: "não sabes as obras de Deus, que faz todas as cou-sas".40 É a pessoa que conhece o seu Deus como Shadai que pode perceber a outra história: que até mesmo a aparente falta de signifi¬cado do sofrimento terreno faz parte de um padrão da providência, e pode ser enfrentada quando colocada nas mãos de Deus. E não apenas Shadai, pois o Deus que se revelou nessa característica é o Deus que também declarou o seu nome ao seu povo: Javé, um nome que aponta para o seu amor expresso na aliança. E Noemi sabe que o Shadai com o qual ela pode deixar sua amargura é o Javé que a trouxe para casa.
Conta-se a história de um pregador que usava como ilustração os fios emaranhados do avesso de uma tapeçaria, destacando que grande parte da experiência desta vida "debaixo do sol", neste mundo decaído e afligido pelo pecado, em todos os seus diferentes caminhos, geralmente nos parece ser uma confusão de cores sem relação alguma, fios soltos e nós indesembaraçáveis. Apenas quando o outro lado da tapeçaria se torna visível é que esses mesmos fios nos apresentam o que foi bordado: "Deus é Amor". Talvez não vejamos o outro lado, que nós chamamos de "outra história", que está sendo escrito ao longo e ao redor da história humana a qual nós lemos às vezes de maneira tão dolorosa. Mas a fé é a garantia divina de que esse outro lado existe, e de que, no seu amor, até mesmo o sofrimento tem um significado.
Este é um tema exemplificado em outras passagens das Escrituras. Quando o salmista ficou desesperado por causa da prosperidade dos perversos e da aparente futilidade de uma vida honesta, de modo que até a sua própria fé parecia estar sendo tragada pela calamidade e pela dúvida, ele achou que era "mui pesada tarefa" tentar compreendê-lo. "Até que entrei no santuário de Deus": então o homem perverso e ele mesmo foram vistos a uma nova luz. Ele pôde, apesar da contínua incerteza, exclamar: "Todavia, estou sempre contigo, quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio."41 Davi também, no Salmo 30, chegou a "clamar" a Deus pedindo ajuda. Ele experimentou o que chama de "ira" de Deus. Ele chora e suplica a Deus, e descobre que até mesmo a profunda tristeza pode produzir alegria. O visitante noturno que chega vestido de "choro" é transformado pela luz do dia em exclamações de alegria.42
Nosso Senhor Jesus, também, ajudou os discípulos a entenderem suas perplexidades e dúvidas a uma nova luz e de uma perspectiva diferente. Quando, falando do sofrimento de um homem que nascera cego, eles perguntaram a Jesus "Por quê?" Eles não foram informados da causa ativa do sofrimento, mas apenas da causa final: "para que se manifestem nele as obras de Deus".43
Mas é na própria pessoa de Cristo que a plena revelação desta verdade se torna clara. O Novo Testamento o apresenta como o servo sofredor de Deus, como o Cordeiro de Deus sobre o qual foram colocados os pecados e as dores do mundo. Em Cristo, e em particular na vida de Cristo derramada na morte da cruz, o próprio Deus entrou e compartilhou das profundezas do sofrimento e do pecado deste mundo. Ele assumiu sobre os seus ombros a responsabilidade de resolver este assunto. Na horrível ruptura da comunhão entre o Pai e o Filho, focalizada no grito de abandono, Deus demonstrou o seu desejo de que a graça preciosa fosse conhecida em cada separação e sofrimento humano; ele ouve cada oração com o grito: "Meu Deus, por quê?" Além disto, com espantosa condescendência, ele nos convida a lançar sobre ele nosso pecado e nosso sofrimento, e até mesmo, poderíamos dizer, a desabafar sobre ele nossa ira, pois ele a pode suportar. Não é isto que acontece em alguns daqueles difíceis salmos "imprecatórios", quando o autor dá vasão à sua ira?
Frank Lake cita Robert Leighton, arcebispo de Glasgow no século XVII, que escreveu a uma mulher muito deprimida: "Eu a convido a lançar a sua raiva 110 seio de Deus." Então Lake prossegue, dizendo o seguinte em um parágrafo muito comovente:
O propósito da cruz de Cristo é atrair sobre ele a justa ira dos inocentes aflitos, que não podem se defender nem se vingar adequadamente para dar um fim à injustiça do momento e que tendem, portanto, a adiar e inevitavelmente transferir a reação, de modo que outras pessoas, relativa ou totalmente inocentes, vêm a sofrer. Cristo foi crucificado para que agora a nossa ira possa se esgotar, obedientemente e na fé, ferindo aquele que foi providenciado, o Cordeiro de Deus. Pecado passa a ser, então, "não crer em Jesus", não confiar nele para assumi-la e, ao assumi-la, acabar com ela.44
Precisamos aprender, na vida pessoal e pastoral, a aplicar o evangelho da graça de Deus em Cristo às mais profundas necessidades emocionais. Nossos sentimentos também estão dentro do escopo da providência de Deus.
Neste primeiro capítulo de Rute, Noemi compartilhou conosco a sua fé em Deus. É uma fé cujo brilho contrasta com as trevas dos seus sofrimentos. Ela viu a mão do Senhor na restauração da bênção de Belém; reconheceu a mão divina levantando-se contra ela na amarga experiência da morte; buscou o seu cuidado e proteção para Órfã e Rute; deu testemunho do Todo-poderoso na dor, quando de sua volta às antigas amizades. Esta é uma fé e uma confiança em Javé que reluz maravilhosamente na tela de fundo obscura e cheia de dúvidas dos dias em que os juizes julgavam. É a fé em Javé que levou Rute a confiar nele: a fé na qual se baseiam os subsequentes capítulos de nossa história.
Rute e Boaz assumem os papéis principais no restante do livro. Noemi, porém, volta no capítulo 2 de Rute como a intérprete à luz da providência de Deus; e, em Rute 3 e 4, ela é o agente de bênçãos divinas providenciais aos outros.


O amor é quente como as lágrimas,
O amor são lágrimas: Pressão na cabeça, Tensão na garganta, Dilúvio, semanas de chuva, Montes de feno inundados, Mares sem forma entre as sebes; Antes tudo era verde.
O amor é ardente como fogo,
O amor é fogo: Todo tipo: fogo do inferno, Cheio de avidez e orgulho, Desejo lírico, forte e doce, Risonho, mesmo quando desejado, E essa chama celeste De onde vem todo o amor.
O amor é suave como a primavera,
O amor é primavera: Cânticos de aves pelo ar, Aromas frescos nas matas, A sussurrar: "Coragem!" Dizendo à seiva, ao sangue: "Calma, segurança e repouso São bons; mas não o melhor."
O amor é duro como os cravos,
O amor são cravos: Duros, grossos, martelados Nos nervos mediais daquele Que, tendo nos feito, sabia O que ele tinha feito, E vendo (com tudo isso) A nossa cruz e a dele.
C. S. Lewis (1898-1963)

I - Partindo




PARTE I -  AS LÁGRIMAS




1. Partindo

Preocupação com as coisas comuns (1:1)
Nos dias em que julgavam os juizes ...um homem.

Em um mundo dominado (se acreditarmos nos meios de comunicação) pela "crise" e pêlos "desafios", no qual cada pequeno acontecimento pode ser transformado em manchete, contanto que haja nela uma "história interessante" (e até mesmo em uma igreja, onde o incomum e espetacular costuma ser recebido por certas pessoas como mais autêntico que a monotonia e a rotina), é um alívio abrir o livro de Rute. Já descrevemos a agradável simplicidade de seus assuntos: a vida do interior, suas alegrias e tristezas, suas "virtudes agradáveis" e, especialmente, sua concentração nos personagens à volta dos quais se tece a história. Isto se destaca mais ainda pelo contraste com o livro dos Juizes, com o qual as palavras iniciais estabelecem uma ligação. O livro de Juizes termina com uma referência ao caos social e à miséria pessoal resultantes da falta de autoridade justa entre o povo: "Naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto."1 O livro de Juizes foi pintado numa tela grande. Embora apareçam no livro personagens individuais, sempre surgem no contexto da guerra civil, das convulsões nacionais, dos assuntos internacionais. Mas o livro de Rute, embora não fique totalmente esquecido do significado nacional, e até mesmo global, dos seus personagens, trata de um < homem, sua família e seu destino. Lembra-nos de que o Deus das nações também está interessado nas coisas comuns relacionadas a "um homem".
Nosso Senhor, que nos ensinou a orar ao "nosso Pai que está no céu" e a elevar nossos corações e mentes para a visão global da vinda do seu reino (pois seu é o reino e a glória para todo o sempre), também nos ensinou a orar pelo pão nosso de cada dia. Deus, que sabe quando um pardal cai ao chão e que nota quando oferecemos um copo de água fresca a quem precisa dele,2 também se interessa pelas coisas comuns. Como Helmut Thielicke o destaca:
Diga-me até que ponto você considera Deus sublime e eu lhe direi quão pouco ele significa para você. Este pode ser um axioma teo­lógico. O Deus sublime foi arrancado de minha vida particular... Se Deus não tem significado para as minúsculas peças do mosaico de minha vidinha particular e para as coisas que são do meu interesse, então ele não tem significado algum para mim.3
O interesse de Deus no destino de um homem nos dias em que julgavam os juizes deveria nos lembrar que até mesmo as nossas coisas mais comuns são significantes para Deus e se encaixam no seu cuidado todo-poderoso.

A fome (1:1)
Nos dias em que julgavam os juizes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de Moabe, com sua mulher e seus dois filhos.
Mudar de residência não é uma tarefa que a maioria das pessoas assume com leviandade. É uma coisa dispendiosa e inquietante. Implica arrancar raízes e deixar amigos e vizinhos. Geralmente leva a procurar uma nova casa, estabelecer uma nova vizinhança, co­nhecer outras pessoas. Para uma família é um verdadeiro terremoto. Embora Elimeleque certamente não tivesse a mesma quantidade de utensílios domésticos para transportar que um chefe de família moderno, não foi uma decisão menos importante para ele. Ele re­solveu sair de Belém por causa de uma fome.
Belém de Judá era uma cidade, cerca de oito quilómetros ao sul da atual Jerusalém. Seu nome significa "casa do pão", nome que aponta para a incomum fertilidade daquela região para o plantio de cereais (como o esclarece o capítulo 2 do livro de Rute), Também destaca que a fome era fora do comum. Alguns comentaristas crêem que a fome local na região de Belém (aparentemente não havia tal dificuldade cerca de oitenta quilómetros a sudeste, em Moabe, do outro lado do atual Mar Morto) devia-se em parte às pilhagens associadas com o período caótico dos juizes. A invasão midianita no período de Gideão, por exemplo,4 destruiu a lavoura e o gado.
Por causa da fome, Elimeleque decidiu que ele e sua família iriam morar durante algum tempo como estrangeiros residentes (peregri­nos) na terra de Moabe.
Não temos certeza do que o induziu a partir. Embora a religião cananéia procurasse controlar o processo da natureza com os seus niveis da fertilidade, o povo de Javé fora ensinado a confiar nele conquanto à prosperidade da terra. Será que a fome, na mente de Elimeleque, era um sinal do descontentamento divino?5 Não sabe­mos. Sabemos que outros belemitas permaneceram na terra à espera tio final da fome e, ao que parece, passaram muito melhor do que lilimeleque (versículo 6). À luz dos acontecimentos subsequentes, fie.imos imaginando se o autor não pretende nos levar a pensar que lilimeleque não foi sábio na sua atitude! Certamente a viagem não alcançou o seu objetivo: escapar da morte. Todos os três homens da fnmília morreram em Moabe. Além disso, com a mudança, morreram numa terra estranha, deixando Noemi, a viúva, muito mais desolada do que se tivesse permanecido na companhia dos seus conhecidos.
Ali, com tantos lugares, por que ir a Moabe?!
Localizada no planalto, ao leste do Mar Morto, Moabe era povoada pt-Ios descendentes de Ló.6 Embora não tivessem sido atacados pêlos israelitas em seu retorno à terra prometida depois do êxodo, apesar de sua falta de amabilidade característica, os moabitas não deviam ser admitidos na congregação de Israel.7 Por quê? Eles eram adoradores ile Camos, um deus ao qual aparentemente se faziam sacrifícios humanos. Os moabitas eram, às vezes, chamados de "povo de Camos".8 Além disso, durante o primeiro período dos juizes, Eglom, rei de Moabe, invadiu a terra dos israelitas e manteve o povo de Israel na escravidão durante dezoito anos.9 Portanto, era um lugar muito estranho para um crente em Javé, habitante de Belém, escolher para morar. Por que não foram para algum lugar onde se adorava Javé? Será que era falta de confiança na providência de Deus? Embora elogiando o pretenso desejo de Elimeleque de cuidar de sua família durante a fome, Matthew Henry pergunta como se poderia justificar a mudança a Moabe. "Aborrecer-nos com o lugar no qual Deus nos coloca e abandoná-lo na primeira oportunidade, logo que nos depara­mos com algum desconforto ou alguma inconveniência, é evidência de um espírito descontente, desconfiado e instável."10
Não temos dados suficientes para saber se a atitude de Elimeleque justifica o comentário de Matthew Henry. Porém, mesmo que a atitude de Elimeleque implique falta de fé ou expressão de desconten­tamento para com Javé, o restante do livro de Rute demonstra amplamente que a providência graciosa de Deus não é limitada pela loucura do homem. A alegria final na família e o propósito de sua história, resultante da entrada de Rute no cenário, demonstram a rica benignidade da providência de Deus. Ver que tais benefícios foram colhidos como resultado de uma conduta impensada é uma evidência
de seu amor. Felizmente, a providência de Deus cobre até os nossos erros!

Os nomes (1:2-5)
Este homem se chamava Elimeleque, e sua mulher, Noemi; os filhos se chamavam Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; vieram à terra de Moabe e ficaram ali. 3 Morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos, 4os quais casaram com mulheres moabitas; era o nome duma Órfã, e o nome da outra Rute; e ficaram ali quase dez anos. 5 Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando assim a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.
Para o nosso autor, os nomes são significativos. Temos alguns personagens no livro cujos nomes não são mencionados, como o "resgatador" que aparece em Rute 4:1. Portanto devemos presumir que, se o escritor nos cita nomes, é com algum propósito especial. Na maneira hebraica de pensar, saber o nome de uma pessoa é conhecer o seu caráter, conhecer a pessoa. O nome é a pessoa. Quando Abrão se tornou uma nova pessoa, ele recebeu um novo nome.11 Quando o nome de uma pessoa é destruído ou retirado, a pessoa, é extinguida da memória humana, como se nunca tivesse existido.12 Era uma coisa terrível ser deixado sem nome nem descendentes.13 Portanto, quando Deus diz o seu próprio nome, está falando do seu caráter e comparti­lhando o seu próprio ser com aqueles aos quais falou.14 "Javé" é o seu nome pessoal, o nome do Deus da aliança.
Elimeleque significa "meu Deus é rei". Alguns comentaristas, como Henry, que já citamos acima, imaginam que talvez haja alguma censura implícita no fato de citar este nome. Não deveria tal nome expressar dependência e confiança em Deus? Com certeza deveríamos lembrar que para todo aquele que pode dizer "meu Deus é rei", embora não receba uma promessa de uma vida livre de problemas, há sempre a promessa do pão de cada dia e a certeza de que não há necessidade de ficar morbidamente ansioso por causa do amanhã.15 Parte do significado da fé pode ser expressa declarando que a f é é aquilo que Deus nos dá para nos ajudar a enfrentar as incertezas da vida. Será que Elimeleque vivia de acordo com o seu nome?
Noemi significa "amável, encantadora, agradável". E o comovente significado deste nome destaca-se mais tarde, quando Noemi volta de Moabe com sua nora Rute, entristecida pelas experiências amargas que ela cria ter recebido da mão do Senhor. "Não me chameis de
Noemi", ela diz aos seus vizinhos, "chamai-me Mara; porque grande .unargura me tem dado o Todo-poderoso" (1:20).
Malom e Quiliom, os filhos de Noemi, aparentemente tinham anti­gos nomes cananeus, mas foram aqui mencionados devido ao seu sig-n i ficado dentro do cenário, para que entendamos as lágrimas e o sofrimento do restante de Rute 1. "Malom" parece estar ligado a uma raiz cujo significado é "estar enfermo"; e "Quiliom" significa algo assim como "enfraquecer", ou "definhar", ou até mesmo "aniqui­lação".
Órfã e Rute são nomes moabitas e os seus significados não são muito claros. Mas o que está claro é a sua nacionalidade. Os filhos de lïlimeleque casaram-se com adoradoras de Camos e, embora tal casamento não fosse aparentemente proibido,16 os moabitas não eram admitidos na congregação para o culto.17
A família, diz-nos o autor, era de efrateus. Efrata é uma palavra geralmente associada com Belém, mas o seu significado é muito incerto. As passagens onde aparece sugerem que há uma dignidade especial ou alguma importância em se estar ligado a um efrateu. Aqui, provavelmente, indica que estamos sendo apresentados a uma família bem estabelecida. Certamente, quando Noemi voltou, não era uma pessoa sem importância (1:19). Talvez, como sugere Leon Morris,18 sua família pertencesse à "aristocracia" local, uma família que, quando partiu para Moabe, era conhecida como de pessoas ricas ("Ditosa eu parti", 1:21). Mas a riqueza e o prestígio não são garantias de fe­licidade material ou de ausência de sofrimento. A fome angustiou a família o suficiente para que esta abandonasse o seu lar e partisse para Moabe. Depois, além da perda do conforto físico e da segurança do lar, veio a dor, não de uma morte, mas de três. Noemi, em quem se concentra este primeiro capítulo de Rute, ficou sozinha, sem lar, sem marido, sem filhos, sem amigos, sem esperança, sem herança. O que o culto a Javé significava para ela agora?

A morte (1:3-5)
Morreu Elimeleque... 5Morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando assim a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.
A morte, num certo sentido, é um dos acontecimentos mais natu­rais da vida, mas, num outro, é o menos natural. Todos os homens são mortais;19 o tempo de permanência do homem aqui na terra é limi­tado. A morte inexoravelmente lembra o homem de sua fragilidade e limitação; limitação essa (o salmista nos diz) da qual o Senhor não fica esquecido, e que faz par te do significado da compaixão que sente para com o seu povo: "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura, e sabe que somos pó."20 Assim como toda a "natureza", a morte faz parte do homem desde o princípio. E certas casas funerárias modernas parecem recusar-se a crer que ela seja real.
Que significado, ficamos imaginando, o crente em Javé dava à morte quando Noemi ficou desamparada de seus dois filhos e de seu marido? Eles não tinham consciência da transformação do significado da morte trazida pelo Novo Testamento. Eles tinham muito menos fundamento do que nós para crer na vida após a morte. Não poderiam ter entendido a plenitude do significado das palavras de Paulo sobre a morte, que "perdeu o seu aguilhão", ou da sua descrição da morte como um simples "adormecer".21 Mas não devemos esquecer a confiança de Davi em que estaria com o seu filho morto,22 nem o pensamento positivo dos Salmos 49 e 73. Mesmo para um homem de fé do Antigo Testamento, morrer era "dormir com os seus pais", ou "ser reunido ao seu povo".23 E o desespero expresso em passagens tais como o Salmo 88 parte daquele que se julga alienado da com­paixão de Deus, morrendo sob a sua ira, e não de um crente ple­namente confiante na graça de Deus.
Mas é a ressurreição de Jesus Cristo que dá forma àquilo que para o cristão agora é uma certeza: para o crente a morte proporciona comunhão infinita com o Senhor.24 Para o cristão, morrer é "zarpar rumo a outra terra".25 Nossos corpos são preparados para uma vida espiritual mais completa, preparados para a vida no céu, com seus correlativos celestiais mais ricos do que os corpos físicos que são apro­priados para este mundo de espaço e tempo.26 A esperança cristã aguarda "aquela grande multidão que ninguém pode enumerar", cujas roupas foram alvejadas "no sangue do Cordeiro", que ficarão em pé diante do trono de Deus e o servirão "de dia e de noite no seu santuário".27
Algumas partes do Antigo Testamento dão indicações destas afir­mações de fé. Isaías, numa seção que poderia ser considerada como a base da fé no destino pessoal, como também da sorte da nação, fala do tempo quando o Senhor "tragará a morte para sempre e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos." Então ele afirma que "os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó."28 E nas visões apocalípticas de Daniel, ele se estende pela fé em busca daquilo que talvez apenas perceba indistintamente: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e horror eterno."29
Mas, de um modo geral, a morte no Antigo Testamento é um estado nmbíguo e escuro. De um lado, os mortos são às vezes considerados como aqueles que foram separados da esfera da influência de Javé. A morte para eles significa o fim de um relacionamento consciente com Deus; já não se ouvem mais louvores a Javé. A morte é o rei dos terrores.30 O submundo tenebroso do Seol, o lugar dos mortos, é um local profanado que enfatiza o horror da morte. O crente em Javé não deve tentar alcançar aqueles que morreram, nem deve, como os demais cananeus, ocupar-se em rituais da morte, como cortar o cabelo ou ferir sua carne como um reconhecimento do poder da morte.31 O povo de Moabe, entre o qual Noemi habitava, possivelmente tinha atitudes para com a morte que eram intoleráveis para o crente em Javé (indicadas, talvez, pelo modo como Amos teve de denunciá-lo porque "queimou os ossos do rei de Edom, até os reduzir a cal"32).
Por outro lado, também encontramos no Antigo Testamento uma forte fé em Javé como Senhor, e o Senhor da vida.33 Nenhum outro soberano pode reinar no reino da morte. Assim, neste vácuo, a fé em Javé cria indícios de esperança. O salmista, quando se encontra à beira da morte, clama a Javé para que se lembre dele; e, em outra passagem, o poeta expressa a certeza de que Deus vai recebê-lo através da morte numa outra vida.34 Ou, então, mesmo que venha a fazer a sua cama no Seol, "lá estás também". O Senhor não vai abandoná-lo.35 Há um sentido no qual, no momento da morte, Javé vai "arrebatar" o crente para que fique em comunhão com ele.36 O próprio Deus está presente junto ao crente na vida e na morte, e não vai abandoná-lo no reino de Seol.
Quanto desta fé crescente Noemi partilhava nós não sabemos. Talvez ela tivesse vislumbres dessa verdade que nos foi totalmente revelada no Novo Testamento: para aquele que se aproxima de Deus pela fé, a morte, num certo sentido, já ficou para trás. Os crentes cristãos são "batizados na morte de Cristo"37 e, embora a sua morte física ainda tenha de acontecer porque a glória completa ainda não foi revelada,38 sua comunhão contínua com o Senhor é coisa segura.
Mas seja quanto for que Noemi tenha captado sobre o significado da morte para o crente em Javé, existem dois aspectos de suas próprias circunstâncias que são evidentes. Primeiro, seu marido e filhos haviam morrido prematuramente. Como podemos nos identifi­car bem com a tristeza do Antigo Testamento, quando enfrentamos aquilo que os que ficam só podem classificar de morte prematura! Abraão morreu em idade avançada, um homem velho e cheio de anos. Numa vida assim há realização, como na de Jó, que viu seus filhos, netos e até mesmo bisnetos.39 Mas a morte de uma pessoa jovem tem um tom de tragédia: "Em pleno vigor de meus dias hei de entrar nas portas do além; roubado estou do resto dos meus anos."40 Hagar, a mãe, lamenta a morte iminente de seu filho: "Assim não verei morrer o menino"; e Davi sofre com a morte do seu filho.41 Para Malom e Quiliom certamente, e podemos imaginar que também para Elimeleque, a morte chegou cedo na vida; eles foram "roubados" do resto dos seus anos. E Noemi ficou desamparada de seus dois filhos e de seu marido muito cedo na vida.
Em segundo lugar, embora o livro de Rute apenas nos dê um rápido vislumbre de fé em que a morte não seja o fim da comunhão (1:17), havia uma certeza. O nome do homem não deve ser esquecido. Seu nome permaneceria na sua herança. Como era importante para ele, portanto, que tivesse um filho (4:5,10)! E como deveria ser desespera-dor, portanto, para Noemi o fato de que, além de ter perdido os três homens de sua família, ela não tivesse um único herdeiro através do qual os nomes deles continuassem e sua herança ficasse garantida! Seus homens morreram, e com eles os seus nomes!
Aqui o autor coloca um desastre em cima do outro na vida de Noemi, dando-nos um senso real do choque que atinge uma pessoa nessas condições. Ela certamente não havia merecido; com certeza fora inesperado. Não estaremos penetrando aqui no lado oculto da providência de Deus: o fato de que certos sofrimentos nossos parecem insuportáveis; algumas de nossas circunstâncias parecem tão injus­tas; e algumas de nossas perguntas ficam sem respostas?
Com Noemi aprendemos que fé, às vezes, significa uma disposição de deixar essas perguntas como mistérios de Deus, na confiança de que, em dias melhores, ele tem se mostrado fidedigno.

O Senhor visita (1:6-7)
Então se dispôs ela com as suas noras, e voltou da terra de Moabe, porquanto nesta ouviu que o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. 7Saiu, pois, ela com suas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá,...
A nossa memória mantém vivo no presente o significado das experiências passadas. Com que frequência o povo de Deus recebeu a instrução de "lembrar" de como Deus o ajudou no passado. Depois do êxodo do Egito, na noite de Páscoa, a primeira palavra de Moisés , ao povo foi: "Lembrai-vos deste mesmo dia ... pois com mão forte o Se-nhor vos tirou de lá." Eles deviam se lembrar do seu tempo de escravos no Egito como um incentivo para a guarda do sábado; deviam lembrar que o Senhor era o seu Deus. Quando tivessem medo, deviam se lembrar do poder do Senhor. Quando repousassem em bênçãos, deviam se lembrar de que também o tinham provocado à ira. Ci rande parte das regras éticas de sua sociedade estava fundamentada na lembrança do tempo em que eram escravos e na salvação de Deus. Nos dias dos juizes, logo depois que Gideão morreu, houve proble­mas, porque o povo se voltou novamente para Baal e não se lembrou do Senhor seu Deus.42
Mas Noemi se lembrou. As linhas de comunicação com os amigos da pátria continuaram abertas. Pelo testemunho posterior de Rute vemos que Noemi fora uma servidora fiel de Javé em Moabe. Ela man­tivera viva em sua consciência a realidade da ajuda do Senhor ao seu povo no passado. E aguardava sinais da sua ajuda no presente. Como o salmista, quando consumido com sofrimento e depressão, Noemi sem dúvida consolava-se "invocando os feitos do Senhor". Como Jonas em seu nada invejável estado aquático, a mente de Noemi estava em oração ("Quando dentro em mim desfalecia a minha alma, eu me lembrei do Senhor; e subiu a ti a minha oração").43 Nos tempos de provação, fé às vezes significa deixar as dificuldades nas mãos de Deus, mesmo sem receber uma resposta. Uma fé assim é fortalecida pela lembrança constante de como Deus nos ajudou no passado. Pedro insiste com os seus leitores cristãos para que tenham em mente as promessas e os dons graciosos de Deus, e que os tenham como lembrete.44 E, acima de tudo, somos aconselhados a lembrar, a des­cansar e a nos alimentar da graça salvadora de Deus em Cristo sempre que comermos o pão e bebermos o cálice do Senhor "em memória" dele.45 A fé é uma caminhada de confiança e crescimento; é um móbile em movimento, não uma vida estática. E quando algumas partes balançam por algum tempo nas sombras, confiamos que aparecerão de novo na luz, como já aconteceu muitas outras vezes. Parte da espiritualidade dos homens e mulheres de fé no tempo de Noemi consistia em meditar nos grandes feitos de Deus no passado, e podemos aprender com eles a manter assim a fé viva em períodos de trevas.
Assim, o coração de Noemi permaneceu em Judá e ela não se esqueceu do seu Deus. Na verdade os seus ouvidos ficaram alertas às notícias que chegavam a Moabe, de que Javé não abandonara o seu povo: a fome terminara, o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão. O Senhor, como já dissemos, traduz o nome de Deus, Javé. Ele é o Deus cujo nome pessoal indica o seu caráter: o Deus que está em atividade, o Deus que vem ao encontro do seu povo na necessidade, o Deus que liberta o seu povo pela ação de um remidor (goel)-46 É através do caráter deste Senhor, revelado ao seu povo gerações antes, que Noemi mede agora a amargura de suas perdas e do seu isolamento (1:13, 21). É este Senhor que, descobrimos mais tarde, é adorado por Boaz e seus empregados, e cuja bênção é invocada sobre Rute (2:4,12). É este Senhor que é bendito por Noemi por causa da graciosa generosidade de Boaz, que é visto como o doador da vida e sob cujos cuidados providenciais Noemi finalmente encontra alegria (2:20,4:13-14). O livro de Rute é rico em sua revelação do tipo de Deus que é Javé.
O nosso autor anseia que o caráter deste Senhor domine a sua narrativa. É como se quisesse que os seus leitores colocassem os acontecimentos detalhados das alegrias e tristezas de sua história dentro do contexto do Deus cujo caráter foi descrito como "Javé".
Quanto significado existe na frase O Senhor se lembrará! As notícias que Noemi recebeu não são expressas em termos tais como "o tempo melhorou", ou "houve uma inversão económica", ou "a ameaça da invasão desapareceu". Tudo isso poderia fazer parte da cadeia das causas para a recuperação da fartura em Belém. Mas não, as notícias chegaram a Noemi em termos de ação do Senhor. Aqui há um tema central na Bíblia: toda a vida é traçada diretamente pela mão de Deus. Quando nos concentrarmos principalmente nas causas secundárias sentimo-nos encorajados a manipular o sistema. É a concentração na Grande Causa que nos ensina a viver pela fé.
Quando o Senhor "visita" o seu povo, ele o faz pelo julgamento47 ou através de bênção.48 O alimento que agora existia em Belém é entendido por Noemi como um dom de Deus. O sentido disto foi captado pelo salmista ("Abençoarei com abundância o seu mantimento, e de pão fartarei os seus pobres"49), como também pelo sacerdote Zacarias séculos mais tarde, quando ele se deleitou no nascimento do mensageiro do Messias ("Bendito seja o Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo"50). Com a confiança de Noemi nesse Deus, ela podia lidar, como veremos, com os sentimentos de ira que suas circunstâncias viessem a provocar.
Agora, com Rute e Órfã, ela inicia sua viagem de volta ao lar.